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V Domingo da Quaresma – Ano A

Comentário

O evangelho deste domingo é mais uma das catequeses que o evangelista João apresenta na primeira parte do seu evangelho, o «Livro dos Sinais».

Apesar de ser um texto bastante longo, chamado vulgarmente «a ressurreição de Lázaro», dedica apenas dois versículos a este episódio. O resto do texto procura ajudar o leitor ou o ouvinte a entrar na profundidade da mensagem que o «sinal» quer transmitir.

O termo «ressurreição» referido a Lázaro é equívoco. Será melhor falar de «reanimação», um regresso a este mundo para retomar a vida material, reservando a palavra «ressurreição» para significar a entrada para a vida inaugurada por Jesus na Páscoa, deixando esta vida material para entrar no mundo de Deus.

Logo no início da narração é apresentada uma família composta apenas por três elementos, não havendo referência a outros membros, com a nota de que são «irmãos». Pelo facto de as duas irmãs, Marta e Maria, terem o controlo da casa, podemos pensar que Lázaro (forma grega do nome Eleazar, que significa «Deus ajudou») seria menor ou solteiro. Por outro lado, é com a palavra «irmão» que Jesus ressuscitado se refere à comunidade dos discípulos (Jo 20,17) e é assim que os membros da primeira comunidade cristã se tratam. A relação entre Jesus e esta família é apresentada em termos de amizade e de amor recíproco.

As irmãs de Lázaro enviam-lhe um recado: «Senhor, aquele de quem és amigo        está doente», em que está implícito um pedido de ajuda. Porém, Jesus não vai imediatamente ter com o amigo doente, mas deixa que ele morra. Não tem a intenção de impedir a morte física, prolongando-a indefinidamente, mas quer dar uma lição acerca da sua missão e do plano do Pai: dar a vida eterna, apresentando um sentido diferente, novo, para a morte física.

Jesus manifesta aos discípulos a sua intenção de ir para a Judeia porque o impele o amor para com o seu amigo e por todos os homens. Este é o motivo do seu peregrinar: o amor generoso e fiel por todos. Mas os discípulos que estão com ele só pensam no perigo que poderá representar tal atitude. Com a frase «Não são doze as horas do dia?», provavelmente citando um provérbio, Jesus compara a sua vida a um dia de caminhada. Enquanto não tiver terminado o que Deus lhe confiou, a sua vida não chegou ainda ao seu termo e a sua missão continua. Só quando tudo estiver realizado terá chegado a sua hora, virá a noite, o «poder das trevas», em que os seus inimigos poderão matá-lo.

Com o atraso deliberado de Jesus, para quem a morte é um «sono», o amigo Lázaro acaba por morrer e é sepultado logo no mesmo dia, conforme o costume judaico. Há quatro dias que tal aconteceu. Já não há nada a fazer pois, para a mentalidade judaica, tudo está consumado a partir do terceiro dia, tornando a morte irreversível.

As irmãs de Lázaro, uma após outra, chamam a atenção de Jesus para o seu atraso: «Senhor, se Tu estivesses aqui, o meu irmão não teria morrido». Mas Marta continua a confiar, acredita que Jesus é o Messias e pode fazer tudo, podendo fazer ressuscitar o irmão. Ela crê na ressurreição final, mas espera que Jesus actue agora. No Antigo Testamento Elias tinha ressuscitado o filho da viúva de Sarepta (1Rs 17,21) e Eliseu o filho da mulher sunamita (2Rs 4,14). O próprio Jesus tinha ressuscitado a filha de Jairo e o filho da viúva de Naim. Mas em todos estes casos nem sequer estavam sepultados, quanto mais tendo morrido há quatro dias e a cheirar mal!

A afirmação fundamental do texto é descrita em poucas palavras: «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em mim jamais morrerá para sempre». A catequese é evidente: aqueles que aderem a Jesus já possuem a vida definitiva. A morte física é inevitável, mas não é definitiva, é apenas um sono, uma passagem para a vida definitiva.

Jesus não é indiferente ao sofrimento e à dor dos seus amigos. Chora perante a separação, embora  apenas por algum tempo. Mas o evangelista faz notar que o choro de Jesus é diferente. Enquanto usa o verbo grego klaiein para Maria, Marta e os outros judeus, que tem o sentido dum choro acompanhado com gestos de desespero, para Jesus usa o verbo edákrusen que significa: «as lágrimas começaram a correr-lhe dos olhos». Trata-se dum choro sereno.

A pedra que encerra o sepulcro representa uma barreira entre a vida e a morte, tornando-se símbolo de separação definitiva. É esta «pedra» que Jesus manda retirar, tal como removeu a pedra do seu sepulcro para vencer a barreira da morte, pois a morte não é um fim.

Jesus reza ao Pai, não para pedir um milagre, mas para que os que o rodeiam entendam o significado profundo do «sinal» que está para realizar. E bradou com voz forte: «Lázaro, vem para fora». Concretiza-se assim o que ele já tinha dito: «Chega a hora – e é já – em que os mortos hão-se ouvir a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. Todos os que estão dos túmulos hão-se ouvir a sua voz e sairão» (Jo 5,25-29).

A ordem final de Jesus – «Desligai-o e deixai-o ir» – parece não ter sentido naquele momento. Mas o evangelista está a pensar na futura comunidade dos «irmãos» que choram a perda dum «irmão». É importante deixar que o irmão viva a sua condição duma vida nova e plena. Esta vida é um novo nascimento, como o entenderam os cristãos logo no início, assinalando o dia da morte como o dia festivo da comemoração de cada santo.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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