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II Domingo do Tempo Comum – Ano A

Breve comentário

O evangelista João, ao contrário dos outros evangelistas, não refere a cena do baptismo de Jesus, mas apresenta longamente a figura de João Baptista, o Precursor, referido como «um homem enviado por Deus para dar testemunho da luz» (1,6-8). À delegação enviada pelas autoridades judaicas, ele responde claramente: «Eu não sou o Messias… Eu baptizo com água, mas no meio de vós está quem não conheceis. É aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias» (1,19-28).

Nos finais do séc. I d.C., quando foi escrito o evangelho de João, começavam a aflorar vários erros que era necessário combater ou corrigir. Alguns consideravam que uma vida de ascetismo, na qual a abstinência da comida e bebida eram necessárias como base espiritual, tinham a continência sexual como principal fundamento da vida cristã. Os ebionitas [pobres] ligados à comunidade judaica dos Essénios e a João Baptista continuavam a guardar a Lei de Moisés como fundamental e, ao mesmo tempo, aceitavam Jesus, mas só como um homem bom. Os cristãos gnósticos viam em Jesus um dos eons secundários da evolução do pleroma divino. Todo o evangelho de João procura apresentar a verdadeira essência de Jesus. Para o IV Evangelho, o testemunho do Baptista é mais importante que qualquer outra coisa porque era a palavra dum profeta, enviado precisamente para apontar o verdadeiro eleito de Deus.

No dia seguinte… eis o texto deste domingo que refere o testemunho que o Baptista dá acerca de Jesus, condensado em três frases: «Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!»; «Vi o Espírito descer do céu como uma pomba e permanecer sobre Ele»; «Ele é o Filho de Deus».

A imagem do cordeiro aplicada a Jesus é uma particularidade dos escritos de S. João. Está ligada a duas imagens proféticas do Antigo Testamento: o cordeiro pascal imolado (Ex 12) e o cordeiro que sofre o suplício (Is 53). Do ponto de vista do quarto evangelista, Jesus era o Cordeiro Pascal de menos de um ano sacrificado e morto precisamente na hora nona (três das tarde) em que os cordeiros para a ceia pascal eram degolados (Mc 15, 34). João dirá que era meio dia, do dia da preparação da Páscoa, em que tudo o que era fermento era destruído (19,14) quando Pilatos o entregou para ser crucificado. Por isso o nosso evangelista compara Jesus ao cordeiro pascal do qual nenhum osso devia ser quebrado (Jo 19,36).

Como cordeiro pascal imolado, Jesus exprime uma oferta total que vai até à morte, uma oblação que vai até à imolação. Na carta aos Coríntios, Paulo sublinha: «Cristo, nosso Cordeiro Pascal, foi imolado». O texto de Isaías refere-se ao cordeiro ainda vivo, mas suportando um sofrimento que caberia a outros aceitar sofrer. Há aqui em gérmen a ideia de substituição. O cordeiro do profeta Isaías carrega consigo os pecados do mundo: «Carregou as nossas dores, o castigo que nos salva pesou sobre ele».

O segundo testemunho do Baptista: «Vi o Espírito descer do céu como uma pomba e permanecer sobre Ele» dá realce a outro aspecto de Jesus: Ele é o Ungido, o Consagrado por Deus, o Messias cheio do Espírito Santo, porque é um sinal de paz entre a terra e o céu; traz à mente a pomba que regressou à arca de Noé, trazendo no bico um raminho de oliveira. Jesus é exaltado como Messias, como sendo Aquele sobre quem desceu e pousou o Espírito Santo, como eco das palavras de Is 11: «Sobre ele repousará o Espírito do Senhor».

O terceiro testemunho é transcendente: «Ele é o Filho de Deus». É assim afirmado o carácter divino da pessoa de Jesus: Filho de Deus, aquele que «existia antes de mim». Os outros evangelistas dizem o mesmo na declaração da cena do baptismo: «Tu és (este é) o meu Filho muito amado».

Jesus é o Cordeiro que será imolado, o Messias descrito por Isaías nos cantos do Servo de Yahweh, que se deixará conduzir ao matadouro cheio de mansidão e sem opor resistência, como uma vítima voluntária. E é também o cordeiro pascal, cujo sangue protege Israel do anjo exterminador e salva os primogénitos. O Messias eliminará o pecado, introduzirá o povo na Terra Prometida, isto é, na plenitude do Reino de Deus. A pomba é o símbolo da presença suave e amorosa do Espírito Santo que pairava sobre as águas no início dos tempos e que agora pousa e permanece sobre Jesus. A pomba foi o sinal do fim do dilúvio e do pecado perdoado; é também o sinal do amor misericordioso de Deus e da graça divina que nos é dada pelo Espírito de Jesus. Jesus possui o Espírito, está repleto dele; pode, portanto, comunicá-lo aos homens. Eis porque o seu baptismo é totalmente diverso dos baptismos que o precederam: a purificação puramente exterior e legal cede o lugar à purificação íntima do coração.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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