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TEMPO NOVO CARECE DE RENOVAÇÃO – Carta Pastoral de D. António Moiteiro

 

 TEMPO NOVO CARECE DE RENOVAÇÃO

 

1. O tempo que vivemos

 Ao longo dos tempos, fomos dando conta de que a sociedade se considerou autossuficiente, capaz de dominar tudo, dando primazia à ciência em relação a Deus, querendo construir um projeto de sociedade sem Deus; porém, o tempo presente a todos pede aprofundada reflexão e mudança de atitudes e de comportamentos.

A pandemia da covid-19, súbita e surpreendentemente, levou a sentirmo-nos ameaçados e fragilizados naquilo que nos é mais precioso: a vida humana. Repentinamente deparámo-nos confinados e isolados em nossas casas, privados do contacto direto da família e dos amigos, e impelidos a mudar de vida, mesmo que temporariamente, atingindo-nos a todos e em todo o mundo, sem exceção de classe social, económica ou religião.

A pandemia atingiu o mundo de forma intensa, desfez ou adiou projetos. No meio da perda, incerteza e sofrimento, percebemos que afinal há situações que não controlamos, despertando-nos para o aspeto da transitoriedade do mundo material. Foi, e continua a ser, foco de preocupação em todos os setores da vida humana. Afetou as comunidades cristãs de várias maneiras, incluindo o cancelamento do culto, missas e outros serviços paroquiais, peregrinações em torno de festas e festivais. De um momento para o outro, as atenções voltaram-se para o mundo digital, para nos mantermos em contacto uns com os outros.

O Papa Francisco, no dia 27 de março de 2020, na Praça de São Pedro vazia, expressou: “Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos”. O cenário ainda continua sombrio, mas a narrativa dos discípulos de Emaús dá-nos a certeza de que nas noites escuras da vida e da história o Senhor permanece connosco e caminha connosco (Lc 24, 13-35). Eis que num tempo que é novo, só mudando podemos transmitir o que não muda.

 

2. A fé não esmoreceu os cristãos

Foi grande a oscilação de sentimentos e de decisões. Fechar as igrejas foi uma medida de prudência civil, totalmente recomendável em função da saúde pública, mas apesar do fecho dos edifícios para evitar o contágio da doença, o culto a Deus não se interrompeu e continua. O próprio Jesus entendia a religião de tal maneira que, para Ele, a prioridade e o mais urgente era remediar o sofrimento de todos os tipos de pessoas doentes, afirmando que prefere a “misericórdia ao sacrifício” (Mt 9,13). A prioridade, para Jesus, era sempre aliviar e remediar o sofrimento dos enfermos, dos pobres, dos mais desamparados deste mundo. Isto mesmo foi cumprido na obediência às normas recomendadas e graças à dedicação dos profissionais de saúde e outros, que não se pouparam a esforços para cuidar.

A fé não esmoreceu os cristãos, porque o pânico e o medo não vêm de Deus. “Não tenham medo!” – disse Jesus muitas vezes. O sofrimento é, muitas vezes, um método que Deus utiliza para amadurecer a nossa fé. A igreja tem que ser o último reduto de esperança para o povo. Diz o Papa Francisco, na Lumen Fidei, que “a fé é um bem para todos, um bem comum: a sua luz não ilumina apenas o âmbito da Igreja, nem serve somente para construir uma cidade eterna no além, mas ajuda também a construir as nossas sociedades de modo que caminhem para um futuro de esperança” (LF 51).

Uma crise é ou deve ser sempre uma oportunidade para ir ao essencial da vida. E é possível responder a uma crise com seriedade e força de vontade, mantendo um senso interior de calma e de esperança. Entre os muitos sinais exteriores e interiores, não é esquecido o dia 25 de março de 2020, dia em que após a recitação do terço em Fátima, se procedeu à renovação da consagração de Portugal ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, cerimónia na qual pudemos estar presentes espiritualmente!

A Igreja soube escutar e ser criativa para que a comunhão não se quebrasse e continuamente apelar aos cristãos a fazer uma “comunhão espiritual”. Os sacerdotes arranjaram mil maneiras de estar perto do povo. Há que conservar a fé e procurar irradiá-la, porque a Igreja continua a alimentar os seus filhos através da oração, da Palavra, das celebrações (tantas vezes que em tempo de confinamento foram transmitidas pelos meios de comunicação mais diversos, assim como a catequese), a prestar assistência aos pobres e necessitados pela caridade e criando redes de solidariedade. É de louvar todo o empenho criativo e ajuda que as paróquias revelaram – a quem endereço o meu reconhecimento e a minha gratidão.

São momentos muito difíceis e nem todos estão preparados para lidar com esta crise com o equilíbrio necessário. O propósito da vida, as dificuldades encontradas e a morte estão entre os questionamentos que encontram sentido na fé. “E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28, 20). Estas palavras de Jesus, dirigidas aos discípulos, dão-nos a certeza de que não estamos sozinhos diante dos problemas, desilusões, sofrimentos, crises, pandemias, etc.

