Pages Navigation Menu

III Domingo da Quaresma – Ano A

Öèôðîâàÿ ðåïðîäóêöèÿ íàõîäèòñÿ â èíòåðíåò-ìóçåå Gallerix.ru

Breve comentário

Para uma compreensão do evangelho deste domingo e dos dois domingos seguintes, devemos ter em conta que os textos são tirados do Evangelho segundo S. João que apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. Sendo, por um lado, o evangelho que apresenta mais pormenores geográficos e cronológicos sobre a pessoa e obra de Jesus, por outro lado é aquele que se apresenta como o mais simbólico. O leitor ou ouvinte deve interrogar-se sempre sobre o que S. João pretende dizer para além daquilo que apresenta.

A primeira parte da obra (4,1–11,56) é chamada «Livro dos Sinais» pois o autor, por detrás dos textos, tratados de forma simbólica, apresenta um conjunto de catequeses sobre a acção de Jesus Messias, utilizando os «sinais» da ÁGUA (4,1–5,47), do PÃO (6,1-7,53), da luz (8,12-9,41), do PASTOR (10,1-42) e da vida (11,1-56). O texto deste domingo é a primeira catequese do «Livro dos Sinais». Através do «sinal» da água, o autor vai descrever a acção criadora e vivificadora de Jesus.

A cena passa-se à volta do «poço de Jacob», não longe da cidade samaritana de Siquém (em aramaico, Sicara – a actual Askar). Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária, e cuja profundidade ultrapassa os 30 metros, que, segundo a tradição, teria sido aberto pelo patriarca Jacob. A Samaria era a região central da Palestina que, depois da invasão dos assírios em 721 a.C., passou a ser habitada por outros povos que se misturaram com a população local que aí continuou após a deportação duma parte dela para a Assíria. Com o decorrer dos tempos esta gente começou a paganizar-se (cf. 2Rs 17,29).

Na época do Novo Testamento, existia uma animosidade muito viva entre samaritanos e judeus. A relação entre as duas comunidades deteriorou-se ainda mais quando, após o regresso do Exílio, os judeus recusaram a ajuda dos samaritanos (cf. Esd 4,1-5) para reconstruir o Templo de Jerusalém (437 a.C.) e denunciaram os casamentos mistos. Tiveram, então, de enfrentar a oposição dos samaritanos na reconstrução da cidade (cf. Ne 3,33-4,17). Como reacção, no ano 333 a.C. os samaritanos construíram um Templo no monte Garizim; no entanto, esse Templo foi destruído em 128 a.C. por João Hircano. Já em vida de Jesus, no ano 6 d.C., os problemas avolumaram-se quando os samaritanos profanaram o Templo de Jerusalém durante a festa da Páscoa, espalhando ossos humanos nos átrios. Por isso, mais do que um mal-estar, entre judeus e s   Samaritanos havia um sentimento de ódio e desprezo recíprocos.

Aquele «poço» aparece, na tradição samaritana, judaica e dos essénios de Qumran, com um forte sentido simbólico. Faz recordar todos os poços abertos pelos patriarcas e a água que Moisés fez brotar do rochedo no deserto; mas, de modo particular, torna-se figura da Lei de Moisés.

Situando o diálogo junto dum poço, o evangelista apresenta-nos um tema da literatura bíblica. O poço era lugar privilegiado de encontro, de conflito e de reconciliação. Por exemplo, foi junto de um poço que se prepararam os casamentos de Isaac e Jacob; foi também junto de um poço que Moisés encontrou as filhas de Raguel.

Também Jesus, tal como Moisés, senta-se junto dum poço, cansado, por volta da hora sexta (meio-dia). É aqui que se dá o encontro com uma mulher samaritana.

A referência ao passado da mulher que já teve cinco maridos parece algo fora do lugar e até incongruente: segundo a lei, podia-se contrair no máximo três casamentos. Estamos, pois, num campo alegórico.  A mulher é um símbolo da Samaria, que procura a água capaz de matar a sua sede de vida plena. Jesus, na linha da profecia de Oseias que pregou nesta região séculos antes, é o Deus/esposo que vai ao encontro do povo/esposa infiel para lhe fazer descobrir o amor verdadeiro. O «poço» representa a Lei e todo o sistema religioso. Era «nesse poço» que os samaritanos procuravam a água da vida plena sem se poderem saciar. Por isso, entregaram-se ao culto de outros deuses/«maridos» (precisamente cinco), conforme nos relata 2Rs 17,29-41. Mas continuaram sem saciar a sua sede de vida plena.

Jesus senta-se «junto do poço» e propõe à mulher/Samaria uma «água viva» que matará definitivamente a sua sede de vida eterna. Jesus passa a ser o «novo poço», onde todos os que têm sede de vida plena encontrarão resposta para a sua sede. Ele mesmo tem sede e pede água, mas a sede dele é a sede de matar a sede. O pedido «Dá-me de beber» vai encontrar um paralelo na exclamação «Tenho sede» que Jesus faz do alto da cruz, sem que tenha bebido a água que lhe fizeram chegar…

O evangelista desenvolve todo o diálogo num crescendo que parte da reacção negativa («Tu és judeu e pedes de beber a mim que sou uma mulher samaritana?»), da confusão e do equívoco («não tens balde»), pela descoberta da presença de Deus em Jesus («vejo que tu és profeta»), pela iniciativa de ir anunciar aos outros («Não será ele o Messias?»), até à confissão de fé («Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo») de muitos que, através da mulher, se encontraram com Jesus.

 

Pe. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

  • Facebook
  • Google+
  • Twitter
  • YouTube