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V Domingo do Tempo Comum – Ano A

Breve comentário

Os quatro versículos do texto deste domingo (5,13-16) fazem a ponte entre as bem-aventuranças e o discurso programático sobre a interpretação da Lei que se segue (5,17-20). Os discípulos são interpelados diretamente na segunda pessoa do plural («vós»), como na última bem-aventurança dirigida aos perseguidos. A estrutura do pequeno texto gira à volta da dupla declaração solene tem um valor ao mesmo tempo programático e exortativo: «Vós sois o sal da terra» – «Vós sois a luz do mundo». O sal e a luz, usados por Jesus no seu ensino, têm algo de comum: ambos não existem para si mesmos. O sal não existe para si, mas para outrem; tal como a luz não existe para si mesma, mas para iluminar a humanidade. Os destinatários da dupla exortação são os discípulos que se aproximam de Jesus que sentado sobre a montanha (5,2), aos quais se dirige a sua instrução.

«Vós sois o sal da terra». À partida, a expressão é enigmática porque não se vê imediatamente a relação entre o sal e a terra, aqui entendida como mundo, humanidade. No contexto bíblico e na tradição judaica o sal, que dá sabor aos alimentos, purifica-os e conserva-os, é símbolo de sabedoria. Em alguns textos é sinal de aliança ou de paz. Na Bíblia o sal também é usado para selar um pacto; manifestando a inviolabilidade duma aliança.

O reino de Deus que está a chegar é o momento propício para os discípulos de Jesus exercerem a capacidade de purificar e conservar o mundo da putrefação do mal. Também se tivermos em conta que o sal, em pequenas quantidades, servia de fertilizante da terra, a imagem tem igualmente um sentido de produção.

A ideia do sal que perde o sabor não é possível, é um paradoxo. Se os discípulos não realizam a sua tarefa em relação ao mundo não servem para nada, mais ainda, arriscam-se a ser lançados fora e ser pisados pelos homens.

«Vós sois a luz do mundo». Na tradição bíblica e judaica, a imagem da luz é antes de mais referida a Deus, à sua palavra, à lei, à sabedoria e ao povo de Israel, ao templo e à cidade de Jerusalém. Na tradição profética de Isaías, a Jerusalém futura, símbolo da comunidade, é interpelada com estas palavras: «Levanta-te, reveste-te de luz… a glória do Senhor brilha sobre ti… os povos caminharão à tua luz» (Is 60,1-3). A imagem da lâmpada colocada sobre o candelabro exprime a mesma ideia, mesmo se em termos mais familiares.
É um absurdo pensar em esconder uma cidade que, normalmente, era construída sobre um monte, por uma questão de defesa natural. Igualmente é absurdo imaginar acender-se uma lâmpada para a esconder. Acende-se a lâmpada à noite para iluminar os habitantes da «casa», isto é, os membros da «casa de Israel». O evangelista Mateus está aqui a pensar na sua comunidade de judeus convertidos ao cristianismo que vivem no meio dos outros judeus.

A aplicação final é coerente com as preocupações pastorais práticas de Mateus. A luz, que não pode ser escondida como uma cidade situada sobre um monte ou ser colocada debaixo dum alqueire, são as «boas obras» dos discípulos. Com esta expressão indica-se toda a existência dos discípulos que se torna transparente à vontade de Deus, acolhida e realizada com fidelidade. Trata-se daquelas obras que tornam visível a justiça, a misericórdia, o empenho pela paz dos discípulos por meio das quais eles se revelam autênticos filhos de Deus. De facto, este empenho coerente e prático dos discípulos é uma irradiação da luz que deve conduzir os homens a reconhecer a fonte luminosa, Pai que está nos céus. Neste testemunho límpido e desinteressado a favor do Pai celeste realiza-se o serviço que os discípulos devem fazer à humanidade.

P. Franclim Pacheco
Diocese de Aveiro


 

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