 

3. Cristo morto e ressuscitado é a grande razão da nossa esperança

Cristo morto e ressuscitado é a grande razão da nossa esperança, e “devemos estar sempre prontos a dar razão dela a todo aquele que no-la pedir” (1Pd 3,15). N’Ele, e graças a Ele, também a vida social pode ser redescoberta, mesmo com todas as suas contradições e ambiguidades, como lugar de vida e de esperança, enquanto sinal de uma graça que a todos é oferecida e que, enquanto Senhor da vida, apela às formas mais altas e abrangentes de partilha.

A Igreja reúne-se em cada domingo para celebrar a memória da morte e ressurreição do Senhor, a Eucaristia. É encontrando-se com os irmãos, celebrando, cantando, rezando, ouvindo a Palavra de Deus e alimentando-se da Eucaristia que se mantém o coração aquecido, no amor do Senhor, e que se renova a disposição de ser dom na vida da sociedade. Como discípulos de Cristo ressuscitado, temos que nos consciencializar profundamente do anúncio e testemunho do amor de Deus. Cristo venceu a morte!

Suspensa na cruz, no silêncio e na derrota aparente, a força do amor de Cristo estava presente em sua Mãe, que o contemplava em silêncio, operante nas mulheres que o velavam, e na coragem de José de Arimateia e de Nicodemos, que reivindicaram o corpo de Jesus e lhe deram uma sepultura digna. Após a Ressurreição, este poder e esta coragem tornaram-se característicos de todos os seguidores de Jesus, anunciando ao mundo inteiro a vitória de Cristo sobre o mal. A morte não tem a palavra final, quando abrimos espaço à verdadeira esperança. Iluminados por Cristo ressuscitado, que nenhum vírus O poderá derrotar, seremos reflexo dessa boa nova no mundo de hoje.

 

4. Caminhos para revigorar as comunidades

Têm sido inúmeras as iniciativas promovidas por dioceses, paróquias, ordens e congregações religiosas, movimentos eclesiais, instituições de assistência, além de iniciativas individuais e familiares, em favor das pessoas atingidas direta ou indiretamente pela pandemia. Contudo, é necessário continuar a garantir este esforço e dinamismo da fraternidade para com o próximo.

Neste momento histórico, não podemos pensar no “fez-se sempre assim”. Há um dinamismo pastoral que importa continuar, de modo pró-ativo e criativo. Somos convidados a redescobrir e aprofundar o valor da comunhão que une todos os membros da Igreja, a qual desde as suas origens, apesar das falhas de muitos dos seus membros, nunca deixou de trabalhar por aliviar, defender e libertar o próximo nas suas várias necessidades.

“Uma sociedade que, em todos os níveis, quer intencionalmente estar ao serviço do ser humano é a que se propõe como meta prioritária o bem comum, enquanto bem de todos os homens e do homem todo” (cf. CCE 1912). Que a luz da fé ilumine os caminhos a serem trilhados durante e no pós-pandemia. É necessário colocar as estruturas ao serviço do próximo e criar parcerias que possam ajudar as pessoas a serem protagonistas da sua própria história. Para tal, é preciso envolver poderes públicos, mundo empresarial, meios de comunicação, instituições educativas, governamentais e outras, cada cidadão. Não podemos continuar a pensar na “cultura do descarte”, como se nada tivesse a ver connosco.

Tendo presente o Plano Pastoral Diocesano para o ano em curso, não tendo sido possível concluir o ano dedicado à vocação da família: com o olhar fixo em Jesus, continuaremos a envidar esforços para aprofundar o tema. Perante o contexto em que vivemos, cada vez mais é necessário que a família se torne naquilo que é e assuma a sua missão. Neste sentido, urge organizar a pastoral familiar nos arciprestados e paróquias (equipa arciprestal e equipa paroquial ou interparoquial), caminhando com a equipa diocesana de pastoral familiar. Relembro que a vida em casal é uma participação na obra fecunda de Deus, e cada um é para o outro uma permanente provocação do Espírito. Os dois são entre si reflexos do amor divino, que conforta com a palavra, o olhar, a ajuda, a carícia, o abraço… Os casais cristãos são chamados a viver segundo a sua vocação de imagem de Deus, que é um chamamento e um compromisso para toda a vida, através da vivência do amor mútuo, da partilha e da comunhão entre si, com os irmãos e com Deus. Sem perder a alegria, a audácia e a dedicação cheia de esperança, é fundamental promover iniciativas conducentes a valorizar a família, ajudando todos os casais a serem Igreja na sua conjugalidade.

