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Festa do Baptismo do Senhor – Ano B

Breve comentário

O breve texto que Marcos dedica ao Baptismo de Jesus segue-se imediatamente à pregação de João Baptista. O reino de Deus estava próximo e, com a sua vinda, o perdão dos pecados. O baptismo pregado e realizado por João era um rito de iniciação duma nova comunidade («toda a região…») que, arrependida dos seus pecados, esperava o Reino concretizado no mais forte que ele. É com Jesus que vem o Espírito Santo, o dom dos últimos tempos, prometido pelo profeta Ezequiel (36,25-29). João, consciente do seu papel preparador e orientador, acredita que Aquele a quem anuncia comunicará essa força.

O texto que se segue, na sua brevidade é profundamente teológico e merece especial atenção. Quem se aproximava do Baptista para ser baptizado, descendo nas águas do Jordão, «confessava os próprios pecados» em voz alta (Mc 1,5). Submeter-se àquele rito equivalia a declarar-se necessitado de conversão e de perdão. Marcos regista impassível o acontecimento de humilhação. Fá-lo, todavia, com um verbo: «foi baptizado», enquanto reserva o que se segue para descrever a gloriosa teofania (vv. 10-11).

E de súbito, ao sair da água … – Marcos quer fazer entender ao leitor que Jesus, ao contrário dos outros, não ficou na água a confessar os seus pecados. Enquanto saía da água, Jesus viu os céus abertos e o Espírito descer sobre ele em forma de pomba. A visão é reservada só a ele; Marcos não fala de testemunhas.

Viu os céus abrindo-se – Jesus viu no acto de se abrirem. Segundo o gosto semítico, o autor, que é judeu, fala de céus no plural. Entre as diversas passagens veterotestamentárias, algo próximo do nosso é o texto do profeta Ezequiel: «Abriram-se os céus (plural) e vi visões divinas» (Ez 1,1). É a visão que consagra Ezequiel como profeta de Yahweh. Como Ezequiel, e bastante mais do que ele, Jesus é admitido à visão dos segredos de Deus; é-lhe revelada a predilecção que o Omnipotente tem por ele, predilecção do Pai pelo filho único; e recebe uma pessoalíssima comunicação do Espírito. Por esta razão ele é investido do carisma profético de modo extraordinário, que não tem paralelo em nenhum profeta do Antigo Testamento.

E o Espírito descendo sobre ele como uma pomba – Está ainda em questão apenas Jesus. O autor não sugere a hipótese que outros tenham visto, nem João. A atenção de Marcos está fixa apenas sobre Jesus, para o qual é reservada a visão, assim como para ele é enviado o Espírito.

«Pomba» é o termo que ocorre no Cântico dos Cânticos (1,15; 2,10.13.14; 4,1; 5,2.12; 6,9). A conhecida narração do dilúvio falava da pomba como de um animal familiar a Noé (Gn 8,8-12). Também poderá estar presente outra recordação bíblica: Gn 1,2: «E o espírito de Deus pairava sobre as águas». O termo grego pneuma traduzia aí o hebraico ruah, que significa «vento», «sopro vital», mas também «espírito» (Santo). O Espírito de Deus pairava sobre as águas primordiais para dar início à criação e à vida: um início novo, uma nova criação se actuava também no Jordão.

O Espírito de Deus era um dom concedido ao Servo de Yahweh (Is 42,1). Era um dom que a teologia judaica esperava para o Messias. Sobre Jesus desce o Espírito de Deus, aquele Espírito que se encontrava junto de Deus no início da criação, que tinha estado nos reis e profetas, prometido ao Servo de Yahweh e ao Messias. Desce sobre ele como sobre pessoa familiar, amiga.

E veio uma voz dos céus: ‘Tu és o meu Filho predilecto: em ti pus o meu enlevo. Na narração de Marcos esta voz proveniente dos céus abertos, depois que desceu o Espírito Santo, dirige-se pessoalmente a Jesus para lhe declarar o amor de predilecção que o Altíssimo nutre por ele.

Se Marcos tem no pensamento um texto, este é provavelmente Gn 22, onde o apelativo predilecto/unigénito é dito repetidamente de Isaac. É evidente que o termo exprime antes de mais a ideia dum amor paterno, terno, sem rival. No Deutero Isaías a predilecção de Yahweh pelo Servo era expressa com o mesmo tom de doçura (Is 42,1).

Num formidável encontro de afecto, Jesus é reconhecido por Deus não só como Messias davídico (alusão ao Sl 2) e Servo de Yahweh (alusão a Is 42) mas, bem mais, como Filho Único. Enquanto ele se submete em silêncio ao rito dos pecadores, Yahweh lhe atesta um amor sem comparação. Ele pertence a Deus; para ele é o amor de Deus; de Deus lhe é dirigida a palavra mais querida e agradável que um pai pode dirigir ao filho.

Em ti pus o meu enlevo – A referência aos cantos do Servo de Yahweh, apenas acenada no adjectivo «predilecto», torna-se agora explícita. Do Servo sofredor o Deutero Isaías dizia: «Eis o meu servo que eu sustenho, o meu eleito em quem pus as minhas complacências. Eu pus o meu espírito sobre ele» (Is 42,1). Na passagem profética, Deus garantia ao Servo o seu sustento e o dom do Espírito; proclamava-o seu eleito e declarava comprazer-se nele. A afinidade com o texto de Marcos é grande e evidente. Descendo nas águas para o rito do perdão, Jesus tomou sobre os ombros a parte do Servo; o Pai confirma-o solenemente.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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