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Festa da Sagrada Família – Ano B

Breve comentário

Depois do rito da circuncisão e da imposição do nome (Lc 1,21), o evangelista apresenta-nos uma família judaica no cumprimento normal da Lei. Mas, por trás deste gesto comum, é possível encontrar um sentido mais profundo.

Segundo a velha lei judaica, todo o primogénito é sagrado e, por conseguinte, deve ser entregue a Deus ou sacrificado. Mas este sacrifício, há muito proibido, é substituído por um animal puro. Enquanto descreve esta cena, Lucas está a pensar que Jesus, filho primogénito de Maria, é primogénito de Deus e, por isso sublinha que ele é apresentado ao Pai. Não encontramos qualquer alusão ao resgate que devia ser feito e isto sugeriria que Jesus não foi «resgatado»: o sacrifício oferecido era para a purificação de Maria. Jesus não devia ser resgatado porque seria morto com uma morte sacrificial. O sentido mais profundo só se compreende à luz do Calvário, onde Jesus é a vítima sacrificada que se «entrega» ao Pai.

Todos esperam. Ana, a velha profetisa, da insignificante tribo de Aser, dedica a sua vida à espera que Deus venha finalmente redimir Jerusalém, tal como mais tarde os discípulos de Emaús. Simeão esperará os últimos dias da sua vida para ver finalmente a consolação de Israel. Simeão reconhece no menino trazido ao templo aquele que o Espírito Santo (três vezes mencionado) lhe tinha descrito como o Cristo do Senhor. Também Ana reconhece nele o libertador, o redentor. Por isso dá graças porque, em Jesus, Deus intervirá para libertar o seu Povo.

A promessa feita pelo Espírito Santo é que Simeão não veria a morte sem ver o Ungido do Senhor. Os pais que vieram ao templo trouxeram o menino Jesus; Simeão tomou-o nos seus braços. E é por este menino de nome Jesus que ele louva o Senhor. A Salvação de Deus que Simeão é uma pessoa, é Jesus. Aquele que foi anunciado como Salvador é a própria salvação incarnada.

A salvação prometida a Simeão não é reservada ao seu povo, é destinada a todos os povos, às nações tal como a Israel. Em Jesus, o Deus que se tinha revelado a um povo particular, será manifestado a todos. A glória de Israel estará no facto de ser caminho pelo qual a salvação chegou aos confins da terra, de ter dado ao mundo o Salvador de todos os homens.

As palavras do cântico de Simeão sintetizam a perspectiva do evangelista expressa em toda a obra: Jesus está no centro da história da salvação, ponto de chegada das promessas do Antigo Testamento e ponto de partida duma salvação destinada a estender-se a todas as nações chamadas a formar o único povo de Deus e que vai ser o tema central do livro dos Actos já antecipado no Evangelho.

Mas aquele Jesus Salvador, referido como Luz das nações e glória de Israel, é apresentado agora com uma sombra nas palavras que Simeão dirige a Maria. Em Is 7,14, no livro do Emanuel, a maternidade da virgem foi o sinal, não pedido por Acaz mas apresentado por Deus, que se tornará «pedra de tropeço e rocha de escândalo para as duas casas de Israel… muitos tropeçarão nelas» (Is 8,14ss).

Jesus vai ser um sinal de contradição na medida em que alguns dos seus contemporâneos o aceitarão, mas muitos, sobre quem recai o juízo de Deus, estarão fechados à salvação por ele oferecida e que ele encarna. Desta forma se revelarão os pensamentos íntimos de muitos corações.

Ao longo do evangelho este tema vai ser desenvolvido com o sinal de Jonas e do Filho do Homem para esta geração (11,30) e com um juízo que vem trazer a divisão e não a paz sobre a terra (12,51). Embora de forma velada, está aqui presente a experiência da Igreja: Cristo é a pedra de construção que se torna pedra angular (20,17) para aqueles que creem e pedra de tropeço para muitos israelitas.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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