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VIGÍLIA PASCAL

Chegados ao fim do tríduo pascal, podemos exclamar com alegria: «ó noite verdadeiramente ditosa, em que se unem o céu e a terra, o humano e o divino» (Precónio pascal). Nesta hora, deve invadir-nos a alegria e a gratidão.

A longa liturgia da Palavra desta noite da Vigília Pascal remete-nos para os momentos mais importantes da Revelação e reconhecemos a pedagogia de Deus, que nos vai conduzindo através da história como seu povo. Contemplámos a obra criadora de Deus e descobrimos que o ser humano é imagem Sua e cuidador da criação; renovámos a fé no Deus de Abraão, o pai dos crentes; atravessámos o mar Vermelho e celebrámos a Páscoa, imolando o cordeiro pascal; com os profetas recordámos que a nossa vida é feita de sim e não, de generosidade e de fracasso, de misericórdia e de pecado. O segredo desta vida está, tal como nas mulheres do Evangelho de S. Lucas, na contemplação de Cristo vivo e ressuscitado.

No primeiro dia da semana, de madrugada, as mulheres vão ao sepulcro. Encontram a pedra da entrada removida e afirmam que está vazio. No meio da confusão, ao não encontrarem o corpo de Jesus, aparecem dois homens com vestes refulgentes.

Na sua mensagem expressam a ressurreição em termos de morte – vida. Perguntam: “Porque procurais entre os mortos Aquele que está vivo?”

Os discípulos de Emaús vão reter esta mensagem quando falam de «uma aparição de anjos que diziam que Jesus estava vivo» (Lc 24,23). Paulo irá repetir com muita frequência a expressão: «Jesus vive» (At 25,19). O “Vivente” é o título divino que se encontra no Antigo Testamento (Jos 3,10; Jz 8,19; 1Sam 13,49). 

Perante a novidade, há reações. As mulheres, em Marcos, nada disseram por medo (Mc 16,8), em Mateus correram a dar a notícia aos discípulos (Mt 28,8) e em Lucas vão dar o seu testemunho aos apóstolos, mas eles não acreditam, pensam que elas deliram. Pedro vê o sepulcro vazio e regressa a casa muito preocupado. 

O sepulcro vazio é um sinal, mas não é prova da ressurreição. Só quando o Ressuscitado se manifestar pessoalmente nascerá neles a fé.

Na experiência pascal é vital sublinhar a palavra “encontro”, porque a experiência da ressurreição não foi uma experiência subjetiva do Mestre desaparecido de entre um grupo de discípulos desvalidos e saudosos. Naquele dia, junto do lago da Galileia (Jo 21,1-14), Jesus foi ao encontro daqueles pescadores. Acontece efetivamente um encontro. Jesus vai pelo caminho, vê aqueles pescadores e aproxima-se. A mensagem fundamental que brota deste texto convida-nos a constatar a centralidade de Cristo, vivo e ressuscitado. O Ressuscitado não é fruto da imaginação de alguns, mas é o próprio Jesus terrestre que vive uma realidade e dimensão novas, capazes de ser comprovadas pelos que estiveram com Ele.

A experiência desse encontro real não decorre da nostalgia de ter convivido com uma pessoa extraordinária, nem da reflexão sobre a nobreza da mensagem que essa pessoa teria transmitido aos seus enquanto conviveu com eles. É uma experiência que decorre da certeza de que Jesus está vivo, porque eles, os Doze e mais alguns discípulos, se encontraram realmente com Ele depois da sua morte. Acreditar no Ressuscitado não anulava nada, mas transformava tudo. Esse encontro dissipou-lhes a tristeza, a desconfiança, o derrotismo. É o encontro que os transforma. É uma descoberta que transparece na exclamação de Maria Madalena: «Rabbuni», «meu Mestre». Jesus Cristo não ressuscitou porque cremos nele. Cremos nele porque ressuscitou. Convida a nos encontrarmos com Ele e a que nos vinculemos estreitamente a Ele, porque é a fonte de vida. Ele convida-nos a lançar a rede para o outro lado da barca. Nele encontramos a força para, da morte, recriar a vida. As mulheres foram anunciar aos discípulos: «Vimos o Senhor!» E contaram o que os dois anjos lhes tinham dito. Sejamos também nós capazes de anunciar esta mensagem!

Seguir Jesus é viver conduzido e animado pelo Espírito de Jesus ressuscitado. É refazer fiel e criativamente o caminho de Jesus, atualizando-o na nossa própria história. É viver e atuar movidos pelos mesmos valores que inspiraram e conduziram a sua vida. É viver animado pela mesma confiança e esperança que Jesus manteve ao longo da sua vida, paixão e morte. É realizar e atualizar no mundo de hoje as práticas do Reino de Deus realizadas por Jesus.

É urgente despertar e recuperar a dimensão da fé e do encontro com Cristo ressuscitado. Só um encontro pessoal com a Pessoa de Cristo crucificado, morto e ressuscitado traz a realização plena para as nossas vidas.

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Aveiro, 16 de abril de 2022

António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro


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