Pages Navigation Menu

II Domingo da Quaresma – Ano A

Breve comentário

Para melhor entendermos o texto deste domingo, que nos apresenta a transfiguração de Jesus, devemos situá-lo no seu contexto. Antes da transfiguração é referida a confissão de Pedro (16,13-20) com a inserção do dito de Jesus sobre o primado, seguindo-se a predição da paixão e ressurreição (16,21-23), à qual Pedro reage, sendo chamado «Satanás», o convite à renúncia de si mesmo, a tomar a sua cruz e a seguir Jesus no seu caminho de amor e de entrega da vida (Mt 16,24-28). O que se segue, até Mt 20,34, continua a ser uma catequese sobre o discipulado, apresentando mais dois anúncios da paixão.

A transfiguração aparece colocada pouco depois do primeiro anúncio e é seguida quase a seguir do segundo. Nela o tema da glória prevalece; mas também está aqui presente o tema da dor: o pressentimento da morte serve de fundo à perícope. Nos anúncios da paixão o tema do sofrimento e da morte prevalece mas não está só, pois todos os anúncios terminam sempre com uma referência à ressurreição.

O Pai confirma os actos realizados por Jesus antes de subir ao monte: ele é o Cristo e o Filho de Deus (16,16), é o servo sofredor que Pedro não aceita (16,21-23), aquele que chama a segui-lo no seu caminho (16,24) e se declara como juiz do mundo (16,27). Diante de três homens, o Filho do Homem é proclamado pelo Pai como Filho de Deus. É o final da discussão sobre quem é Jesus, é o início da viagem para Jerusalém, com a sua morte e glorificação.

Com a transfiguração, Pedro, Tiago e João têm uma antecipação da glória que Jesus terá depois da sua ressurreição. Também nós seremos transfigurados como ele, se o escutarmos e cumprirmos a sua palavra.

Literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania, isto é, uma manifestação de Deus, apresentada com os elementos típicos que encontramos no Antigo Testamento para apresentar as manifestações de Deus: o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino.

Antes deste episódio, Jesus tinha exclamado: «Há aqui alguns presentes que não experimentarão a morte antes de verem o Filho do Homem vir no seu reino» (16,28). No contexto do evangelho de Mateus este versículo refere-se à transfiguração a seguir narrada como um saborear antecipado da glória do Filho do Homem.

A indicação de «seis dias», no pensamento de Mateus pode referir-se ao testemunho de Pedro e à discussão que se lhe seguiu, sobretudo a oposição de Jesus a Pedro, mas também à recordação da manifestação de Deus no monte Sinai (Ex 24,16). De facto, seis dias é o tempo exacto que a glória do Senhor, isto é, a nuvem, cobriu o monte Sinai. No sétimo dia o Senhor chamou Moisés do meio da nuvem. O monte alto é identificado pela tradição com o monte Tabor, na planície de Jezrael. Jesus leva consigo apenas três discípulos. Também isto nos recorda o Sinai, pois Moisés subiu ao monte juntamente com Aarão e os seus dois filhos, Nadab e Abiú.

Para Mateus, o monte é lugar de revelação: Jesus sobe a um monte para apresentar a sua Lei (Mt 5–7); sobre um monte fará a sua manifestação como Ressuscitado (Mt 28,16-20).

O verbo usado por Mateus para apresentar a transfiguração é metamorphòthe (mudou de aspecto). O evangelista sublinha este efeito sobretudo no rosto de Jesus. Temos aqui uma referência a Moisés que, ao descer do monte Sinai não se tinha dado conta que a pele do seu rosto resplandecia depois de ter falado com Deus» (Ex 34,29). O judaísmo esperava para a era escatológica uma transformação dos justos (cf. também Paulo, 1Co 15,35-54). As suas vestes tornaram-se brancas como a luz: uma expressão quase idêntica descreve o anjo da ressurreição (28,3).

