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XIII Domingo do Tempo Comum – Ano C

 

Christ and His Disciples

 

BN _XIII tempo comum

Breve comentário

O texto deste domingo abre a 2ª parte do evangelho de Lucas: o caminho para Jerusalém. Este caminho, mais do que um itinerário geográfico, é um itinerário teológico, com uma extensão de dez capítulos, em que é salientada a missão de Jesus que vai ter o seu cume em Jerusalém.

«Tendo-se completado os dias da sua assunção (em grego: analêmpsis)». A expressão é usada para falar da ascensão de Jesus mas, evidentemente, inclui também a paixão e a morte.

É um caminho que Jesus toma resolutamente (à letra: «endureceu a sua face»), numa atitude que faz recordar o Servo de Yahweh (Is 50,6-7), numa plena aceitação dos sofrimentos que o esperam e na total confiança em Deus que o salvará.

Enviar discípulos à frente a preparar a hospedagem é natural, pois não se trata apenas duma pessoa mas dum grupo numeroso. Na primeira aldeia em que entraram não foram bem acolhidos porque Jesus se dirigia para Jerusalém: era uma aldeia de samaritanos. Entre Judeus e Samaritanos não havia boas relações desde a destruição da Samaria em 722 a.C. e deportação das tribos do norte para a Assíria, tendo sido o território repovoado por povos estrangeiros (2Rs 17,24-36). Com o passar dos séculos, mesmo próximo da era de Jesus, as relações complicaram-se até chegar ao ódio entre uns e outros.

A reacção de Tiago e João não se faz esperar. A intenção de fazer chover o fogo sobre a cidade denuncia uma mentalidade tipicamente judaica («olho por olho…»), mas sobretudo espelha uma concepção messiânica terrena e autoritária que pairava na mente dos discípulos. A punição que Tiago e João,  que  Marcos chama «filhos do trovão» devido à sua impulsividade, sugerem faz lembrar uma acção semelhante realizada pelo profeta Elias (2Rs 1,10-12). Porém, Jesus não segue o comportamento de Elias. Voltando-se para os discípulos, ? expressão tradicional que pressupõe que o mestre vá à frente dos discípulos, e em Lucas alude à «viagem» ? censura-os severamente. Se os samaritanos rejeitam Jesus, este não os quer rejeitar.

As três breves cenas da segunda parte do texto só se podem entender correctamente à luz do início do texto, isto é, da atitude resoluta e radical de Jesus no seu caminho. «Quem quiser seguir-me…». Ao longo do caminho para Jerusalém são postas em evidência as exigências requeridas para seguir Jesus. A identidade dos interlocutores e o êxito das exigências de Jesus não têm importância. O acento é posto nas exigências que Jesus dirige a todos aqueles que se sentem chamados.

Um homem diz a Jesus que o quer seguir. O homem já estava ciente de que seguir Jesus comporta uma vida itinerante: «Para onde quer que fores». A resposta de Jesus é uma sentença de tipo sapiencial, comum na literatura greco romana e judaica. Trata-se duma referência a um homem vagabundo, frágil ou ameaçado, comparada à condição dos animais. «As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça».

No contexto do «seguir Jesus», o dito exprime a radicalidade de tal seguimento: até animais sempre em movimento como as raposas ou as aves têm um lugar onde pousar, enquanto Jesus e, portanto, o discípulo que o segue, não tem nenhum lugar estável. O discípulo deve estar consciente dos riscos da sua escolha: ele é chamado a entrar em comunhão de vida com o seu mestre, mas é uma vida de profeta itinerante, privado da protecção duma casa, empenhado numa existência de vagabundo e que, como sugere o contexto de Lucas, deve também enfrentar uma situação de excluído, de fugitivo.

Não parece, porém, que Jesus com estas palavras tenha querido apresentar a globalidade da sua existência (sabemos que ele tinha uma casa em Cafarnaum e que algumas mulheres que o seguiam assistiam-no economicamente). A sentença de Jesus entende-se, tendo em conta a hostilidade que Jesus encontrou entre os conterrâneos de Nazaré e a recusa de hospedagem por parte dos samaritanos.

A um outro disse: «Segue-me». Mas este disse: «Permite-me ir primeiro sepultar o meu pai». Aqui a posição do interlocutor é diferente. Trata-se de Jesus que chama uma pessoa a segui-lo. O chamado não se recusa mas faz um pedido legítimo: poder primeiro sepultar o pai. A expressão «primeiro sepultar o pai» não significa «ir ao funeral», mas sim: O meu pai já é idoso, vive comigo, precisa de mim. Quando ele morrer eu ficarei mais livre. Este dever da piedade filial era relevante não só no judaísmo mas em toda a antiguidade. A resposta de Jesus «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos» é, no mínimo, escandalosa: não só se coloca contra a Lei e a piedade judaica mas ofende os valores humanos mais sentidos.

O dito só se compreende à luz da realidade anunciada por Jesus: a proximidade do Reino de Deus; por isso o chamamento a seguir Jesus tem precedência sobre todas as coisas. Jesus não anula a Lei mas coloca o mandamento exclusivo do «Escuta, Israel…» em primeiro lugar. O chamamento a seguir Jesus é um apelo ao serviço incondicional do Reino de Deus como mensagem a proclamar, o que exige uma liberdade total em relação a tudo e a todos.

É evidente a ligação da terceira cena com a narração da vocação de Eliseu (1Rs 19,19-21). Encontramos aí dois elementos em comum: o pedido de Eliseu: «permite-me que vá beijar o meu pai e a minha mãe; depois te seguirei» (v. 20); e a imagem do arado: Eliseu estava a arar quando foi chamado pelo profeta Elias.

Outro desconhecido está disposto a seguir Jesus, mas pede tempo para se despedir da família. Jesus responde com uma espécie de provérbio: «Ninguém que pôs as mãos ao arado e depois se volta para trás está apto para o Reino de Deus». Se o agricultor quer lavrar direito não pode olhar para trás. Por outras palavras, seguir Jesus não tolera atrasos, distrações ou saudades de casa.

A alusão à vocação de Eliseu por parte de Elias põe novamente em confronto este último com o Messias. Trata-se duma resposta àquilo que muita gente do tempo pensava acerca de Jesus e que transpareceu na resposta à pergunta: «Quem dizem que eu sou?». Jesus não é um Elias ressuscitado, é mais do que Elias. As suas exigências superam as do profeta mais representativo do Antigo Testamento; são exigências que correspondem à novidade da intervenção salvífica de Deus na história.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

2 Comments

  1. Gostaria de receber este modelo, para todas as Missas dominicais e dias de festas.

    • Boa tarde,
      todas as semanas é aqui publicado o comentário às leituras do Evangelho.
      Regra geral, entre 2ª a 4ª feira anterior ao respectivo domingo.
      cumprimentos,

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