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Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

Breve comentário

O texto deste domingo, embora seja apresentado em estilo de narrativa ao gosto dos mestres judeus, é essencialmente uma catequese destinada a anunciar quem é Jesus, salientando sobretudo a sua divindade. Por isso, mais do que tentar procurar o que aconteceu, o evangelista convida-nos a perceber o que o texto catequético nos ensina.

A cena situa-nos numa aldeia da Galileia, chamada Nazaré. Quer a região da Galileia em geral, quer a aldeia de Nazaré em particular, aparentemente nada tinham de bom. A Galileia era olhada de soslaio pelos chefes religiosos de Jerusalém pelo facto de aí viver há séculos uma mistura de judeus e outros povos. A pequena aldeia de Nazaré, encravada nas montanhas da baixa Galileia, nunca referida no Antigo Testamento, não era destino para ninguém. Por isso, facilmente se entende a afirmação «de Nazaré pode vir alguma coisa de bom?» (cf. Jo 1,46).

Além de solene, o início é insólito, porque normalmente é o inferior que vai ter com o superior, o que não acontece aqui. O anjo é apresentado como uma pessoa que entra numa casa, sendo clara a intenção do evangelista em apresentar o acontecimento de modo concreto. Deus torna-se presente onde vivem os homens, no quotidiano da vida.

A destinatária é primeiro apresentada com a qualificação «virgem» (v. 27), sem dúvida digna de valor, repetida duas vezes no mesmo versículo. De facto, tal qualificação antecipa por parte do evangelista aquilo que a interessada dirá de si mesma no v. 34. Seguem-se outros pormenores, como a condição social de mulher que cumpriu a primeira fase do matrimónio, a descendência davídica do marido, o nome do marido e, por fim, não sem solenidade, o seu nome: Maria. A abundância de pormenores e o cuidado na escolha dos mesmos são um primeiro indício do papel importante que Maria tem na missão que Deus lhe quer confiar.

É importante recordar aqui que, entre os judeus, o matrimónio desenvolvia-se em duas partes: a promessa de casamento, ou «esponsais», e o compromisso definitivo em que o noivo ia buscar a noiva para sua casa. O compromisso dos «esponsais», em que os noivos não viviam em comum, era de tal forma sério que se considerava equivalente ao casamento, de maneira que, se surgia um filho, este era considerado filho legítimo de ambos. A Lei de Moisés considerava a infidelidade da «prometida» semelhante à infidelidade da esposa e o compromisso dos esponsais só podia dissolver-se com a fórmula jurídica do divórcio.

A saudação é fora do comum, quer porque em nenhum caso uma mulher até então tinha sido saudada daquela maneira, quer porque o seu conteúdo sai fora dos esquemas habituais. A saudação é tripartida: «Alegra-te, tu que Deus cumulou com os seus favores, o Senhor está contigo». A expressão «cheia de graça» significa que Maria é objecto da predilecção e do amor de Deus. «O Senhor está contigo»: a ideia da missão está implícita. Quando Deus está com Israel ou com um seu eleito (Jacob, Moisés, Gedeão), isto significa não apenas protecção mas já uma ajuda para a missão. Assim, Maria é colocada na linha das grandes figuras que receberam de Deus um particular sustento em vista da tarefa a cumprir.

Esta saudação inesperada causa a perturbação de Maria (v. 29). Não se trata duma perturbação descontrolada, porque Maria não perde a concentração e a capacidade de reflectir nas palavras da mensagem.

O anjo retoma a linha da saudação. «Não temas, Maria», mais propriamente, segundo o grego: «Não temas mais», isto é, «deixa todo o temor». É um convite à serenidade e à esperança. Depois de ter tranquilizado Maria, retoma o termo «graça». «Encontrar graça» é um uso dos povos daquela zona para indicar o benévolo acolhimento dado a um subalterno (cf. 1Sm 1,18); mas apenas acerca de Noé e de Moisés se afirma que encontraram graça junto de Deus. Para Maria tal promessa chega de Deus através das palavras do anjo. O favor que Deus concede vale para a pessoa e, portanto, para a tarefa confiada a tal pessoa. Está tudo pronto para a mensagem propriamente dita.

