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Homilia de D. António Moiteiro na Missa Crismal

Sagrado Coração de Jesus – Bênção dos óleos (Missa crismal)

 

1. Louvo-te, ó Pai, Senhor do céu e da terra

O Evangelho traça-nos um verdadeiro itinerário de seguimento do discípulo. Temos, antes de mais, o chamamento: «vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos…»; a seguir, a renúncia à própria vontade, como condição necessária para esse chamamento: «tomai sobre vós o meu jugo»; a atitude do discípulo como obediência ao seu mestre e Senhor: «aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração» e, por fim, a plenitude de vida encontrada na entrega ao Senhor: «e encontrareis descanso para as vossas vidas» (Mt, 11, 28-29).

Jesus promete descanso a quem assume o seu jugo, mas isto não tem nada que ver com uma vida permanentemente stressada pelos muitos afazeres pastorais e esquece a confiança em Cristo, que é fonte de descanso na fadiga e de consolação nas contrariedades. Um jugo permanece um jugo, e nada retira ao esforço de o carregar na vida do dia-a-dia. Amar é trabalho que exige empenho, e a sequela Christi comporta esforço e cansaço. Não podemos esquecer, queridos sacerdotes e diáconos, que o jugo da obediência carregada por Jesus se tornou, no fim da sua vida, um carregar a cruz.

 

2. Sacerdotes ungidos do Senhor

A nossa celebração de hoje tem, em si mesma, tudo aquilo que foram estes três meses de confinamento com medo à pandemia, com as igrejas fechadas por respeito às regras de saúde e dos nossos concidadãos e com a vida pastoral das nossas paróquias profundamente alterada. O próprio futuro está carregado de incertezas e ninguém pode afirmar que tudo está ultrapassado. As dificuldades fazem-se sentir e nós somos testemunhas: as desigualdades económicas aumentaram, os mais pobres vivem cada vez com menos recursos, o futuro vai trazer novos desafios à nossa convivência em sociedade e mesmo na vida da nossa Igreja, o presente já não tem nada que ver com a “normalidade” de há três meses atrás e com os novos desafios que se colocam à nossa Diocese e às nossas paróquias, para os quais devemos estar atentos.

Que significa, para nós, participar do sacerdócio de Cristo? Normalmente pensa-se nos sacerdotes como pessoas que fazem coisas religiosas, quase sempre em edifícios velhos. O sacerdócio de Jesus consiste em ser o mediador entre Deus e a humanidade. Ele encarna o amor de Deus por nós e o nosso amor a Deus. O seu único sacrifício foi a oferta de si mesmo.

S. Cirilo de Jerusalém, falando da unção do crisma no batismo dos catecúmenos, e que nós podemos falar da unção no dia da nossa ordenação, afirma: «Cristo foi ungido com o óleo espiritual da alegria, porque é autor da alegria espiritual; e vós fostes ungidos com o crisma, porque vos tornastes condiscípulos e participantes com Cristo». Cristo era a expressão corporal da alegria do Pai em toda a humanidade.

O óleo do crisma chama-se também «óleo de ação de graças. Este é o outro sentido do nosso sacerdócio: dar graças a Deus. Somos sacerdotes como membros de uma comunidade, o povo santo de Deus, e não como indivíduos isolados. Temos uma relação orgânica uns com os outros, constituímos o mesmo presbitério, somos um só corpo. O nosso sacerdócio está ao serviço do único sacerdócio de Cristo, que partilhamos como membros do seu corpo. Fazemos isto quando acompanhamos os fiéis, lhes incutimos coragem e força no seu caminhar como discípulos de Jesus, quando construímos comunhão.

Queridos sacerdotes: Faz-nos bem escutar e meditar as palavras que o Papa Francisco dirigiu aos sacerdotes da sua diocese no final do tempo pascal: «Como sacerdotes, filhos e membros de um povo sacerdotal, temos o dever de assumir a responsabilidade pelo futuro e de o projetar como irmãos. Coloquemos nas mãos feridas do Senhor, como oferta sagrada, a nossa fragilidade, a fragilidade de nosso povo, bem como a de toda a humanidade. O Senhor é Aquele que nos transforma, que se serve de nós como do pão, toma a nossa vida nas suas mãos, nos abençoa, nos parte e nos reparte e nos dá ao seu povo» (30-5-2020).

O óleo de ação de graças também foi derramado na nossa Diocese ao longo deste ano com o dom de dois novos sacerdotes, o padre Jorge Gonçalves e o Padre Pedro Oliveira, ordenados no verão passado, e dois diáconos, no início deste ano. É o mesmo óleo de ação de graças que pedimos seja derramado sobre a vida e o ministério do senhor Padres José Camões Rodrigues Sobral (19/4), António Costa Leite (15/8) e Joaquim Taveira da Fonseca (23/12) filho de D. Bosco, na celebração dos 50 anos de ordenação sacerdotal e os Padres Virgílio Maia (22/10) e José Carlos da Silva da Silva (22/10), Operário Diocesano, nos 25 anos de ordenação sacerdotal. Pedimos, igualmente, ao Senhor da Vida que acolha no seu Reino de misericórdia e perdão o senhor padre Manuel Cirne e os diáconos Fernando Reis e Eduardo Rodrigues. Lembramos, ainda, o senhor Padre Narciso Bessa que, embora fosse do presbitério do Porto, passou os últimos anos da sua vida entre nós e aqui foi sepultado.

 

3. Uma nova ressurreição

No último Conselho Presbiteral alguém afirmava que há um tempo antes da pandemia e um tempo depois da pandemia e que somos chamados a enfrentar os desafios que o presente e o futuro trazem à Igreja e a cada um de nós. Também não podemos esquecer que a nossa Diocese estava empenhada, após o recenseamento feito à prática dominical e da leitura pastoral dos números de participação na Eucaristia, em refletir e mudar muitas das nossas prioridades pastorais. Este trabalho, juntamente com o empenhamento na pastoral familiar e vocacional têm de continuar, sob pena de perdermos esta oportunidade.

Na mensagem de Páscoa deste ano, e tendo presente a humanidade e as dificuldades que a pandemia trouxe a todos nós, o Papa Francisco disse-nos: «Palavras como indiferença, egoísmo, divisão, esquecimento não são as que queremos ouvir neste tempo. Mais, queremos bani-las de todos os tempos! Aquelas parecem prevalecer quando em nós vencem o medo e a morte, isto é, quando não deixamos o Senhor Jesus vencer no nosso coração e na nossa vida. Ele, que já derrotou a morte abrindo-nos a senda da salvação eterna, dissipe as trevas da nossa pobre humanidade e introduza-nos no seu dia glorioso, que não conhece ocaso» (Mensagem Urbi et orbe, 12-4-2020).

Ao celebrarmos o Dia de Oração pela santificação dos sacerdotes não posso deixar de lembrar o retiro anual que vamos realizar para o nosso presbitério de 29 de junho a 3 de julho. Se queremos ser pastores para este tempo em mudança, não podemos descurar a vida espiritual e o encontro profundo com Deus, que deve acontecer nos exercícios espirituais. Peçamos ao Coração de Jesus que nos ensina a amar o nosso presbitério e a termos um coração cheio de misericórdia à semelhança de Cristo, o Bom pastor.

“Jesus, manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao vosso”.

 

Aveiro (Sé), 19-6-2020 – Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

+ António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro.


 

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