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O tempo que Deus nos dá!

O tempo que Deus nos dá!

P. Manuel J. Rocha

 

Não sabem os sentimentos que passaram por mim ao entrar na Igreja para celebrar a Eucaristia neste domingo, o terceiro da Quaresma, onde se falava da samaritana, da água viva, aquela que mata a sede sem ser preciso voltar ao poço! Olhei à volta: bancos vazios e corri-os um a um, revi as caras conhecidas, aquelas que costumavam estar ali e mais atrás e as outras. Ninguém!

E a minha imaginação foi para os cristãos do silêncio, os cristãos das catacumbas do tempo dos romanos, mas também do século vinte, do país de Tomás Halik, a República Checa comunista, ordenado sacerdote no silêncio de uma pequena sala sem a própria mãe ter tido conhecimento do sucedido. Lembrei-me do cardeal vietnamita Van Thuan que conheceu a prisão durante 13 nos, depois expulso do seu país, e dos lindos poemas/orações que compunha em latim, em comunhão com o silêncio da sua apertada cela com a conivência de um dos seus guardas. Lembrei-me de Asia Bibi e tantos outros obrigados a celebrar a sua fé e a vivê-la no silêncio, da Coreia do Norte, etc. Mas todos estes inimigos que os impediam e impedem de viver a sua fé, às claras, tinham rosto, armas na mão, ideologias a defender, ordens para cumprir.

Mas ali! Fugíamos de quem?

Chamam-lhe Coronavirus ou Covid-19. Veio lá das bandas da China e, pé ante pé, entrou no silêncio das nossas vidas, de todos os países. Não escolheu os mais pobres ou os mais ricos, os mais novos ou os mais velhos, mais ou menos conhecidos. Quando pensávamos que éramos imunes, mostrou-nos que todos podemos ser infetados; quando olhávamos a vida como se fossemos sozinhos, disse-nos que todos precisamos uns dos outros; quando confiávamos nas novas tecnologias, nos novos remédios, nos examos e diagnósticos. Mostrou a nossa fragilidade e fez-nos curvar a cabeça, regressar a casa e viver aqueles momentos  que já não fazíamos ideia de que fosse possível: estar em casa; a refeição mais demorada e a conversa mais em dia; o tempo que parece não terminar, os jogos daquele tempo que é preciso ressuscitar… eu sei lá: um simples vírus que veio de mansinho de tão longe e põe-nos, a todos, em sentido.

E nós estávamos ali! Portas fechadas para celebrar o Jesus presente na Sua Palavra que vamos partilhar e no seu Corpo que vamos comungar, não só por nós, mas por todos aqueles que, naquele domingo, costumam marcar presença, encher os bancos, rezar em comunidade e cantar a alegria do domingo com o barulho da pequenada ou ao atraso dos papás. Ali não. Era silêncio demasiado, com cheiro a vazio.

Tudo isto me veio à memória e transformou-se em realidade quando respondi com entusiasmo ao convite do celebrante: “O Senhor esteja convosco!” E eu respondi: “Ele está no meio de nós!” Nós?  Nos quem? Sim nós. Eu estava ali, mas não era só eu. Era eu e vós todos os que não tivestes possibilidade de participar corporalmente, mas participastes através de um computador, de uma TV ou da rádio. Eu estava lá convosco. Estava lá por vós e por todos aqueles que não podem celebrar a Eucaristia naquela manhã de domingo. Eu estava lá e vós comigo.

Mas o que fez escrever estas linhas foi um senhor chamado Naamã que era oficial do Rei da Síria. Era leproso e alguém o mandou ao profeta de Israel onde se poderia curar. Mas o profeta manda-lhe dizer uma coisa muito simples: “… Vai banhar-te sete vezes nas águas do rio Jordão”. Ele achou aquilo muito estranho porque, no seu pensar, tinha rios muito melhores na sua terra e, desiludido, preparava-se para demandar ao seu país. Até que, um dos seus empregados lhe recorda que, sendo uma coisa tão simples, porque não experimentava? E ele deixou-se convencer. Mergulhou sete vezes no rio Jordão e ficou limpo.

Era simples, mas era aquilo que lhe cabia a ele para se poder curar.

Tal como nós, todos nós e cada um de nós. Nestes tempos mais complicados porque estamos a passar, temos de fazer a nossa parte: ouvir as mensagens que nos chegam, as ordens que nos dão, sem alarmismos, mas com consciência da seriedade da situação e a esperança de que é um tempo…  e que a separação de hoje será o abraço de amanhã. É um tempo para aproveitar com otimismo, através do diálogo, da conversa em família, da atenção aos mais pequenos, da oração e do silêncio, do pensar na vida e na ajuda. É o tempo que o Senhor nos dá porque só Ele é o senhor da vida e do futuro.  E, no próximo domingo, lá estaremos, se Deus quiser.


 

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