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Semana dos Seminários 2023

«Não tenhas medo. Serás pescador de homens» (Lc 5,1-11)

O evangelho de Lucas (Lc 5,1-11) relata uma pesca milagrosa num contexto de chamamento dos discípulos. Jesus andava junto ao Mar da Galileia quando viu dois barcos que se encontravam junto do lago. Os irmãos Simão e André tinham descido deles e lavavam as redes (Lc 5,2). Então Jesus subiu para o barco de Simão e, depois de ter falado às multidões, mudou a vida daqueles pescadores, convidando-os a fazerem-se ao largo e a lançarem as redes. Se, por um lado, os pescadores descem do barco para lavar as redes, ou seja, limpá-las, guardá-las e voltar para casa, por outro, Jesus sobe para o barco e convida a lançar novamente as redes para a pesca. Sobressaem as diferenças: os discípulos descem, Jesus sobe; os primeiros querem guardar as redes, o Mestre quer que saiam de novo para o mar a fim de pescar.

Jesus disse a Simão: “Não tenhas medo! Doravante serás pescador de homens”. Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram Jesus. Ao invés de pescarem peixes, aqueles discípulos pescariam homens para o reino de Deus. O texto diz que após o chamamento de Jesus, eles deixaram imediatamente as suas redes e animadamente seguiram Jesus. A expressão “doravante” indica um novo tempo, indica o ponto crucial da mudança, dando um novo sentido e horizonte à vida de Pedro.

A imagem da pesca refere-se também à missão da Igreja e sobre a vocação à qual fomos chamados para uma tarefa no mundo. O chamamento que Jesus fez aos seus discípulos repete-se na vida de cada um de nós, porque a tarefa de pregar o evangelho ao mundo não terminou. Este é o tempo da graça que o Senhor nos concede para nos aventurarmos no mar da evangelização e da missão. Para o conseguir, precisamos também de fazer opções, inspiradas no Evangelho, tal como refere o Papa Francisco aos agentes de pastoral do nosso país.

A primeira opção é fazer-se ao largo. Cultivai a magnanimidade. Não sejais tímidos!

Como segunda opção, levar juntos por diante a pastoral, todos juntos. Jesus confia a Pedro a tarefa de fazer-se ao largo, mas depois fala no plural, dizendo «e vós lançai as redes».

Finalmente, a terceira opção é tornar-se pescadores de homens. Não tenhais medo. 

Dizer que os seus discípulos vão ser “pescadores de homens” significa que a missão do cristão é continuar a obra de Jesus em favor da humanidade, procurando libertá-la de tudo aquilo que lhe rouba a vida e a felicidade. Trata-se de salvar os homens e mulheres de morrer afogados no mar da opressão, do egoísmo, do sofrimento, do medo, de tudo o que impede a sua felicidade. Jesus quer fazer sentir a proximidade de Deus, precisamente nos lugares e situações onde as pessoas vivem, esperam… às vezes vivendo fracassos e insucessos, como aqueles pescadores que não tinham pescado nada durante a noite. Temos de passar do derrotismo à fé, como Simão que, apesar de ter trabalhado em vão toda a noite, conclui: «Porque Tu o dizes, lançarei as redes» (Lc 5,5).

O que significa, hoje, na minha vida este convite pessoal e único a ser pescador de homens? O ambiente da vocação dos primeiros discípulos, que Jesus chamou nas margens do Mar da Galileia, deveria ser o de hoje. Ele precisa de nós tal como somos e do modo como vivemos. Ser “pescador de homens” exige uma mudança. Aquando da Jornada Mundial da juventude, o Papa Francisco convidou os jovens a pensar no crescimento pessoal “não como uma elevação acima dos outros”, mas antes como “um abaixamento ao serviço dos outros”, e a estar atentos a uma “sensibilidade integral” que faça uso da “atenção e compaixão”. É importante que os jovens tenham grandes sonhos – Deus também os tem! E é importante encontrar adultos que não apaguem os sonhos, mas que os ajudem a interpretá-los e a realizá-los.

Construir a humanidade e pescar gente é implementar o Reino de Deus, é ser palavra de Deus no mundo. Essa é a boa nova do Evangelho, a qual somos convidados a abraçar como discípulos no caminho da missão. Não obstante o que fazemos para ganhar a vida, deveríamos ter como meta lançar a rede do evangelho. É necessário anunciar o Evangelho que nos desafia. Somos chamados a mergulhar as nossas redes no tempo em que vivemos, a dialogar com todos, a tornar compreensível o Evangelho, mesmo que para isso tenhamos de correr o risco de alguma tempestade.

Esta semana dos seminários é, de modo especial, uma ocasião para termos presente os nossos cinco seminaristas, jovens que sentem de modo especial o chamamento de Jesus a lançar as redes. Todos precisamos de viver e agradecer a salvação que Deus nos concede; mas os que são chamados ao ministério ordenado, administram esta mesma salvação para o bem de todos. O cuidado e oração pelas vocações ao sacerdócio são centrais nesta semana; assim, gostaria de fortalecer o apelo a rezarmos pelas vocações, seja na dinâmica de oração no Mosteiro Invisível Vocacional, como propõe o nosso Serviço das Vocações, seja pelo convite aos jovens a participar dos encontros mensais do Pré-Seminário. Nunca seremos demais a cuidar das vocações consagradas no mar na nossa Diocese.

Não tenhais medo, lançai as redes a todos. Justos e pecadores, bons e maus, todos, todos, todos. Este é o grande desafio.


Aveiro, 31 de outubro de 2023

António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro

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