Ao lado de Jesus surgem duas figuras: Moisés e Elias. Estes dois personagens são extremamente significativos. Não são apenas os dois personagens mais importantes do Antigo Testamento, mas ambos estiveram no monte Sinai e tiveram uma visão de Deus. Além disso, a sua morte foi particular: Moisés morreu antes de entrar na terra prometida, mas o seu túmulo nunca foi encontrado (Dt 34,5-6); Elias foi arrebatado num carro de fogo (2Rs 2). Eles falam com Jesus precisamente da sua morte, como especifica o texto paralelo de Lucas (Lc 9,31). A função de Moisés e Elias parece ser a de quem presta homenagem a Jesus e dá testemunho da voz do céu.

A proposta de Pedro em fazer três tendas é um serviço oferecido; é também uma manifestação de alegria e de assombro. Talvez ele queira prolongar este momento de glorificação, pois revolta-se contra a ideia do sofrimento messiânico.

Agora Jesus tem o aspecto daqueles que Deus já glorificou com a vida imortal (luz e brancura das vestes). Paixão e ressurreição, humilhação e glória estão entrelaçadas. Deste modo, a transfiguração torna-se ela mesma um anúncio, uma profecia dos factos. O que por agora domina sobre o monte, diante dos olhos estupefactos de Pedro, Tiago e João é sobretudo a glória. Por um breve momento, Jesus oferece aos seus discípulos mais próximos uma iluminação sobre o seu futuro e o deles, um presságio do além. O sofrimento, para o qual ele está a caminhar com lúcida consciência e para o qual caminharão os seus discípulos, é um presságio, não é definitivo. O seu desembocar natural, inevitável, será a glória; a qual então manifesta o secreto valor do presente sofrimento: «Porque quem quiser salvar a própria vida, há-de perdê-la; mas, quem perder a própria vida por minha causa, salvá-la-á».

A nuvem luminosa interrompe o discurso de Pedro. Trata-se dum contrassenso que se encontra somente em Mateus (como pode uma nuvem fazer luz?). Neste elemento encontramos ainda o influxo do Êxodo: a nuvem da glória do Senhor «aparecia como fogo devorador aos olhos dos filhos de Israel no cimo da montanha» (Ex 24,17). Também a nuvem cobria a Tenda da Reunião em Ex 40,34-35. Agora já não há necessidade de fazer tendas, pois a revelação da glória do Senhor foi agora encerrada no coração dos discípulos!

Este é o meu Filho Predilecto, em quem me comprazo – A frase é a mesma que se ouviu na narração do baptismo e que condensa, aprofundando-as, diversas expressões do Antigo Testamento. O Pai apresenta agora o Filho predilecto, o seu unigénito, aos três discípulos: «Este é o meu Filho». Como Yahweh no Sinai tinha falado ao povo por meio de Moisés, oferecendo-lhe o poder tornar-se sua nação predilecta, sua propriedade santa, assim agora o próprio Deus fala aos três discípulos, apresentando-lhes o seu Filho predilecto.

Escutai-O! Todas as palavras de Jesus são autenticadas, aprovadas e defendidas por Deus. No pensamento de Mateus, a voz do céu pede que seja escutada sobretudo e em particular a palavra de Jesus sobre a sua própria paixão, morte e ressurreição, objecto já da repulsa por parte do mais importante discípulo, e destinada a permanecer pelos séculos futuros como motivo de escândalo.

O texto fala do grande temor dos três discípulos, mas a descrição que dá é, uma vez mais, convencional. O temor e a perturbação dos discípulos são a reacção natural de qualquer pessoa perante a manifestação da grandeza, da omnipotência e da majestade de Deus.

Jesus toca os discípulos, com um gesto que lhe é habitual e que traz a salvação aos doentes. Encoraja-os, dizendo: «Levantai-vos e não tenhais medo». Também esta dupla ordem é habitual em Jesus. Jesus é familiar, amigo; ao mesmo tempo ele é o Senhor, cuja palavra traz a tranquilidade e segurança.

O retorno de Jesus à condição habitual da sua existência terrena é enunciado sem ênfase, como a constatação dum facto de que foram testemunhas, mas de que não se saberia dizer nada mais. Como aconteceu? Como comentá-lo? Eles viram Jesus sem glória, no fim, isto é, só Jesus. O acontecimento conclui-se com a mesma simplicidade e falta de preparação com que tinha começado.

Pe. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

  • Facebook
  • Google+
  • Twitter
  • YouTube