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I Domingo da Quaresma – Ano A

Breve comentário

Neste 1º Domingo da Quaresma a liturgia propõe-nos o texto das tentações de Jesus segundo o evangelho de Mateus. Trata-se duma composição sugestiva e rica de aspectos teológicos e espirituais. O quadro cenográfico é constituído pela sucessão de três sequências: o deserto, o templo de Jerusalém, um monte altíssimo. Sobre este fundo enfrentam-se os dois protagonistas num diálogo, ou melhor, numa disputa escriturística: Jesus e o diabo.

Na cena introdutória Jesus está no deserto, onde foi conduzido pelo Espírito. O narrador apresenta imediatamente também o outro protagonista, o diabo, que tem o papel de tentador. É apresentada a condição de Jesus no deserto: sente fome depois dum jejum total de 40 dias. Este é o cenário do primeiro diálogo, introduzido pelo diabo tentador com uma proposta que se liga à condição de Jesus faminto pelo jejum no deserto. De cada vez o diabo, para formular a sua sugestão tentadora, serve-se do cenário que ele mesmo vai mudando oportunamente. Por fim, à ordem decisiva de Jesus «vai-te Satanás…», o diabo retira-se e anjos aproximam-se para assistirem Jesus.

Do confronto das três sequências e dos respectivos diálogos pode verificar-se um crescendo para a terceira cena, na qual o drama se resolve. Jesus desmascara o «tentador» identificando-o com o adversário de Deus, Satanás. Com uma ordem clara, motivada por uma fórmula bíblica, que recorda a confissão de fé em Deus, único Senhor, ele encerra o debate.

As duas primeiras sugestões diabólicas baseiam-se no título «Filho de Deus», revelado na cena baptismal. Na terceira, a proposta do tentador assenta numa condição que muda completamente o estatuto de Filho de Deus. Aqui não há lugar para alternativas. Por isso, a resposta de Jesus não pode deixar de ser uma recusa total e a ruptura completa com as sugestões diabólicas. Até este momento, a iniciativa era deixada ao diabo; agora Jesus muda os papéis e afirma a sua escolha irreversível.

As três frases bíblicas, tomadas do livro do Deuteronómio, estão dispostas em ordem decrescente: Dt 8,3 – Dt 6,16 – Dt 6,13. Considerando os episódios bíblicos evocados, tem-se a ordem de sucessão da história bíblica: o maná no deserto (Ex 16); a água da rocha (Ex 17,2-7), o dom da terra (Dt 34,1-4). Portanto, para a organização do texto de Mateus contribuiu, para além dos elementos supra mencionados, também uma preocupação temática ligada à utilização dos textos bíblicos e às situações que eles evocam em relação ao caminho de Israel e às provas no deserto.

A perícopa evangélica das tentações assemelha-se mais a uma controvérsia escriturística que a uma narração biográfica. Mas, ao contrário das outras controvérsias evangélicas, aqui o fio narrativo tem traços que encontram paralelo nos textos de estilo apocalíptico. Entre estes pode salientar-se a apresentação do «diabo» tentador, chamado «Satanás», que conduz Jesus à cidade santa, sobre o pináculo do templo, ou à montanha altíssima, donde se vêem os reinos do mundo com a sua glória, e, finalmente, a aparição dos anjos.

A chave de interpretação das tentações pode ser sugerida pelas referências explícitas ou implícitas aos textos e situações bíblicas.

O quadro introdutório – Jesus conduzido pelo Espírito para ser tentado – tem evidentes ligações com Dt 8,2 em que se diz que Deus «conduziu Israel durante quarenta anos pelo deserto para pô-lo à prova» (pôr à prova = tentar). A prova, explicitamente mencionada, é a da fome, a que corresponde o maná doado por Deus para fazer entender que o homem não vive só de pão mas «vive de quanto sai da boca de Deus» (Dt 8,3). O evangelista retocou este cliché bíblico para o fazer enquadrar com a sua perspectiva espiritual e teológica. O agente da tentação já não é Deus, mas «Satanás», mais conforme à evolução das concepções bíblicas e judaicas do post-exílio.

Além disso, Jesus é guiado para o deserto pelo Espírito descido sobre ele por ocasião do baptismo, como Israel é guiado pelo Espírito do Senhor, segundo Is 63,14. Mateus indica que Jesus jejua no deserto «quarenta dias e quarenta noites», segundo um formulário que se liga à figura bíblica de Moisés que, no encontro com o Senhor no Sinai, permanece com o Senhor «quarenta dias e quarenta noites sem comer pão e beber água» (Ex 34,28; Dt 9,9.18; cf. o caminho de Elias no deserto: 1Rs 19,8).

