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III Domingo da Páscoa – Ano A

Breve comentário

O III Domingo da Páscoa apresenta-nos um texto próprio de Lucas, contendo dados tradicionais reelaborados de modo pessoal pelo evangelista para ilustrar a sua doutrina, os seus elementos característicos, a começar pela centralidade de Jerusalém. Trata-se duma perícope muito significativa para compreender o sentido da ressurreição de Jesus e as modalidades da fé pascal para os crentes de todos os tempos.

Lucas coloca no dia de Páscoa o encontro do ressuscitado com dois dos seus discípulos que estão a caminho, tema também central na segunda parte do evangelho, num esquema literário que encontramos também em Act 8,26-39, no encontro de Filipe com o eunuco etíope.

O grupo daqueles que acompanhavam habitualmente Jesus, denominado vagamente por discípulos, é mais amplo que os Doze, ou Onze com a morte de Judas. Os dois que vão para Emaús pertencem ao grupo mais alargado e é dito o nome dum deles: Cléofas. Vão embora desanimados, afastando-se do grupo a que pertencem, e vão conversando sobre «as coisas que aconteceram», às quais não conseguem dar resposta.

Jesus aproxima-se e caminha com eles: uma nota muito simples, mas cheia de significado para o caminho de fé dos discípulos de ontem e hoje. O primeiro passo é dado sempre por Jesus que vem ao nosso encontro no caminho que percorremos, em qualquer lugar em que nos encontremos. Com uma atitude simples, Jesus insere-se no discurso. Para os dois discípulos, trata-se dum peregrino (forasteiro) que está a deixar Jerusalém depois das festas da Páscoa, espantando-se pelo facto de ele não estar a par de algo que abalou toda a gente.

O que explicam ao peregrino tem a ver com Jesus, o nazareno, profeta poderoso em palavras e obras, que devia libertar Israel. A chama do nacionalismo, da revolta e do messianismo estão latentes na resposta. Mas tudo acabou: os chefes religiosos e autoridades políticas crucificaram Jesus há três dias. É bom recordar que, segundo a crença hebraica, o espírito do defunto ficava perto do cadáver até ao terceiro dia a partir do qual a morte era definitiva. Alguns factos os perturbaram: algumas mulheres e discípulos encontraram o túmulo vazio e uns anjos disseram que Ele estava vivo, mas a Ele não O viram.

A ideia que têm sobre a pessoa e vida de Jesus impede-os de O reconhecer, pois Ele nada tem a ver com glória terrena, messias político e nacionalismos. Lucas mantém vivo o «suspense» e abre novos horizontes. À dúvida dos dois, ele contrapõe uma ciência segura e sagrada. O viajante, com grande capacidade pedagógica guia os seus companheiros de caminhada através da leitura das Escrituras para a compreensão da sua vida. Ao messianismo triunfalista, à salvação terrena de Israel, contrapõe o plano de Deus, revelado pela Escritura, que previa a necessidade («não devia…?») da paixão de Cristo para entrar na sua glória. Por detrás do texto transparece a prática habitual da leitura dos textos do Antigo Testamento nas assembleias litúrgicas.

A caminhada está quase a acabar para os dois discípulos que, segundo as regras da hospitalidade palestinenses, insistem com o desconhecido para ficar com eles.

Quando se sentam à mesa, Jesus «parte o pão» e neste gesto faz-se reconhecer. Depois da leitura da Escritura, Lucas sugere aos seus ouvintes a «fracção do pão», termo técnico para indicar a Eucaristia (cf. Act 2,42.46; 20,7.11; 27,35): é aqui que agora os discípulos podem sempre encontrar o seu Senhor ressuscitado.

Com o partir do pão, sem uma palavra, os seus olhos abrem-se: afinal o viajante é Jesus, que desaparece. O Senhor desaparece, mas fica a alegria do encontro. O resto é simples conclusão: reflexão sobre a luz das Escrituras, regresso a Jerusalém, para junto do grupo, onde ficam a saber que Simão viu o Ressuscitado, e contam a sua experiência ao longo do caminho e o instante da fracção do pão.

O texto belo e bem estruturado que Lucas nos apresenta, mais do que um relato duma viagem com as suas peripécias, apresenta-se como uma catequese para os cristãos dos anos 80, a cinquenta anos de distância da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus, que se interrogavam, tal como os cristãos de todos os tempos: se Cristo ressuscitou e está vivo, como podemos encontrá-l’O e reconhecê-l’O; se Cristo está vivo, porque não toma uma atitude e triunfa definitivamente sobre o mal e sobre todos os poderes deste mundo?

Na base na narração evangélica está o esquema duma celebração eucarística: a liturgia da Palavra e o «partir do pão». Os cristãos, à luz das Escrituras, vão percebendo o plano de Deus no que respeita a Jesus e àqueles que percorrem o mesmo caminho, seguindo-O. Ele faz-se companheiro (com+pão – o que partilha o mesmo pão), sentando-se à mesma, para que os seus entrem em comunhão com Ele e o reconheçam neste gesto, sinal da sua entrega aos homens. Para quem faz esta experiência só há uma atitude a tomar: testemunhar que Jesus está vivo e presente na vida dos homens.

Pe. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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