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MISSA DA CEIA DO SENHOR – Homilia

MISSA DA CEIA DO SENHOR

Amou-os até ao fim

 

Começamos, de uma forma que ninguém esperava, o tríduo pascal, celebrando os últimos três dias da vida de Jesus: as suas palavras, os sinais que realiza, os ensinamentos que transmite, a esperança que incute em nós, a sua oração… tudo isto como num tríptico, em três momentos diferentes. A perspetiva do tríduo pascal está na entrega de Jesus na cruz, na sua morte e no triunfo da vida na sua ressurreição. Hoje fazemos memorial, isto é, tornamos real a instituição da Eucaristia, o mandamento do amor fraterno e a instituição do ministério sacerdotal.

 

1. Presença de Jesus no meio de nós

O texto da segunda leitura da primeira carta de S. Paulo aos coríntios, ao falar da assembleia litúrgica, narra a profunda divisão que existia na comunidade cristã de Corinto a propósito da celebração da Ceia do Senhor e a forma como se devia celebrar condignamente. As suas celebrações não eram dignas e causavam mais mal que bem àqueles que nelas participavam. Os ricos, não querendo comer com os mais pobres, antecipavam-se às celebrações e comiam o que levavam, sem repartir com os mais necessitados. Os abusos eram tão escandalosos que tinham deixado de ser celebração da Ceia do Senhor para passar a ser a «sua própria ceia». Por isso perguntava Paulo: «Porventura não tendes casas para comer e beber? Ou desprezais a Igreja de Deus e quereis envergonhar aqueles que nada têm? Que vos direi? Hei de louvar-vos? Nisto não vos louvo» (1Cor 11,22).

O texto desta segunda leitura narra um dos momentos-chave da vida de Jesus, da comunidade cristã e mesmo de toda a espiritualidade: afirmamos a presença de Jesus no meio da sua Igreja, unindo-nos uns aos outros, como membros da família de Deus, à volta da mesma mesa; temos um momento de comunhão pessoal com o Senhor e afirmamos a nossa unidade com o corpo de Cristo; e proclamamos a vitória do Ressuscitado sobre a obra da criação. A Eucaristia é presença e comunhão com Deus e com os irmãos.

 

2. O mandamento novo do amor

O mandamento novo do amor, este ano sem o gesto do lava-pés, exige que levemos a Eucaristia para a nossa vida do dia-a-dia. A caridade é a forma, o princípio unificador de toda a ação pastoral. Urge redescobrir que só a presença real do outro nos torna humanos e que só o contacto com os outros nos coloca também em contacto connosco mesmos e com Deus. Perante os vários tipos de pobreza e de fragilidade, nos quais somos chamados a reconhecer Cristo sofredor, o cristão não pode ficar indiferente. «Fechar os olhos ao próximo torna-nos cegos diante de Deus!» (Deus caritas est 16).

Hoje celebramos a Ceia do Senhor unidos a tantos irmãos nossos que vivem momentos muito difíceis. Há efetivamente muitas pessoas e muitas necessidades a precisar de uma resposta, sem esquecer que à pobreza material se acrescentam também numerosas formas de pobreza moral, cultural, espiritual e religiosa. É nosso dever cristão apoiar e confortar os que necessitam; estar ao lado deles, tornando esses momentos mais amenos, revigorando-os na fé.

 

3. Fazei isto em memória de Mim

Não quero terminar, sem dirigir uma palavra de apreço e de proximidade para com os nossos sacerdotes. Não tendo sido possível celebrar esta manhã a missa crismal, sinto que a comunhão em presbitério tem sido vivida com intensidade e que estes momentos reforçam os laços que nos unem.

A virtude que orienta e anima a nossa vida de presbíteros, enquanto configurados a Cristo Cabeça e Pastor, é a caridade pastoral. O fazei isto em memória de mim significa “levar até ao extremo o amor pelos irmãos” (Jo 13,1), isto é, lavar-lhes os pés e “ficar feliz por fazê-lo” (Jo 13,17).

Se é verdade que a Eucaristia faz a Igreja, também é verdade que “a Igreja faz a Eucaristia”. A Eucaristia é Cristo que Se dá a nós, edificando-nos continuamente como seu corpo. «Na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa e o pão vivo que dá aos homens a vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Espírito Santo: assim são eles convidados e levados a oferecer, juntamente com Ele, a si mesmos, os seus trabalhos e todas as coisas criadas» (Sacramentum Caritatis 16).

Olhemos para fora das nossas igrejas vazias e demos aos irmãos a mão amiga que os ajude a levantar-se e a confiar que o sofrimento se vence com o amor e a esperança nos leva a viver a glória de Jesus ressuscitado.

 

+ António Manuel Moiteiro Ramos, bispo de Aveiro

Sé de Aveiro, 9 de abril de 2020


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