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Solenidade da Ascensão do Senhor – Ano A

Breve comentário

O texto do evangelho deste domingo é o final do Evangelho segundo Mateus. Um olhar ao texto mostra-nos que o autor se centra em dois aspectos complementares: a figura de Jesus e o estatuto dos discípulos que são protagonistas da experiência pascal, a única em relação aos «onze».

Quando o evangelho de Mateus é escrito, os cristãos de origem judaica estavam em crise de identidade. Tinham continuado a frequentar a sinagoga e a observar as tradições judaicas. A partir do ano 80 começam os problemas de reivindicação de herdeiros das promessas do Antigo Testamento. Começa uma separação profunda que leva à expulsão dos cristãos das sinagogas por parte do grupo dos fariseus. Ora, Mateus escreve o seu Evangelho para ajudar esta comunidade a superar a crise e encontrar uma resposta para os sus problemas. Jesus é o verdadeiro Messias, o novo Moisés, no qual culmina todas a história do Antigo Testamento.

O grupo mutilado, após da perda de Judas, acolhe o convite de Jesus e do anjo (28,7.10). Infelizmente a comunidade é uma realidade humana, sempre imperfeita e, por isso, o pecado e a traição podem estar presentes mesmo entre quem é amigo de Jesus. São chamados discípulos, não são mestres porque um só é o Mestre (Mt 23,8), mas Jesus vai enviá-los a ensinar.  Dirigem-se para a Galileia. É na «Galileia das nações», zona da Palestina mais em contacto com aqueles que não pertencem a Israel. É ali, onde ressoou o primeiro anúncio do reino dos céus ao «povo imerso nas trevas e na sombra da morte» (4,12-16), que se retoma agora o contacto de Jesus ressuscitado com os discípulos que serão encarregados de continuar a missão com a sua autoridade e garantia da sua presença.

Jesus ressuscitado espera-os num monte. O «monte», no evangelho de Mateus, não é apenas um lugar geográfico: sobre um monte Jesus revela a vontade definitiva de Deus (5,1; 8,1); sobre o monte retira-se para rezar (14,23); sentado sobre o monte acolhe a multidão e cura os doentes (15,29); sobre um alto monte revela-se aos discípulos como o enviado de Deus (17,1.5). O último encontro acontece num monte da Galileia, lugar dos encontros históricos de revelação e de salvação.

Os discípulos reconhecem Jesus como o seu «Senhor», prostrando-se, numa atitude de humilde adoração. Mas a fé pascal não está isenta daquela dúvida que acompanha a fé histórica da comunidade («homens de pouca fé!» – 8,26). Só a presença e a palavra de Jesus faz superar a dúvida e fazer amadurecer a fé dos discípulos.

A primeira palavra de Jesus é uma declaração solene sobre a sua senhoria universal, referindo a iniciativa divina: «Foi-me dado todo o poder…». Mediante a ressurreição, Jesus foi constituído no pleno exercício do seu poder e, como o próprio Deus, pode ser proclamado «Senhor do céu e da terra» (11,25).

A segunda palavra de Jesus é uma ordem dada aos discípulos: Ide, fazei discípulos todos os povos». A primeira missão histórica dos discípulos era destinada às ovelhas perdidas da casa de Israel», excluindo os pagãos e samaritanos. Agora, a nova missão dos discípulos não tem limites nem restrições, fazendo com que toda a humanidade tenha uma relação de pertença a Jesus ressuscitado através do sinal baptismal e do pleno acolhimento e actuação do seu ensino. Este baptismo é dado «em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo», fórmula trinitária única em todo o Novo Testamento. O Pai é o novo rosto de Deus revelado por Jesus aos discípulos; assim como a identidade profunda de Jesus é conhecida pelo Pai que se revela aos pequeninos. O Espírito Santo é o poder benéfico e salvador de Deus revelado nos gestos e nas palavras da missão histórica de Jesus. É a única vez, em todo o Novo Testamento, que lemos esta fórmula do rito baptismal.

Tal como a condição para a pertença salvífica à antiga Aliança era o acolhimento e a actuação íntegra de tudo o que Deus tinha ordenado por meio de Moisés, assim o requisito fundamental para a pertença à comunidade dos discípulos do Senhor Jesus é observar, praticar fielmente a vontade de Deus que ele revelou e ensinou de modo pleno e definitivo.

A última palavra de Jesus é uma promessa que vale como garantia de encorajamento e confiança: «Eis que Eu estou convosco». Aquele que, antes de nascer, tinha sido apresentado como Emanuel, Deus connosco; o mesmo que declarou que onde dois ou três se reunissem em seu nome: «Eu estarei no meio deles», apresenta-se agora com toda a autoridade divina para garantir a sua presença, não provisória ou pontual, mas constante: «Eu estarei convosco todos os dias até ao fim dos tempos».

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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