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XXV Domingo do Tempo Comum – Ano B

Breve comentário

            Este texto do evangelho coloca-se depois da transfiguração de Jesus sobre o monte Tabor e depois de o próprio Jesus ter curado uma criança possuída por um espírito mudo que os seus discípulos não tinham conseguido expulsar. Depois deste milagre, o grupo põe a caminho do norte, em direcção a Cafarnaum, atravessando a Galileia. Jesus não quer que alguém o saiba porque está quase para partir para Jerusalém, onde encontrará a morte e, por isso, deve continuar a ensinar os seus discípulos e prepará-los para este acontecimento.

            O ensino começa, uma vez mais, com um anúncio da paixão, na linha do primeiro (8,31) que foi proclamado no Domingo passado. A linguagem é diferente, mas a mensagem é a mesma. Embora não seja dito pelo evangelista, transparece a atitude de tranquilidade de Jesus ao indicar qual a sua missão e o caminho que deve percorrer por vontade do Pai.

            As palavras que Jesus usa são tiradas das profecias de Isaías a respeito do Servo Sofredor. A frase é enigmática, a começar pela expressão «Filho do Homem» que Jesus gosta de usar para indicar a si mesmo nos evangelhos e se refere a um homem misterioso, enviado por Deus, de que se fala no livro de Daniel (7,13). Porém, a nota fundamental deste 2º anúncio está na frase «será entregue nas mãos dos homens», numa linguagem verbal passiva que tem como sujeito o próprio Deus: «Deus vai entregar». Toda a iniciativa, toda a acção está nas mãos de Deus.

Tal como Pedro não compreendeu o 1º anúncio, agora é todo o grupo que não compreende, ou melhor, não quer compreender, apesar da clareza com que Jesus fala. Recusam-se a aceitar o projecto de Deus para o Messias, que deve passar pelo sofrimento e pela morte. Não comentam as palavras de Jesus, não fazem objecções, lembrando-se da censura de Jesus a Pedro, mas discordam completamente no seu íntimo.

Porque o projecto futuro dos discípulos é de glória, de poder, num reino que só existe na cabeça deles, passam o tempo a estabelecer as hierarquias entre eles, nunca estando de acordo acerca de quem seria o mais importante. Esta discussão insere-se perfeitamente na lógica dos judeus da época, com os seus esquemas bem definidos de hierarquias, na sociedade, nos banquetes, nas sinagogas. Sendo assim, no reino do Messias eles, que tinham sido escolhidos por Jesus, iriam ter a predominância. Mas qual a ordem entre eles? Quem era o primeiro?

«Que discutíeis pelo caminho?». Agora em casa, provavelmente de Pedro, Jesus tem oportunidade de, serenamente, continuar a ensinar.

            «Sentando-se, chamou os Doze e disse-lhes…». O acto de sentar-se e de chamar os Doze parece não ter sentido, visto encontrarem-se já em casa. Porém, é desta forma que Marcos quer sublinhar a solenidade do momento e a atitude de Jesus como verdadeiro mestre. Era assim que o judaísmo em geral, e mais tarde o rabinismo, apresentava as sentenças dos rabis: «Sentou-se e disse».

A lição de Jesus é esclarecedora: na nova comunidade o primeiro lugar é para aquele que serve. Quando todos estiverem ao serviço uns dos outros, então estarão ao mesmo nível, todos em primeiro lugar. E este serviço deve ser prestado aos mais pequenos, aqui representados numa criança, sujeito sem direitos nem lugar na comunidade judaica enquanto aos 13 anos não se tornasse membro efectivo do Povo de Deus pela cerimónia do bar mitzvah.

Para não haver dúvidas, Jesus apresenta-se, a si mesmo e ao Pai, como identificados com os mais pequenos e no serviço a eles prestado.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


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