Pages Navigation Menu

XVIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

Breve comentário

O episódio da multiplicação dos pães e dos peixes é o único episódio narrado seis vezes e nos quatro evangelistas, duas vezes em Mateus e Marcos, e uma respectivamente em Lucas e João.

Imediatamente antes (Mt 14,12) do texto de hoje, o evangelista apresenta Jesus que recebeu a notícia da morte de João Baptista por Herodes.  Por isso, retira-se de barco para um lugar deserto, como acontece frequentemente, afastando-se da multidão. Mas desta vez a multidão consegue adivinhar para onde ele se dirige e chega antes de Jesus.

O texto apresenta Jesus a curar e a alimentar o povo no deserto. É a compaixão que move Jesus a acolher a multidão, apesar da sua tentativa de afastamento da mesma, e a alimentá-la. Não se trata dum vago sentimento de comoção, mas duma emoção profunda, visceral, como indica o verbo grego usado (splagknizomai – sentir compaixão; spagkna, em grego, significa «vísceras»). Em toda a Bíblia, este verbo só é usado referido a Deus e a Jesus.

O diálogo com os discípulos, que se apresentam como «homens de pouca fé», ao referir as dificuldades do lugar deserto e do pouco alimento disponível (cinco pães e dois peixes) para tanta gente, vem salientar a iniciativa gratuita e generosa de Jesus que quer envolver nela os seus discípulos: «Dai-lhes vós de comer!».

As duas dificuldades apresentadas pelos discípulos (lugar deserto e poucos recursos) fazem-nos recordar a figura de Moisés que, no deserto, promete em nome de Deus o alimento prodigioso do maná (Ex 16,3-4), e a figura de Eliseu que não desanima perante os vinte pães de cevada que o seu discípulo apresenta para dar de comer a cem pessoas (2Rs 4,42-43). Assim, sobre a figura de Jesus, que acolhe e alimenta uma multidão numerosa no deserto, projecta-se a imagem do profeta ideal esperado para o fim dos tempos.

Neste episódio é também evidente o aspecto da releitura eucarística, feita com discrição e por alusões. Para isso contribui a referência à hora do dia ? «Chegada a tarde…» (14,15 // 26,20) ? e a ordem que Jesus dá à multidão para se sentar, como quem se senta à mesa. E mais ainda: o evangelista deixa de falar nos peixes e refere apenas os pães distribuídos à multidão depois do gesto ritual de Jesus. Aqui e na última Ceia encontramos os mesmos verbos: tomar, bendizer, partir e dar. O gesto de Jesus apresenta-se ainda com um sentido eclesial na medida em que os discípulos são envolvidos na acção: «deu-os aos discípulos, e os discípulos à multidão».

O número dos «doze cestos» deve colocar-se em relação com o grupo dos «doze» discípulos que, por sua vez, são constituídos em relação com as doze tribos de Israel, como núcleo simbólico do povo messiânico convocado à volta de Jesus. Os cinco mil «homens» são um número hiperbólico, como muitas vezes acontece na tradição popular, que serve para realçar o gesto de Jesus. O facto de não serem contadas as mulheres e crianças corresponde ao modo judaico de contar os participantes no culto da sinagoga. Mas também eles são destinatários do gesto benéfico de Jesus.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

  • Facebook
  • Google+
  • Twitter
  • YouTube