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XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano A

Breve comentário

O Evangelho de Mateus tem apresentado as controvérsias de Jesus com os diversos grupos religiosos, particularmente os chefes dos sacerdotes e anciãos do povo. O texto deste domingo apresenta-nos dois grupos diferentes, fariseus e herodianos, que passam ao ataque, dirigindo-se a Jesus com uma pergunta capciosa: «É lícito ou não dar o tributo a César?»

A questão do tributo ao imperador envolve um aspecto político e um aspecto religioso. O pagamento do tributo que cada judeu devia pagar é um sinal de submissão ao poder estrangeiro. Mas isto implica um problema religioso porque o imperador de Roma é um rei pagão que, considerando-se a si mesmo «divino», reivindica uma forma de reconhecimento e de «culto» que aos olhos dos judeus é idolátrico e perverso. A recusa da dominação romana, sendo geral, era levada ao extremo pelos revolucionários fanáticos chamados «zelotes» que optavam pela luta armada, em estilo de guerrilha, e continuamente organizavam investidas contra os cobradores de impostos e cometiam assassínios políticos

Os representantes dos dois grupos judaicos que colocam a questão a Jesus são os porta-vozes de duas posições que se diferenciam da posição extrema dos zelotes: os fariseus, sob um ponto de vista religioso, têm dificuldade em aceitar o poder romano de ocupação, mas não propõem a revolta armada como os revolucionários zelotes; os herodianos, que apoiam as autoridades locais, aceitam de bom grado a presença romana e contestam a luta armada dos fanáticos religiosos. A pergunta posta a Jesus revela os escrúpulos religiosos dos fariseus mas, a mesmo tempo, revela a sua intenção, juntamente com os herodianos, de envolver Jesus na questão pró ou contra o poder romano de ocupação. O próprio evangelista alerta o leitor: os seus interlocutores «queriam apanhá-lo em falta na palavra», isto é, queriam comprometê-lo de qualquer maneira. Se fosse a favor do tributo, era acusado de colaboracionista e de ir contra o Deus de Israel, Yahweh; se fosse contra o tributo, era acusado de revolucionário, inimigo do império romano.

Jesus escapa à armadilha que lhe estendem fazendo-lhes uma outra pergunta sobre um facto que parece banal, mas que é evidente. Para isso, Jesus pede que lhe mostrem uma moeda do tributo, o que significa que ele não tem nenhuma. Perante o «denário» de prata, unidade do sistema monetário romano, com o qual se paga o tributo ao imperador, ele pergunta: «De quem é esta imagem e a inscrição?». As moedas cunhadas ao tempo de Tibério, imperador desde o ano 14 até 37 d.C., trazem a imagem do imperador (César) e a inscrição: Tiberius Caesar divi Augusti filius Augustus («Tibério César, filho augusto do divino Augusto») e, no reverso, Pontifex Maximus («Sumo Pontífice»).

A conclusão que Jesus tira parece óbvia. Os herodianos estavam de acordo em que se devia pagar as taxas ao imperador. Mas, por isso mesmo, eram olhados como colaboracionistas. Os fariseus estavam de acordo em reconhecer o princípio de fidelidade a Deus, único Senhor. Mas os zelotes, em nome deste princípio pregavam a necessidade de recusar o tributo e de combater o poder romano.

A originalidade de Jesus está em conjugar a escolha pragmática de pagar as taxas a César com a opção religiosa da fidelidade a Deus. O que pertence a César está bem definido: o denário, símbolo do poder político e administrativo, que tem a «imagem» de César. O que pertence a Deus pode ser determinado a partir do conceito de Deus que todo o Evangelho oferece tendo como pano de fundo a tradição bíblica. «Escuta, Israel, o Senhor é o nosso Deus, o Senhor é único…» (Dt 6,4-5; Mt 22,37). A íntegra e total entrega a Deus, único Senhor, não admite compromissos e partilha com qualquer outro «senhor» ou poder concorrente. O ser humano, na medida em que é «imagem e semelhança» de Deus (Gn 1,26-27), só a Deus pertence e, por isso, deve ser restituído a Deus.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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