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Quaresma… despertar para a conversão em família e como família

Quaresma… despertar para a conversão em família e como família

A nossa vida, que é obra de Deus, requer uma renovação constante. A Quaresma apela a repensar as nossas opções de vida e a tomar consciência de tudo aquilo que impede o nosso aperfeiçoamento ou renascimento para uma vida nova, para a vida de Deus. Quem, durante a vida, não experimenta situações de deserto? Muitas vezes, experimenta-se este deserto porque os caminhos que o ser humano constrói são à margem ou longe de Deus, isto é, vive indiferente ao mistério de Deus, à presença de Jesus e à ação da Igreja. Tempo de renovação para a Igreja, para as comunidades e para cada um dos fiéis, a Quaresma é sobretudo um «tempo favorável» de graça (cf. 2Cor 6,2). É, pois, um tempo de graça e um caminho de formação do coração, abrindo-o ao sopro d’Aquele que conhece a debilidade do nosso coração e é capaz de transformar o nosso deserto em sinais de humanidade.

Quando não vivemos como filhos de Deus, muitas vezes adotamos comportamentos que põem em risco a relação com o próximo e as outras criaturas – mas também nos destruímos a nós próprios. Quando se abandona a lei de Deus, a lei do amor, acaba por se afirmar a lei do mais forte sobre o mais fraco – o que debilita os vínculos com Deus, com a família, com a sociedade e com a Igreja. Neste sentido, a Quaresma é um tempo especial que convida o cristão a estar atento, a ver a sociedade e a incomodar-se com a realidade humana. A defesa da vida, desde a sua conceção até á morte natural, é um exemplo disto mesmo. Mas a primeira conversão é a de nos convertermos à necessidade de conversão. Sejamos capazes de olhar de perto para a nossa vida, para o que fazemos e para o que não fazemos, muitas vezes por comodismo e preguiça.

A Quaresma é também tempo propício para a família buscar caminhos de conversão, para viver a alegria e a beleza da família como “caminho de santidade”. Chama os cristãos a encarnarem, de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal na sua vida pessoal, familiar e social, particularmente através da oração para com Deus, da esmola para com o próximo e do jejum para connosco mesmos. O jejum é a forma de penitência que consiste na privação de alimentos, e a abstinência na escolha de uma alimentação simples e pobre, lembrando que o essencial do espírito de abstinência é a renúncia ao luxo e ao esbanjamento e uma alimentação pobre. Só assim a abstinência será privação e se revestirá de carácter penitencial. O jejum e a abstinência são obrigatórios em Quarta-feira de Cinzas e em Sexta-feira Santa, enquanto a abstinência reveste-se de um significado especial nas sextas-feiras da Quaresma.

O amor vivido nas famílias é uma força permanente para a vida da Igreja e da sociedade. “A beleza do dom recíproco e gratuito, a alegria pela vida que nasce e a amorosa solicitude de todos os seus membros, desde os pequeninos aos idosos, são apenas alguns dos frutos que tornam única e insubstituível a resposta à vocação da família, tanto para a Igreja como para a sociedade inteira” (AL 88). Que a vivência deste tempo de preparação para a Páscoa seja um desafio concreto: percorrer o caminho de levar a esperança de Cristo às famílias, aprofundar e fortalecer a dimensão comunitária da família, em ordem à realização da sua vocação e missão. Que seja um assumir de opções concretas pessoais e familiares. Aproveitemos este tempo de reconciliação. Que cada família ajude a promover a cultura do encontro: com Deus, com os outros, com a criação, abrindo as portas ao frágil e ao pobre, para, assim, viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa. Viver como ressuscitados significa, como diz o Papa Francisco na Mensagem para a Quaresma deste ano, «sentir compaixão pelas chagas de Cristo crucificado presentes nas inúmeras vítimas inocentes das guerras, das prepotências contra a vida desde a do nascituro até à do idoso, das variadas formas de violência, dos desastres ambientais, da iníqua distribuição dos bens da terra, do tráfico de seres humanos em todas as suas formas e da sede desenfreada de lucro, que é uma forma de idolatria».

A Páscoa fala-nos de vida, de ressurreição. É para aí que temos de caminhar! A fim de discernir o que é bom e do agrado de Deus, coloco esta mensagem no coração de cada um dos diocesanos e de todas as famílias, paróquias, comunidades religiosas e movimentos apostólicos, para que em todos se reavive e intensifique a experiência do mistério pascal na nossa Igreja diocesana.

Procuremos fazer uma revisão de vida pessoal, familiar e das próprias comunidades, a partir da leitura e meditação da palavra de Deus. Seria bom que todos os dias lêssemos alguns versículos da Sagrada escritura.

Este ano a nossa renúncia quaresmal destina-se a apoiar a missão diocesana na Ilha do Príncipe, ajudar na construção da Igreja Matriz de S. Paulo em Cabo Verde e apoiar o Fundo de Emergência Social, da Caritas Diocesana.

Deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo ao deserto da oração, da conversão, do jejum e da partilha fraterna rumo ao encontro com Cristo ressuscitado, para nos reencontrarmos a nós mesmos e com os outros. Que a Mãe do Redentor nos ajude a alcançar um novo ardor de ressuscitados para levar a todos o Evangelho da vida que vence a morte.

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Aveiro, 20 de fevereiro de 2020.

António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro


 

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