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XII Domingo do Tempo Comum – Ano B

A narração da tempestade acalmada, mais do que contar um acontecimento do passado, procura ser uma resposta à pergunta que percorre todo o evangelho de Marcos: «Quem é Jesus?». Sendo lida com um pouco de atenção, é possível descortinar alguns aspectos que são imagens e referências bíblicas que estão ao serviço da finalidade do evangelista.

É ao cair da tarde, quando as trevas já começam a dominar a natureza que começa a viagem cujo objectivo é passar para a outra margem, terra de gente que não pertence ao povo de Israel, portanto terra de pagãos. A travessia é feita de barco, onde vai toda a comunidade, juntamente com o Mestre que ocupa o lugar do timoneiro (à popa), mas vai a dormir.

Os discípulos, aparentemente, estão sozinhos e desamparados, confiando na sua destreza e capacidade para conduzir o barco, até que as coisas se complicam: tempestade de vento e mar encapelado. O barco está em perigo e a vida de todos é ameaçada de morte. E Jesus continua a dormir. Parece não se importar com o perigo: «Não te importas que pereçamos?».

Jesus levanta-se e, de forma imperiosa, restabelece a tranquilidade.

No Antigo Testamento e em toda a literatura judaica, o poder de Yahweh manifestava-se, entre outras coisas, no dominar as águas. Na criação, Deus tinha dominado o mar e tinha-o colocado nos seus próprios confins e limites. Neste domínio total sobre o ímpeto das águas o judeu crente admirava a grandeza de Yahweh, conforme cantam alguns salmos (Sl 74,13-14; 89,10-14; 104,4-9). A ideia era testemunhada também na narração da criação (Gn 1).

O vento pertencia a Yahweh; era sua prerrogativa enviá-lo sobre a terra. O vento tinha tido um papel sobretudo na narrativa da saída do Egipto (Ex 10,13-19; 14,21; 15,6-10), revelando-se assim que o Deus de Israel era operador de prodígios, tremendo nos seus feitos. O Salmo 104 cantava com admiração a Yahweh: «Fazes dos ventos os teus mensageiros, das chamas os teus ministros» (Sl 104,4).

O homem podia escapar dos perigos do mar invocando Yahweh (Sl 107,23-3l). Com a oração a Deus tinham-se salvado os navegantes que acolheram na sua embarcação o profeta Jonas. Moisés tinha dividido o Mar Vermelho levantando o seu bastão, mas só em obediência á ordem de Yahweh e em sinal do poder de Yahweh (Ex 14,15-18). Jesus, por seu lado, aplaca os ventos e o mar para salvar um pequeno grupo de pessoas, que o invocam e não a Yahweh (Mc 4, 38).

No pensamento de Marcos, certamente, os discípulos não o invocam pensando nele já como semelhante a Yahweh; mas é inegável que Jesus se comporta como se teria comportado Yahweh. Ao nível do autor do evangelho não parece possível outra interpretação. Aceitável ou não para um leitor moderno, é necessário prestar atenção ao pensamento teológico de Marcos.

Um crente que o tivesse escutado compreendia, no fim da narração, que os apóstolos ficaram amedrontados porque não tinham compreendido ainda quem era Jesus. Ainda não tinham chegado ainda à fé. «Porque estais assim com medo? Ainda não tendes fé?» (Mc 4,40). Na apresentação de Marcos, os discípulos deveriam já acreditar naquela altura.

Sempre ao nível da redacção marciana, se Jesus se revela através da sua acção, ele não se ostenta. O seu modo de agir é sumamente humano: dorme, acordam-no, intima o vento e o mar como se fosse a coisa mais simples. Por sua vez, este comportamento pode ser motivo de escândalo ou de fé.

Marcos fala da ausência de fé nos discípulos: «Ainda não tendes fé?». Mais tarde irá chamar-lhes a atenção por estarem sem inteligência, por não compreenderem (8,17-21; cf. 8,32-33). Falta de fé aqui significa não dar-se conta, não entender ou não aceitar Jesus, o seu poder e bondade.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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