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Domingo da Santíssima Trindade – Ano B

Breve comentário

Estamos no final do Evangelho de Mateus, após a ressurreição. O grupo dos onze (sem Judas Iscariotes) acolhe o convite do anjo e a ordem de Jesus para se dirigirem à Galileia a fim de O verem (Mt 28,7.10). É na «Galileia dos gentios», onde tinha ressoado o primeiro anúncio do reino dos céus para o povo que «vivia nas trevas e na sombra da morte» (Mt 4,15-17; cf. Is 8,23–9,1), que os discípulos vão ter um contacto com Jesus Ressuscitado e receber o encargo de continuar a sua missão, com a sua autoridade e a garantia da sua presença.

O encontro vai decorrer num monte que em Mateus é sempre símbolo de revelação e de salvação (sobre o monte ele revela a vontade de Deus: Mt 5,1; 8,1; sobre um monte retira-se para rezar: Mt 14,23; sentado sobre um monte acolhe a multidão e cura os doentes: Mt 15,29; sobre o monte, transfigurando-se, revela-se aos discípulos como o enviado definitivo de Deus: Mt 17,1.5).

Agora os discípulos reconhecem Jesus como seu Senhor, numa atitude de humilde adoração. Mas a fé pascal não está isenta daquela dúvida que acompanha a fé histórica da comunidade (é a fé dos discípulos que têm medo no meio da tempestade: Mt 8,26; é a fé de Pedro que corre o risco de se afundar porque tem medo do vento: Mt 14,30-31). Só a presença e a palavra de Jesus faz superar a dúvida e amadurecer a fé dos discípulos. Jesus ressuscitado aproxima-se dos discípulos, prostrados em terra, como já tinha feito no monte da transfiguração, e dirige-lhes a palavra.

A primeira palavra é uma solene declaração sobre a sua senhoria já plenamente estabelecida: «Foi-me dado todo o poder no Céu e sobre a Terra». Mediante a ressurreição, Jesus é constituído no pleno exercício do seu poder e, como o próprio Deus seu Pai, pode ser proclamado «Senhor do céu e da terra» (cf. Mt 11,25).

A segunda palavra é uma ordem dada aos discípulos: «Ide, fazei discípulos de todos as nações…». O anúncio do Reino deixa de ser apenas dirigido «às ovelhas perdidas da casa de Israel», excluindo os pagãos e samaritanos (Mt 16,5-6). A nova missão, inaugurada com a Páscoa, consiste em fazer todos os povos discípulos do Senhor. Esta pertença a Jesus ressuscitado, que define o estatuto do discípulo, realiza-se mediante o sinal sacramental e o pleno acolhimento do seu ensinamento.

A fórmula trinitária: «em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo», única vez que surge em todo o Novo Testamento, reflecte um amadurecimento na reflexão teológica da comunidade e um uso ritual da segunda metade do séc. I. O Pai é o novo rosto de Deus revelado por Jesus aos discípulos: tal como a identidade profunda de Jesus e conhecida pelo Pai que a revela aos «pequeninos». O Espírito Santo é o poder  benéfico e salvador de Deus revelado nos gestos e palavras da missão histórica de Jesus (Mt 12,18.28.31-32).

A segunda condição do discípulo é a observância integral de tudo o que Jesus ordenou, isto é, a revelação da vontade de Deus, centrada no mandamento do amor, vértice e cumprimento da lei e dos profetas (Mt 22,40).

A última palavra de Jesus é uma promessa que vale como garantia de encorajamento e confiança: «Eu estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos». No início do evangelho, aquele que vai nascer é o cumprimento da promessa salvífica de Deus concentrada no nome do descendente davídico: o «Emanuel», «Deus connosco» (Mt 1,23). Jesus ressuscitado, agora reconhecido como o Filho de Deus, com todo o poder divino, garante a sua presença («todos os dias») definitiva («até à consumação dos séculos»). Ele é, de facto, o Deus connosco. A eficácia de missão dos discípulos e a autoridade do seu ensinamento fundamentam-se nesta promessa de Jesus. A fidelidade e perseverança daqueles que pertencem a Jesus mediante o baptismo e a obediência ao evangelho derivam desta garantia final de presença do Senhor ressuscitado.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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