Todos estamos a sofrer com esta pandemia, mas as camadas sociais vulneráveis são as que mais sofrem: idosos nos lares mais fragilizados, aumento do número de pessoas em situação de miséria, perda de emprego, falência de empresas, ausência de condições para se precaver contra o contágio. Urge, sem pretensiosismos, prestar assistência aos mais necessitados das nossas comunidades: idosos, viúvas, isolados, desempregados, trabalhadores precários, vendedores cuja atividade foi seriamente prejudicada, aqueles cujos recursos não são suficientes para a sua subsistência… Os momentos de sofrimento e de luto são os que mais abalam a esperança e que, portanto, mais acompanhamento e proximidade exigem. A Igreja continuará a ser interpelada no seu cuidado pelos últimos e frágeis da nossa sociedade. Sabemos que não podemos cuidar de todos, mas podemos cuidar de quem está perto. É preciso incentivar as comunidades ao cuidado com a própria vida e com a vida do próximo. “Será com os descartados desta humanidade vulnerável que, no fim dos tempos, o Senhor plasmará a sua última obra de arte. Pois, o que é que resta? O que é que tem valor na vida? Quais são as riquezas que não desaparecem? Seguramente duas: o Senhor e o próximo. Estas duas riquezas não desaparecem” (G et Ex 61).

Instalou-se uma crise económica, social e sanitária. Com isto podem aflorar doenças psicológicas, distúrbios, desequilíbrios afetivos e emocionais, pelo que devemos estar atentos e solícitos com estas realidades. Para além da necessidade de apoio espiritual, os problemas financeiros também começam a afetar a vida das paróquias. É tempo de manifestarmos concretamente a nossa caridade através da ajuda entre paróquias que têm melhores condições económicas e aquelas menos favorecidas, entre irmãos que têm condições melhores e os que não têm. Há que partilhar, não só o que sobra, mas também o que é necessário.

Depois de um tempo que ficará marcado na memória de todos, em que se experimenta a contingência da vida, emerge a questão do sentido da vida. Nesta busca de sentido desponta, por vezes, a procura do religioso. Porque somos pessoas a quem a vida interroga contínua e incessantemente, a pandemia pode ser um elemento despertador da dimensão religiosa, da busca de Deus, pelo que precisamos de estar atentos a estas situações e ajudar as pessoas a acolher o fundamento da nossa fé, isto é, Jesus Cristo. Partilho convosco alguns desafios que todos devemos ter presentes neste início de ano pastoral.

 

1º O cumprimento das normas emanadas pela Conferência Episcopal e pela Direção Geral de Saúde para estes tempos de pandemia devem ser cumpridas por todos e por cada uma das nossas comunidades paroquiais. Devemos continuar atentos e vigilantes no que diz respeito ao uso da máscara e à desinfeção dos espaços sagrados e de formação.

2º Não basta que os discípulos de Cristo rezem individualmente e recordem interiormente, no segredo do coração, a morte e a ressurreição de Cristo. A celebração da fé em comunidade é fundamental para o ser cristão. Em comunidade crescemos na fé e não tenhamos medo, mesmo com algum sacrifício, de participar na Eucaristia dominical com os outros membros da comunidade cristã.

3º A catequese deve ter início algumas semanas após a abertura das aulas. O regresso às aulas pode ajudar-nos no regresso às atividades catequéticas e de formação. A catequese presencial deve ser a forma normal de organização da catequese. Onde não for possível o ritmo semanal por falta de espaços onde se possam manter as normas sanitárias, proponho que alternemos a catequese com a Eucaristia: uma semana a catequese e na outra a Eucaristia. Os pais devem participar na Eucaristia dos filhos e serem chamados a fazer com os filhos uma pequena síntese daquilo que foi a Palavra de Deus/catequese na Eucaristia. Não será este o tempo ideal para implementarmos a catequese familiar?

4º A celebração dos sacramentos deve inserir-se no ritmo de vida das comunidades cristãs. O adiamento das celebrações da catequese não ajuda ao crescimento da fé e a celebração de outros sacramentos – crisma, confissão, matrimónio – deve adaptar-se ao ritmo “anormal” que vivemos. A vida cristã deve inserir-se no “anormal” do quotidiano que estamos a viver.

5º Sinto o dever de pedir aos sacerdotes que vivam a comunhão em presbitério, dando as mãos na renovação das comunidades cristãs, sem descurar o acompanhamento dos sacerdotes e diáconos em situações de fragilidade. Cada vez mais se torna necessário dar testemunho na unidade e no diálogo, pôr em comum os projetos, as dificuldades, as necessidades espirituais e materiais.

6º Por fim, proponho que o início do ano pastoral seja feito em todas as paróquias no primeiro fim-de-semana de outubro, nas Eucaristias dos dias três e quatro, através de um gesto que será proposto a toda a Diocese.

 

Não podemos efetivamente voltar aonde estávamos. “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34). Uma das grandes forças da Igreja ao longo dos séculos tem sido justamente esta capacidade de renovação e exercício da misericórdia. Continuemos prudentes, vigilantes e atuantes. Que em cada um de nós habite sempre a jubilosa certeza de que o Senhor caminha connosco! E que a Família de Nazaré nos acompanhe nesta caminhada.

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Aveiro, 08 de setembro de 2020

António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro


 

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