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Natal, tempo para aprender a ser família


 

Natal, tempo para aprender a ser família

O fascínio do Natal está aí! O tempo é de expectativa para o encontro… Deus vem ao encontro e “montou a sua tenda no meio de nós” (cf. Jo 1, 14). Em cada Natal, continua a recordar-nos que não desiste de nós e torna-se presente – um Deus que não abandona o ser humano à sua sorte – mas envia o “Menino de Belém” para nos “dizer” o caminho da salvação e da vida nova, e por meio de quem o amor há de triunfar.

José e Maria, com ânsias de quem espera pela chegada do nascimento de Jesus, procuram um lugar para o menino nascer. Todas as hospedarias estão cheias e não encontram pousada. Foi na humildade de um estábulo que o Menino nasceu, envolto numa história de instabilidade, perturbação e desconcerto. Ali mesmo, entre uma mãe e um pai, cheios de fé e de amor, brilha a grande luz que o mundo espera. Mal abriu os olhos, foi para a família o seu primeiro olhar. Manifestam-se assim a bondade de Deus e o seu amor pela humanidade.

Nesta simplicidade tão singular, a família foi o meio que Deus Pai escolheu para trazer o seu Filho ao mundo, incarnando no seio de Maria pela ação do Deus Espírito Santo. Foi a primeira realidade humana que Jesus santificou com a sua presença. Entre problemas e incertezas, dores e alegrias, a família de Jesus torna-se modelo de fé, de confiança e de abandono à vontade de Deus.

Família pobre e simples, mas profundamente inspiradora, somos convidados a refletir e a aprender com ela a arte de bem viver. A família é o primeiro lugar de encontro com Deus. Sendo comunidade da vida e do amor, configura-se como colaboradora de Deus. Ela será sinal da presença de Deus na terra. Ainda que não faltem diferenças no modo de considerar a família, é no seu interior que se transmite às novas gerações o cumprimento das promessas divinas, dando a conhecer os acontecimentos realizados por Deus em favor do seu povo. Como Igreja doméstica, é aí que se aprendem os princípios básicos da fé na experiência concreta do dia-a-dia e onde os esposos buscam a sua santificação e a realização plena da sua vocação matrimonial. É bom haver catequese na paróquia, mas a dificuldade de nos organizarmos em grupos e espaços condignos disse-nos que talvez a primeira catequese seja a que é feita em casa. Seguindo o exemplo da “Igreja em saída”, esta deve orientar-se para sair de casa.

O Natal, por excelência a festa da família, interpela-nos, move-nos. Fazei-o entrar na vossa casa como um membro da família, e Ele amparar-vos-á sempre. Preparemos a casa e o presépio! Sobre a porta de entrada possa ler-se: Ele vive em nós! Num tempo em que muitos não vão ou se torna difícil ir às celebrações nas igrejas, é preciso que as famílias se redescubram e atuem como Igrejas domésticas. Que cada família seja lugar de descoberta de Deus, ganhe consciência clara que foi criada por Deus para ser lugar onde reinam a escuta, o perdão, o amor oblativo, onde se praticam a atenção e o cuidado de todos e cada um.

É momento de redescobrir Deus, criador e guardião da vida: Ele dá-nos a vida e só Ele pode conservá-la e levá-la à sua perfeição. Como afirma o Papa Francisco, «o perigo de contágio por um vírus deve ensinar-nos outro tipo de “contágio”, o contágio do amor que se transmite de coração a coração».

Num mundo marcado por pandemia, inseguranças, medos, contradições, injustiças e desordens, à mistura com tantos brilhos exteriores, que a família de Belém seja aguarela de todas as emoções, porto seguro para todos os que vivem situações da crise sanitária e para os que procuram redescobrir ou vêem semeada a vocação a formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros. Qual estrela brilhante, que possamos ver os sorrisos, em contagiantes gestos de bondade, elevar-se da terra ao céu.

Estar sintonizado com os desígnios de Deus implica renúncia aos próprios planos para acolher os de Deus. Olhar e cuidar é a chave para a transformação. Como Igreja de Aveiro, inspirados no Plano Diocesano de Pastoral “Cada família, uma história de amor”, preparemos o que o Deus Menino nos pede, nas nossas comunidades, nas nossas próprias vidas, através de uma maior disposição para a oração em família, intimidade e vivência da Palavra de Deus, permitindo uma conversão do nosso modo de pensar e de viver. Este é o momento para acompanhar a realidade da vida das pessoas em concreto como algo que nos toca, que nos diz respeito, para experimentar e sentir o aparente abandono de Deus, para repensar os nossos estilos de vida, as nossas relações, a organização das nossas sociedades e, sobretudo, para o sentido da nossa existência. Se estamos ligados a Jesus e se recebemos d’Ele vida, essa vida tem de se manifestar na nossa existência diária. Que ninguém tenha medo de se deixar contagiar pela bondade!

Que o Menino nascido na pobre casa de Belém seja conforto para toda a humanidade ferida; renove os nossos corações e nos ajude a tomar consciência da lição que nos ensina no presépio, tornando-nos portadores da grande mensagem de amor à humanidade. Coloquemos este tempo sob a proteção da Sagrada Família.

Desejo um santo e feliz Natal. Que o Deus Menino a todos envolva no seu calor!

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Natal de 2020

António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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