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Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei e Senhor do Universo – Ano A

Breve comentário

O texto deste domingo é a continuação lógica da parábola das virgens (25,1-13), que termina com a advertência de Jesus: «Vigiai… porque não sabeis o dia nem a hora», e da parábola dos talentos. Estas parábolas iam já apontando para um final, que podia ser de entrada no «banquete» ou na «alegria» ou de auto-exclusão destas realidades finais.

O texto de hoje apresenta o quadro grandioso do Filho do Homem que facilmente identificamos com a pessoa de Jesus. Ele vem como juiz divino e com todo o poder real anunciado já no livro de Daniel (7,14). Por isso, senta-se no trono como Rei e senhor de todos os povos.

Aquilo, a que vulgarmente chamamos «Juízo final», de facto apresenta-se mais como a proclamação duma sentença que mais não é do que a constatação da atitude que cada um teve durante a vida. Assim, logo à partida, é feita uma separação radical: benditos para um lado e malditos para o outro, colhendo a imagem na vida pastoril. Em noites mais frias o pastor separa as ovelhas dos cabritos, pois as ovelhas, com a sua lã mais espessa, podem estar ao frio, enquanto é necessário resguardar os cabritos que não têm protecção natural.

Os primeiros, chamados «benditos de meu Pai», são convidados a entrar na posse do reino para eles preparado pela iniciativa soberana e gratuita de Deus. Estes benditos do Pai recebem em herança o reino porque partilharam o destino e a condição do Filho. Os outros são chamados «malditos» e não têm lugar no reino.

A salvação é sempre um dom de Deus concedido àqueles que a aceitam. A condenação é um produto humano, isto é, a consequência natural da não aceitação da salvação oferecida por Deus. É na vida do dia-a-dia que cada um, pela sua forma de viver consigo mesmo, com os outros e com Deus, vai aceitando ou rejeitando aquilo que Deus vai oferecendo para ser vivido em plenitude um dia.

O Rei apresenta-se como aquele que teve fome e sede, peregrino e sem roupa, doente e prisioneiro. O juiz glorioso, a quem os interlocutores chamam «Senhor» tinha o rosto do indigente, do indefeso e do necessitado.

O confronto decisivo entre os homens e Filho do Homem não acontece com gestos extraordinários e heróicos mas na simplicidade dos encontros humanos, com os gestos mais simples que a tradição bíblica já recomendava há séculos (Is 58,7; Ez 18,7; Job 31,32; Tb 4,16). Qualquer homem justo tinha a obrigação interior de se compadecer e ir ao encontro daqueles que, no momento concreto, precisavam dele.

No evangelho de Mateus há uma insistência no amor para com o próximo e na realização na vontade do Pai. Ora, a vontade do Pai, revelada e realizada por Jesus, resume-se no amor gratuito e activo para com os pobres, doentes e necessitados. No entanto, o critério decisivo para a salvação ou ruína não estásimplesmente na prática do amor para com os necessitados. A novidade evangélica está na identificação que Jesus faz com estes: «Sempre que (não) fizestes a um destes (meus irmãos) mais pequeninos (não) o fizestes a mim».

Mateus propõe um exemplo como viver hoje a espera vigilante e responsável da vinda do Filho do Homem. O teste definitivo da verdade e fidelidade de homens, condição essencial para a salvação, joga-se hoje nas relações quotidianas de acolhimento ou rejeição do homem necessitado, sinal objectivo da presença humilde e escondida do Filho do Homem.

Com este texto, o último da actividade pública de Jesus antes de se iniciar o drama da paixão, Mateus funde numa maravilhosa síntese os dois polos à volta dos quais gira a sua mensagem evangélica: Cristo e o amor activo, síntese da vontade de Deus. No amor gratuito e universal para com os mais pequenos vive-se aquela relação vital de fé em Cristo, o Filho de Deus e Senhor, que no final se transformará em plena comunhão salvífica.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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