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III Domingo do Tempo Comum – Ano A

Breve comentário

O texto do evangelho deste domingo desenvolve-se em duas partes: o início da actividade de Jesus e o chamamento dos primeiros discípulos.

A primeira parte é uma composição literária típica do evangelista Mateus, com uma nota temporal e outra geográfica comentada por uma citação bíblica, terminando com a pregação programática de Jesus.

A prisão de João é para Jesus um sinal divino para dar início à sua actividade pública. A escolha de Cafarnaum, segundo o evangelista, entra num projecto divino na linha das promessas messiânicas de Isaías. Historicamente, o anúncio do profeta referia-se à libertação das tribos que viviam naquela zona; estavam em trevas, dominadas pelos assírios, mas iriam ver a luz da liberdade. Agora a Luz vem para aqueles galileus que os judeus residentes em Jerusalém desprezavam porque os consideravam pouco instruídos, ignorantes da lei e pouco observantes dos preceitos, além de serem fruto duma mistura de vários povos.

Com a confirmação profética de Isaías que agora se realiza completamente na pessoa e missão de Jesus, está a ser antecipado o tema da salvação dos gentios, além das «ovelhas perdidas da casa de Israel». Esta perspectiva salvífica conjuga-se com o motivo da «luz» que caracteriza a missão universal do servo de Yahweh, chamado a ser a luz dos povos (Is 42,6; 49,6).

Sobre este amplo fundo teológico adquire significado mais profundo a pequena frase que condensa a actividade de pregação de Jesus: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus». Já sabemos que o evangelista Mateus, que escreve para cristãos de origem e mentalidade judaicas, usa várias formas para, de algum modo, «camuflar» o nome de Deus, devido ao respeito que os judeus têm pelo seu Nome. Por isso, devemos considerar a expressão «Reino dos céus» como equivalente a «Reino de Deus».

Literariamente, esta frase é igual à pregação de João Baptista; mas o seu conteúdo é agora muito mais profundo. O convite à conversão implica uma revolução espiritual que abraça a mente e o coração como adesão integral a Deus, empenhando-se em fazer a sua vontade. A urgência e a seriedade deste convite derivam da proclamação: «O reino dos céus está próximo». Esta proximidade não consiste numa questão de tempo mas na concentração cristológica do anúncio: o reino dos céus fez-se próximo na pessoa de Jesus, nas suas palavras e gestos de salvação.

A narração do chamamento dos primeiros discípulos apresenta-se de modo simétrico, em díptico, compreendendo três momentos: o encontro de Jesus com dois irmãos (designados pelos nomes e apresentados nas suas tarefas quotidianas e no contexto das suas relações familiares); a palavra-convite a seguir Jesus; pronta adesão dos chamados (que deixam a situação anteriormente descrita e seguem Jesus).

Esta narração de chamamento reproduz, de forma estereotipada e estilizada, um processo histórico mais complexo que levou quatro pescadores a seguir Jesus, abandonando os seus vínculos familiares e a sua actividade. Na origem desta narração está a relação original e irreversível que se estabeleceu entre Jesus e alguns pescadores do «mar da Galileia».

O ponto focal das duas cenas paralelas é a palavra de Jesus. O seu convite soa como proposta duma nova tarefa e como promessa: «farei de vós pescadores de homens». É um convite que comporta uma partilha da sua própria missão e destino messiânico como anunciador do reino de Deus.

Existe uma semelhança profunda com o chamamento de Deus aos profetas, pois é Jesus que toma a iniciativa, apresentando-se como um mestre diferente dos outros. Este Mestre escolhe os discípulos e não vice-versa; a sua palavra é mais actuada que explicada ou memorizada; o seguimento comporta solidariedade com o seu destino pessoal, mesmo na situação crítica da ameaça de morte. Ao longo da narração do evangelho, torna-se claro que na palavra de Jesus que chama os homens se manifesta a palavra decisiva de Deus.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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