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INSEPARÁVEL O AMOR A DEUS E AO PRÓXIMO 

Georgino Rocha

A esplanada do Templo de Jerusalém é palco de novo episódio questionador. Os responsáveis dos grupos influentes mexem-se com grande persistência e à-vontade. Aproveitam-se de questões progressivamente mais delicadas e comprometedoras. Depois da política, vem a religião. Agora é o sistema e a hierarquia das verdades que se buscam. Assunto sério, se não houvesse uma segunda intenção: a de experimentar Jesus, a de ver como se posiciona face ao complicado conjunto legal – os peritos apontam 613 mandamentos –, a de saber a qual deles dá prioridade, que parecer tem sobre o núcleo central da vida dos judeus fiéis à Lei recebida de Moisés. Mt 22, 34-40.

Os novos contendores pertencem aos fariseus, alegres por saberem que os saduceus se tinham remetido ao silêncio, após a disputa sobre a ressurreição. Jesus situa-se ao nível da pergunta provocante. Ao desafio responde com uma oração conhecida da tradição judaica e que devia ser recitada diariamente. Não podia ser mais certeiro. Amar o Senhor com todo o coração, com toda a alma, com todo o espírito. E não fica por aqui. Acrescenta uma outra prescrição que faz parte do património religioso comum: “Ama o teu próximo como a ti mesmo” ( Lv 19, 18), esclarecendo que o segundo mandamento é semelhante ao primeiro. E sereno, aguarda a reacção que não chega.

Ensina o Papa Francisco na Fratelli Tutti: “As pessoas podem desenvolver algumas atitudes que apresentam como valores morais: fortaleza, sobriedade, laboriosidade e outras virtudes. Mas, para orientar adequadamente os atos das várias virtudes morais, é necessário considerar também a medida em que eles realizam um dinamismo de abertura e união para com outras pessoas. Este dinamismo é a caridade, que Deus infunde. Caso contrário, talvez tenhamos só uma aparência de virtudes, que serão incapazes de construir a vida em comum”. 91.

É difícil captar o impacto desta resposta nos piedosos fariseus e em todos os que “mergulham” no seu significado profundo. Eles viviam numa sociedade de desiguais, em que a discriminação estava institucionalizada. Como podiam entrar na lógica de Jesus que unifica no amor todos os mandamentos e preceitos e apresenta uma consequente escala de valores?! Hoje, as “coisas” não diferem muito, mesmo que não conste oficialmente, mas a realidade impõe-se e os factos “falam” por si.

O centro da vida humana está no amor. Ocupar este centro com outros valores e interesses é usurpação que desumaniza a pessoa e fragmenta a sociedade. Quando tal acontece, pode ser verdadeira idolatria. E não faltam factos e situações a evidenciar que o padrão de vida actual predominante “gira” à volta do individualismo, do hedonismo e de tantos outros pólos de atracção mobilizadora e exploradora do melhor que há em cada um de nós. O próprio amor vê-se reduzido, com frequência, à sua dimensão egoísta, interesseira, erótica e sensual.

A resposta de Jesus é clara e envolve no amor toda a pessoa na sua tríplice dimensão: para com Deus, para com os outros, para consigo mesmo. Envolve o cuidado da natureza e de todas as vulnerabilidades.  Só na relação de amor cada pessoa encontra o sentido autêntico da vida. É um amor integral e universal, inclusivo e assertivo, capaz de assumir as limitações e sofrimentos, dando-lhes um valor sublime. É um amor de doação que faz de cada gesto um reforço ao crescimento pessoal e uma expressão de solidariedade fraterna. Os pais, quando o sabem ser, o bombeiro que faz seu o lema “vida pela vida”, os voluntários de todas as causas nobres, os gestores do bem comum com espírito de serviço, os missionários que arriscam tudo pelo povo a que são enviados.

Continua o Papa Francisco: “Sendo assim o amor implica algo mais do que uma série de ações benéficas. As ações derivam duma união que propende cada vez mais para o outro, considerando-o precioso, digno, aprazível e bom, independentemente das aparências físicas ou morais. O amor ao outro por ser quem é, impele-nos a procurar o melhor para a sua vida. Só cultivando esta forma de nos relacionarmos é que tornaremos possível aquela amizade social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos”. 94.

Não se pode amar e ficar indiferente face a tantas situações de desamor e de desumanidade; a tantos rostos de miséria extrema vítimas de exclusão ostensiva; a tantos famintos de dignidade que lhes pertence por natureza – somos semelhança de Deus pela criação e por outras benfeitorias; a tantos esquecidos da história, sobretudo os que doaram a sua vida até ao martírio por uma causa nobre e justa, a tantas vítimas da pandemia que mostra  a nossa fragilidade comum e a dos critérios em que se tem movido a sociedade e para a qual se busca afanosamente uma alternativa integral.


 

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