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XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano C

Breve comentário

O evangelista Lucas apresenta-nos várias discussões que Jesus teve com diversos grupos, após a sua entrada na cidade de Jerusalém: questão sobre a autoridade do ensino de Jesus no Templo (20,1-7) colocada pelos chefes dos sacerdotes, escribas e anciãos; a pergunta acerca do imposto ao Imperador (20,20-26) posta por alguns espiões que se fingiam de justos; logo a seguir, vem o nosso texto sobre a ressurreição com uma questão colocada pelo grupo dos saduceus.

O próprio Lucas informa que «os saduceus afirmam que não há ressurreição, nem anjos, nem espíritos; os fariseus professam todas estas coisas» (Act 23,8). A doutrina duma ressurreição pessoal era bastante recente no judaísmo, tendo surgido à volta do séc. II a.C., ao tempo da revolta dos Macabeus com o movimento dos hassidim, nacionalistas e fervorosos defensores da Lei, que veio a dar origem ao grupo dos fariseus.

Os fariseus olhavam para a ressurreição duma maneira demasiado materialista, ou seja, a vida noutro mundo era uma continuação desta vida, em tudo igual mesmo na actividade sexual, só que infinitamente melhor (na mesma linha estão hoje os muçulmanos). Tratava-se dum prémio para os justos.

O grupo dos saduceus era constituído pelos membros das altas classes sacerdotais, os descendentes do sacerdote Sadoc. Naturalmente, eram ricos, colaboravam com os dominadores romanos, não sendo, por isso, bem aceites pelo povo. Sob o ponto de vista religioso, eram conservadores, apenas aceitando como Palavra de Deus a Torah de Moisés, isto é, os cinco primeiros livros da Bíblia. Porque nestes livros não se fala de ressurreição, esta era rejeitada. Além disso, não sentiam necessidade dum prémio da parte de Deus, porque viviam bem e sentiam-se já recompensados nesta vida.

Uma forma de os saduceus contradizerem a ressurreição face aos fariseus era apresentar-lhes a Lei do Levirato, prescrita em Dt 25,5-7. Esta lei tinha como objectivo fundamental a centralização dos bens, sobretudo terras, para evitar que os bens de família fossem parar às mãos de estranhos. É esta a questão posta agora a Jesus: «Havia sete irmãos: o primeiro depois de ter tomado mulher, morreu sem filhos; o segundo, depois o terceiro, tomaram-na; e assim todos os sete não deixaram filhos e morreram. Finalmente, também a mulher morreu. Ora a mulher, na ressurreição, de quem será esposa, pois todos os sete a tiveram por esposa?».

O caso proposto a Jesus pelos Saduceus recorda-nos a história de Tobias, filho de Tobit, que se casa com Sara, filha de Raguel, viúva de sete maridos, todos mortos por Asmodeu, o demónio da luxúria, no momento em que se uniam a ela. Tobias tem o direito de a desposar porque era da sua tribo (Tb 7-9).

A um caso de paternidade sete vezes incompleta e que desemboca oito vezes na morte, Jesus responde dando uma volta à mentalidade dos saduceus e dos fariseus acerca da ressurreição. Se não há ressurreição, não será tomando mulher ou marido que se evitará a morte nem será por um homem ter filhos que evitará desaparecer. Apenas viverão aqueles que põem toda a sua confiança em Deus, o único verdadeiro Vivente. Os que viverem como filhos, recebendo tudo de Deus, não poderão morrer, porque Deus é Deus da Vida.

Jesus confirma a realidade da ressurreição citando um texto tirado do livro do Êxodo, com a narração da revelação de Deus a Moisés na sarça ardente. Os Saduceus evidenciavam o seu ponto de vista citando Moisés. Jesus refuta-os do mesmo modo, citando também Moisés: «E que os mortos ressuscitam, até Moisés o indicou na sarça, quando diz: “o Senhor o Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob”» (Ex  3,6).

Negar a ressurreição, por outras palavras, negar a Vida, equivale a negar a própria existência de Deus. Se os antigos patriarcas Abraão, Isaac e Jacob estão vivos, não é por terem gerado, mas pelo facto de terem sido gerados por Deus. Na ressurreição, na ordem de Deus, a única relação que existe entre as pessoas está na linha apenas da filiação divina: todos são filhos de Deus. Esta é a única relação que vem desde o princípio, que não se pode abolir, e é a mesma que define os anjos.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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