A referência a Moisés está subjacente provavelmente também na cenografia da terceira tentação. O «monte altíssimo» do qual se podem ver todos os reinos do mundo e a sua glória recorda o episódio de Moisés que sobe ao Monte Nebo, do qual o Senhor lhe mostra toda a terra prometida e lhe diz: «Este é o país pelo qual eu jurei a Abraão… eu o darei à tua descendência» (Dt 34,1-4).

Os dois textos do Deuteronómio a que Jesus se liga para recusar as propostas diabólicas, apelam às três situações de prova vividas por Israel no caminho do deserto: o maná (Dt 8,3); a água da rocha (Massá – Dt 6,16), e finalmente a posse da terra que pode fazer esquecer Deus para seguir outros deuses, (Dt 6,13; cf. 8,19). Numa palavra, as três tentações de Jesus, segundo o evangelho de Mateus, percorrem as etapas de Israel, chamado a viver a fidelidade com Deus nas situações de crise. Com uma diferença: onde Israel falhou na relação filial por causa duma falsa procura de segurança, Jesus confirma o seu estatuto de Filho único de Deus numa relação de absoluta fidelidade a Deus.

A tentação dos pães – A fome de Jesus no fim de quarenta dias de jejum é só uma ocasião imediata para a sugestão do tentador. Neste fundo projecta-se a tentação de Israel que tem medo de morrer de fome no deserto (Ex 16,3). Numa correcta visão de fé, o dom do maná era só um sinal da fidelidade de Deus para que o povo compreendesse que a palavra de Deus «conserva aqueles que crêem nele» (Sb 16,26). A resposta de Jesus, recusando-se a realizar o papel messiânico num contexto espectacular e prodigioso, liga-se a esta perspectiva de fé, acentuando a linha da humilde e confiante adesão à palavra de Deus que é fonte de vida para o crente (Dt 8,3).

A tentação do templo – A segunda tentação assume ainda uma conotação messiânica pelo cenário em que desenvolve: sobre o pináculo do templo de Jerusalém. De facto, espera-se a manifestação do Messias num contexto de prodígios, exactamente sobre o monte Sião, onde se ergue o templo de Deus. A nova proposta do tentador desta vez tem uma cobertura religiosa, porque, em sintonia com a primeira resposta de Jesus, apela para a «palavra» de Deus, que promete protecção ao justo que se encontra em perigo (Sl 91,11-12). Mas Jesus desmascara esta pseudo-religião que pretende servir-se de Deus. Apela à palavra de Deus que traça o caminho de fidelidade contestando toda a intenção humana de desafiar e instrumentalizar Deus (Dt 6,16).

A tentação do poder – Na última tentação diabólica para desviar o Messias do seu projecto de fidelidade a Deus estão presentes as esperanças messiânicas que alimentaram os movimentos de insurreição da Palestina.

Ao Messias davídico, entronizado sobre o monte Sião, ao lado do santuário de Deus, são prometidos os reinos da terra (Sl 2,6.8; 110,1-2). Porém, a condição posta pelo tentador é a adoração idolátrica que representa a infidelidade radical a Deus, único Senhor. De facto, Israel na posse da terra esqueceu e traiu a sua relação com o único Deus, prestando culto a outras divindades e sacrificando aos demónios (Dt 32,15-18). Não é aquele o caminho de fidelidade traçado pelo princípio fundamental que o crente hebreu recita em cada manhã: «Escuta Israel: o Senhor é o nosso Deus; o Senhor é único» (Dt 6,5). A conquista e a instauração dum poder imperialista em nome de Deus é uma perversão diabólica da verdadeira relação de fé que reconhece a única senhoria de Deus.

O cenário das três tentações encerra com um quadro ideal que é prelúdio da vitória definitiva de Jesus. Ao seu serviço estão agora os anjos que acompanharão a sua vinda como juiz e Senhor universal (Mt 16,27; 24,31; 25,31). Aquele pão que ele recusou obter de maneira taumatúrgica usufruindo do seu estatuto de Messias, recebe-o agora como sinal da fidelidade de Deus. Aquela assistência divina que não reivindicou como privilégio messiânico na cena do templo, obtém-na no fim do seu caminho humano de fidelidade.

P. Franclim Pacheco

 

Diocese de Aveiro

 


 

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