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Homilia de D. António Moiteiro nas ordenações diaconais

O Reino e o Evangelho de Deus

  1. Jesus, o Evangelho de Deus

O evangelho da Eucaristia deste III Domingo do tempo comum está centrado, especificamente, em atualizar o texto do profeta Isaías que escutámos na primeira leitura, aplicando-o a Jesus como sendo a luz nova que vem da Galileia. Jesus é a Boa notícia para aqueles que durante muitos séculos caminharam nas trevas e nas sombras da morte.

Esta luz não vem de Jerusalém, mas sim da Galileia, dos territórios das tribos de Zabulão e Neftali, que sempre tinham tido fama de serem uma região aberta ao paganismo e, portanto, aberta a novas influências. Jesus, deixando Nazaré, onde se tinha criado, vai estabelecer-se numa cidade da margem do lago da Galileia, em Cafarnaum. É aqui onde começa a ouvir-se a novidade da pregação do Reino de Deus, ou como refere S. Mateus, o Reino dos céus. O chamamento dos primeiros discípulos – Pedro e André, Tiago e João – é uma consequência da pregação do Evangelho, que sempre, onde se pregue a palavra de Deus, terá discípulos.

O programa de Jesus é claro: «convertei-vos, pois está próximo o reino dos céus» (Mt 4, 17). O tempo que se aproxima é o tempo do Evangelho, da boa nova, que exige uma mudança de mentalidade (conversão) e uma confiança absoluta (acreditar) no evangelho. Os dois elementos fundamentais deste programa estão claros: o reinado de Deus e a boa notícia que este reino supõe para o mundo e para a história da humanidade. Dizer reino de Deus ou reino dos céus não significa dar a Deus o título de rei, mas sim uma nova imagem de Deus e o modo como realizamos a sua vontade. Deus não será mais um Deus sem coração, mas sim um Deus que se compadece dos pobres e dos enfermos, que está ao lado dos que sofrem e choram, mesmo que não sejam cumpridores escrupulosos dos preceitos da lei e das tradições religiosas do povo. Esta é a novidade do Evangelho de Deus, que é Jesus. Este é o verdadeiro programa do profeta de Nazaré: viver e anunciar o reino de Deus como boa notícia para todas as pessoas.

 

  1. Jesus continua hoje a chamar discípulos

Todo o chamamento exige uma resposta. Assim procedeu Deus com aqueles que chamou para guiar o seu povo: o seu chamamento e projeto traduziram-se neles em disponibilidade e aceitação. Maria é o exemplo perfeito: “Faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38). Também assim atuou Jesus no chamamento dos discípulos: “Vem e segue-me” (Mt 4,19; Mc 2,14) ou o “Vinde e vede” (Jo 1,39). Os que se sentiram chamados corresponderam: “Deixando tudo seguiram-no” (Lc 5,1) e “Foram e ficaram com Ele” (Jo 1,39) – Iniciaram uma relação com Ele.

Saber-se chamado pessoalmente por Deus é a experiência chave de toda a vocação e de todo o projeto de vida. Este seguimento nasce do encontro pessoal com o Ressuscitado, num dinamismo de conversão, entrega e renúncia: no dom de si, na relação com os outros, na transformação da sociedade e do mundo, segundo o projeto salvífico de Deus.

Todos somos enviados. Isto significa que todos devemos sentir a responsabilidade da evangelização e que ninguém se pode julgar dispensado. Este envio requer o pôr em prática o que vão anunciar; a sua primeira pregação é o testemunho de vida. A Igreja, continuadora da missão de Jesus, deve ser também libertadora de tantas escravidões que o homem de hoje sofre. Todos devemos deixar-nos imbuir de um autêntico sentido profético, o Espírito de Cristo Ressuscitado, que nos dá força para denunciar o mal e conquistar um verdadeiro espírito de liberdade interior.

 

  1. Queridos ordinandos Fábio e Nuno:

Os diáconos, tal como refere o Ritual da Ordenação, fortalecidos com os dons do Espírito Santo, têm por missão ajudar o Bispo e o seu presbitério no serviço da palavra, do altar e da caridade, mostrando-se como servos de todos. Ministros do altar proclamam o Evangelho, preparam o sacrifício e distribuem aos fiéis o Corpo e o Sangue do Senhor. A oração da ordenação pede que em vós brilhem as virtudes evangélicas da caridade verdadeira, da solicitude pelos doentes e pelos pobres, da autoridade modesta, da retidão perfeita e a docilidade à disciplina espiritual.

Após a ordenação, para reforçar o vínculo que existe entre os ministros ordenados e a Palavra de Deus, vai ser-vos entregue o livro dos Evangelhos com estas palavras: «Recebe o Evangelho de Cristo, que tens missão de proclamar. Crê o que lês, ensina o que crês e vive o que ensinas». Hoje celebramos o Domingo da Palavra de Deus, instituído pelo Papa Francisco com a Carta Apostólica Abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras (Lc 24, 45) – Apperuit illis». Nela se afirma: «O dia dedicado à Bíblia pretende ser, não “uma vez no ano”, mas uma vez por todo o ano, porque temos urgente necessidade de nos tornar familiares e íntimos da Sagrada Escritura e do Ressuscitado, que não cessa de partir a Palavra e o Pão na comunidade dos crentes. Para tal, precisamos de entrar em confidência assídua com a Sagrada Escritura; caso contrário, o coração fica frio e os olhos permanecem fechados, atingidos, como somos, por diversas formas de cegueira».

O próprio Concílio Vaticano II afirmou que «A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo» (DV 21).

Para celebrarmos este dia dedicado à Palavra de Deus, no final da Eucaristia os diáconos que vão ser ordenados e eu próprio vamos oferecer a todas as famílias aqui presentes os quatro Evangelhos e os Salmos, para que na meditação da palavra rezada Jesus bata à nossa porta através da Sagrada Escritura e lhe abramos a porta da mente e do nosso coração; entre na nossa vida e permaneça connosco. O Papa Francisco entregou neste dia algumas Bíblias com a seguinte mensagem: «Lê a Palavra de Deus que tens entre as mãos e escuta a voz do Senhor que te indica o caminho da vida».

Não nos furtemos, apaixonados pela pessoa de Jesus, a levar este anúncio a todos os que se encontrarem connosco nas encruzilhadas da vida. Esta é a missão que continua a ser a fonte das maiores alegrias para a Igreja.

 

Aveiro, 26 de janeiro de 2020 (Ordenação de Diáconos).

† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro


::: Galeria de imagens das Ordenações :::


 

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