Pages Navigation Menu

IV Domingo da Quaresma – Ano A

Jesus Healing the Blind
El Greco

Breve comentário

O episódio da cura cego de nascença, inserido na primeira parte do Evangelho de S. João, o Livro dos Sinais, deve ser abordado não apenas como uma cura miraculosa, mas como um «sinal» que aponta para uma realidade mais profunda.

O contexto anterior traz alguma luz para entendermos este texto. O episódio está no prolongamento da festa das Tendas que, durante uma semana, se caracterizava pela liturgia da água e da luz. No segundo dia da festa, celebrava-se o rito da «alegria do poço», organizando-se uma solene procissão para ir buscar água à piscina de Siloé, o único reservatório da cidade. Jesus, de pé, proclamou: «Se alguém tem sede, venha a mim; e quem crê em mim sacie a sua sede» (Jo 7,37), o que faz recordar o diálogo com a samaritana. Durante a festa da luz proclama: «Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8,12), frase que irá encontrar um eco no episódio deste domingo.

Estamos perante o único diálogo do evangelho de S. João que é sustentado por uma pessoa diversa de Jesus com os seus interlocutores/acusadores, os fariseus/judeus; o texto tem um andamento judicial, como um processo que, ao estilo de João, põe em confronto ao longo do evangelho Jesus e os seus contemporâneos. O tema da luz sublinha como em Jesus chegou o momento do julgamento do mundo: à luz que é o próprio Cristo revelam-se os segredos dos corações e cada um deve declarar-se a favor ou contra Jesus.

Ao longo da narração, o evangelista regista vários títulos, adjetivos e nomes que Jesus recebe das mais variadas pessoas. Este modo de descrever os factos da vida de Jesus faz parte da catequese da época. Era uma forma de ajudar as pessoas as aclarar as ideias a respeito de Jesus e a definir-se diante dele. O elenco apresentado indica o crescimento do cego na fé e como se esclarece a sua visão.

Rabbi (mestre) (Jo 9,1): os discípulos

Luz do mundo (Jo 9,5): Jesus

Enviado (Jo 9,7): o Evangelista
Homem (Jo 9,11): o cego curado
Jesus: (Jo 9,11): o cego curado

Não vem de Deus (Jo 9,16): alguns fariseus

Profeta (Jo 9,17): o cego curado
Cristo (Jo 9,22): o povo
Pecador (Jo 9,24): alguns fariseus

Não sabem donde é (Jo 9,31): alguns fariseus
Religioso (Jo 9,31): o cego curado
Faz a vontade de Deus (Jo 9,31): o cego curado
Filho do Homem (Jo 9,35): Jesus

Senhor (Jo 9,36): o cego curado

Creio, Senhor! (Jo 9,38): o cego curado.

O homem do relato é cego de nascença mas, para Jesus, a sua cegueira não provém do pecado. O seu estado simboliza outra escuridão, aquela em que todo o homem se encontra antes de ser iluminado. Por isso, ele não pede nada, pois não pode pedir aquilo que não conhece. Ele não vai recuperar algo que já teve: simplesmente vai nascer para uma nova existência.

A cura do cego só se realiza depois de ele se ter ido lavar à piscina de Siloé (palavra que significa «Enviado»), com uma referência clara a Jesus, o enviado do Pai. Jesus é a água viva que cura a cegueira do homem, de todo o homem.

Quem é iluminado por Jesus, quem recebe a sua luz, passando a ser uma pessoa nova, iluminada, o que naturalmente leva os outros a duvidarem se é o mesmo indivíduo. Ele tornou-se diferente!

Da parte das autoridades religiosas, que estão convencidos de possuírem a verdade, de serem iluminados, há uma rejeição do sinal operado. Estão convencidos de que vêem e, por isso, negam-se a ver a Luz: «as trevas não o receberam», como anuncia o evangelista no início do evangelho.

Porém, para aquele que foi cego, e agora começa a ver, existe todo um caminho a percorrer até chegar a «ver» plenamente. Um caminho em que é rejeitado, abandonado à sua sorte mesmo pelos mais próximos (os pais que se põem longe da situação), um caminho de procura da verdade, consciente da sua limitação e da sua ignorância: «Onde está, não sei»; «Se é pecador, não sei»; «Quem é?».

Mas algo de novo se operou e, por isso, não tem medo de enfrentar aqueles que o querem aconselhar a continuar «cego», que o ameaçam. Torna-se corajoso, até um pouco atrevido e irónico perante aqueles que se recusam a ver a evidência, pelo que o insultam e expulsam do seu círculo. O que era cego estava proibido de entrar no templo; agora, que vê, é expulso da sinagoga…

Este homem, apesar de ter sido iluminado, de ter recebido a Luz que o modificou e levou a tomar atitudes firmes face aos que permanecem nas trevas, julgando ver, ainda não conhece plenamente Jesus. Fez todo um percurso de fé. Falta-lhe o reconhecimento de Jesus e a confissão de fé. «Tu crês no Filho do Homem?». Ele respondeu e disse: «E quem é, Senhor, para eu crer nele?». Disse-lhe Jesus:«Já O viste. Quem fala contigo é Ele». Ele disse: «Eu creio, Senhor!».

Aquele que era cego fisicamente, sem culpa da sua parte, agora vê plenamente, está agora completamente iluminado. Aqueles que não eram cegos fisicamente apresentam uma maior cegueira, permanecem nas trevas e recusam-se a ver. Por sua culpa são cegos!

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

  • Facebook
  • Google+
  • Twitter
  • YouTube