O conteúdo da mensagem é um anúncio dum nascimento e da missão do que vai nascer (vv. 31-33). Aquele que vai nascer é apresentado não no seu fazer, mas no seu ser. São especificados os títulos, não a acção: ser grande, ser chamado Filho do Altíssimo, receber o trono de David, reinar para sempre, ser Filho de Deus.

O nome «Jesus» (em aramaico, Yeshua’), dado do alto, como em todas as intervenções de Deus, é bastante vulgar – sobretudo na sua forma longa «Josué/Yehoshua’» – e não recebe interpretação, mesmo se um ouvido sensível ao hebraico podia facilmente entendê-lo como «Yahweh é salvação».

Com o v. 32 continua a apresentação do ilustre menino. É dito que será «grande», título que, sem mais precisões, era reservado ao próprio Deus. Gozará duma relação exclusiva com Deus, relação que o título «Filho do Altíssimo» torna mais manifesta. A íntima ligação com Deus torna-o o esperado, aquele que irá restaurar a decaída dinastia davídica, assegurando-lhe uma estabilidade eterna. Deus leva a cumprimento nele todas as promessas do Antigo Testamento.

Perante um anúncio tão extraordinário, Maria reage com uma pergunta: «Como será possível? Não conheço homem». É a segunda reacção de Maria, desta vez verbal, para melhor entender a mensagem. O «sou virgem» é a afirmação da situação actual de Maria; em tal estado deve cumprir-se a maternidade, daqui a não clara compreensão da combinação maternidade-virgindade.

Estamos no cume da narração: o que vai nascer é declarado «Filho de Deus», sendo acrescentado o modo como tudo vai acontecer: «O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra». Maria não é mãe dum homem que se torna Deus, mas dum ser humano cuja pessoa sempre foi divina. Encontramos aqui a maior originalidade do cristianismo: a profunda identidade de Cristo e o seu mistério.

O sinal oferecido (v. 36) é desconcertante: «Também Isabel…». Um nascimento virginal constitui algo estranho ao homem, a roçar o impossível e o absurdo. Maria não exige uma documentação nem requer uma prova, simplesmente recebe um sinal da bondade divina. A parente Isabel, já idosa, espera um menino e já está no sexto mês de gravidez. A possibilidade efectiva de realizar o humanamente impossível é confiada à intervenção de Deus, para o qual não existem limitações: «para Deus nada é impossível» (v. 37), citação de Gn 18,14 a relançar o presente com a melhor tradição bíblica: Isaac, o filho da promessa, nasce pela surpreendente presença de Deus no surgir da vida. O contraste não está entre Deus e a natureza, mas entre o Deus poderoso e o homem fraco.

A terceira reacção de Maria é completa e definitiva: «Eis a serva do Senhor…». A mesma autodefinição vai ser encontrada mais tarde no Magnificat, o cântico de Maria (1,48). É o assentimento, a participação da vontade e do coração que escuta, confiando só na palavra divina.

Encontramos aqui o único caso em histórias semelhantes: o destinatário exprime a sua adesão. Maria fá-lo com a fórmula «serva do Senhor» que, sendo única na Bíblia para uma mulher, liga-se a toda uma história de chamados por Deus que tinham respondido com a própria vida ao serviço do Senhor. É o terceiro nome atribuído a Maria. O primeiro, «Maria», é dado pelos homens, o segundo, «cheia de graça», por Deus e agora o terceiro, «serva do Senhor», dá-o a si mesma. Este nome exprime que Deus a escolheu para o seu serviço, a fim de lhe dar uma tarefa, uma missão.

Com tal resposta o anjo concluiu a sua missão e pode afastar-se. A mensagem foi comunicada, recebida e feita sua por Maria.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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