Pages Navigation Menu

Festa do Baptismo do Senhor -Ano A

Breve comentário

A cena do baptismo de Jesus segue-se à apresentação da figura e pregação de João que baptizava com água para levar ao arrependimento, porque o Reino dos Céus estava próximo. Já é evidente para o leitor que aquele que é «mais forte» que o Baptista e dará um baptismo «com o Espírito Santo» é Jesus Cristo, Filho de Deus.

Quem se aproximava de João para ser baptizado, descendo às águas do Jordão, «confessava os próprios pecados» em voz alta (Mt 1,6). Desta forma, submeter-se àquele rito equivalia a declarar-se necessitado de conversão e de perdão. É muito normal que um antigo ouvinte ou leitor de Mateus, vindo a saber que Jesus Cristo, o Filho de Deus, foi ter com João a pedir aquele baptismo de conversão, se tenha sentido incomodado: como é que Jesus se submeteu a um rito «para a remissão dos pecados»? Que pecados podia ele ter? Havia aqui um problema de fé que o evangelista procura resolver no texto.

Mateus começa por sublinhar que Jesus se dirigiu ao Jordão precisamente para ser baptizado por João: «Então, veio Jesus da Galileia ao Jordão ter com João para ser baptizado por ele» (3,13). Mas o evangelista insere imediatamente o diálogo entre João e Jesus, pormenor ausente nos outros evangelistas. A imensa superioridade de Jesus face a João que, no entanto, Mateus reconhece como «profeta e mais do que profeta» e «o maior entre os filhos de mulher» (Mt 11,9.11), não poderia ser professada mais vigorosamente, posta como está nos lábios de João: ele sabia quem era Jesus. Então, porque é que Jesus vai receber um baptismo de conversão pelas mãos de João? O evangelista apela para a misteriosa vontade de Deus: «Deixa por agora, pois convém que assim nós cumpramos toda a justiça» (3,15). Aceitar a humilhação é «justiça»; trata-se, por outro lado, duma humilhação por breve tempo («por agora»).

Justiça é um termo característico de Mateus (5,6.10.20; 6,1.33; 21,32). Termo tipicamente judeo-palestinense, a justiça significa a fiel submissão à vontade de Deus. Essa vontade que Jesus é chamado a cumprir e que João desconhecia. De momento, é pedida a Jesus a humilhação. É um momento de Cruz. No entanto, Mateus diz: «Uma vez baptizado, Jesus saiu logo da água», talvez para fazer entender ao leitor que Jesus, ao contrário dos outros, não ficou na água a confessar os seus pecados.

E eis que se abriram os céus. Entre as diversas passagens do Antigo Testamento, algo próximo do nosso texto é o texto de Ezequiel: «Abriram-se os céus e vi visões divinas» (Ez 1,1). É a visão que consagra Ezequiel como profeta de Yahweh. Como Ezequiel, e bastante mais do que ele, Jesus é admitido à visão dos segredos de Deus; é-lhe revelada a predilecção que tem por ele o Omnipotente, predilecção do Pai pelo filho único; e recebe uma pessoalíssima comunicação do Espírito. Por esta razão ele é investido do carisma profético de modo extraordinário, que não tem paralelo em nenhum profeta do Antigo Testamento.

E viu o Espírito descendo como uma pomba e vindo sobre ele. É algo visto apenas por Jesus. O autor não sugere a hipótese de outros terem visto, nem sequer João. A atenção de Mateus está fixada apenas sobre Jesus, a quem é reservada a visão, assim como é enviado o Espírito.

O que entende Mateus acerca da aparição do Espírito em forma de pomba? Talvez a primeira ideia que podia surgir, num judeu habituado a escutar a Bíblia, fosse a da familiaridade, da amizade. «Pomba» é o termo que ocorre no Cântico dos Cânticos, como forma carinhosa de tratamento. A conhecida narração do dilúvio falava da pomba como de um animal familiar a Noé (Gn 8,8-12). Provavelmente a cena levava o pensamento também a uma outra recordação bíblica: Gn 1,2: «E o espírito de Deus pairava sobre as águas». O Espírito de Deus pairava sobre as águas primordiais para dar início à criação e à vida: um início novo, uma nova criação se realizava também no Jordão. Sobre Jesus desce o Espírito de Deus, aquele Espírito que se encontrava junto de Deus no início da criação, que tinha estado nos reis e profetas, prometido ao Servo de Yahweh e ao Messias. Desce sobre Jesus como de maneira familiar, amiga.

Ao contrário de Marcos, a voz do Pai (dos céus) não se dirige directamente a Jesus, mas a terceiras pessoas: «Este é o meu filho amado…». A quem se dirige a voz do céu? Mateus parece ter o pensamento na Igreja, aqueles para quem escreve. Ao recordar o facto passado que ele lia em Marcos, prevalece a preocupação do presente. A narração não é impessoal, é pregação, apelo, convite, pedido de adesão de fé. Na voz do Pai, o crente acolhe uma mensagem dirigida a ele.

Este é o meu filho amado. Na versão grega do Antigo Testamento, o adjectivo «amado» equivale muitas vezes a unigénito, único, traduzindo o hebraico y?hîd. Se Mateus tem no pensamento um texto, este é provavelmente Gn 22, onde o apelativo amado/unigénito é dito repetidamente de Isaac. É evidente que o termo exprime antes de mais a ideia dum amor paterno, terno, sem rival.

Em quem me comprazo. A referência aos cantos do Servo de Yahweh, apenas acenada no adjectivo «amado», torna-se agora explícita. Acerca do Servo sofredor Isaías dizia: «Eis o meu servo que eu sustenho, o meu eleito em quem pus as minhas complacências. Eu pus o meu espírito sobre ele» (Is 42,1). Na passagem profética, Deus garantia ao Servo o seu sustento e o dom do Espírito; proclamava-o seu eleito e declarava comprazer-se nele. Descendo nas águas para o rito do perdão, Jesus tomou sobre os ombros a parte do Servo; o Pai confirma-o solenemente.

Mateus é mais teólogo, catequista, do que histórico. O diálogo entre o Baptista e Jesus parece ter significado só num plano de catequese. Sempre faminto e sedento de justiça, Jesus foi o modelo de adesão a Deus; por esta razão ele quis ser baptizado, aceitando a humilhação que o juntava aos pecadores: porque o Pai assim queria. E ele procurava a justiça, a vontade de Deus.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

  • Facebook
  • Google+
  • Twitter
  • YouTube