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III Domingo do Advento – Ano A

Breve comentário

João encontra-se na prisão devido às críticas que fazia ao rei Herodes acerca do seu estilo de vida imoral, nomeadamente o facto de estar a viver com a mulher do seu irmão Filipe. É informado pelos seus discípulos acerca actividade de Jesus, que tinha começado o seu ministério público, e fica perplexo com os seus gestos e palavras.

O fundamental da pregação de João centrava-se no anúncio da vinda eminente do juiz escatológico, com o machado posto à raiz das árvores para cortar as que não dão fruto ou com a pá na mão para separar o trigo e queimar a palha, isto é, o Messias viria para salvar e para condenar. Agora chegam-lhe notícias acerca da actividade de Jesus, bem diferente daquilo que ele anunciava e esperava. Além disso, se Jesus fosse o Messias já o teria libertado da prisão conforme foi anunciado pelo profeta Isaías: «… para anunciar… a liberdade aos oprimidos» (Is 61,1).

Por detrás deste texto de Mateus podemos vislumbrar um problema que se colocava à comunidade cristã palestinense: havia um grupo que considerava Jesus como o Messias prometido, enquanto outro, que tinha ouvido a pregação de João, considerava este como o Messias. A pergunta: «És Tu aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro?» no fundo põe a alternativa entre Jesus e João: «O messias és tu ou o nosso mestre João?».

«És Tu aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro?». Com esta pergunta, João revela-se como um verdadeiro homem de Deus, que procura a verdade e, na dúvida, tem a humildade de perguntar, ligando-se à Palavra de Deus. Ele, o profeta tão seguro, conforme lemos no cap. 3 de Mateus, agora parece perdido, não reconhecendo os sinais de que estava seguro no momento do baptismo de Jesus no Jordão (cf. Mt 3,13-17).

Aparentemente, a resposta de Jesus parece rodear o dilema, na medida em que não responde directamente sim ou não. Ele convida os discípulos de João a tomar posição perante aquilo que «vêem e ouvem» e que o evangelista já foi apresentando nos capítulos anteriores. Trata-se dum apelo a fazer uma leitura profética da actividade global de Jesus e, consequentemente, um convite à fé.

Os factos elencados de forma ritmada recordam alguns textos do profeta Isaías (Is 35,5-6; 26,19; 29,18; 35,5-6; 42,7; 61,1) acerca da acção salvífica num futuro. Estas «obras» de Deus são indicadas como presentes e unidas directamente à acção histórica de Jesus, isto é, tudo o que foi anunciado como acção de Deus está a cumprir-se na pessoa e acção de Jesus, um Messias que nada tem a ver com a ideia enérgica e severa que João tinha anunciado.

Quem não faz esta leitura correcta acerca de Jesus sente-se desiludido e entra em crise de fé, tal como os discípulos de Jesus perante um messias pendurado na cruz e humilhado, a contradizer a sua imagem tradicional de Deus. Não admira que João e os seus discípulos se sintam desconcertados e perplexos diante do projecto messiânico de Jesus que se concluirá com a tragédia de Jerusalém. Igualmente os familiares de Jesus e fariseus ficarão escandalizados com a sua atitude. Daí o apelo de Jesus: «Bem-aventurado aquele que não encontra em mim ocasião de escândalo».

A segunda parte do texto, depois da partida dos discípulos de João, é um elogio a João Baptista, apresentando o seu papel excepcional e único no projecto salvífico de Deus. Jesus sublinha as suas características espirituais e o seu papel de profeta precursor do tempo messiânico, mostrando-o como Elias, o profeta esperado para o tempo messiânico, numa espécie de citação combinada de Ex 23,20 e Ml 3,23.

João pertence à época profética, em que a «Lei e os profetas» estão orientados para o tempo do seu cumprimento. Agora começou um tempo novo, o do cumprimento, o tempo do Reino. Por isso, sob um ponto de vista humano («entre os nascidos de mulher») João é uma figura de primeiro plano, ou seja, não apareceu ninguém maior do que ele. Porém, qualquer discípulo que pertence à nova época salvífica, que entendeu o novo rosto de Deus anunciado por Jesus e concretizado na sua pessoa, é bem «maior do que ele» porque já recebeu «o baptismo no Espírito Santo e no fogo» anunciado por João (Mt 3,11) e vive sob a acção do Espírito e não apenas do seu esforço humano no cumprimento da Lei e dos preceitos.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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