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Eucaristia Solene de apresentação à diocese de Aveiro – Homilia

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Exaltação da Santa Cruz (Jo 3, 13-17)

O texto da eucaristia de hoje, do evangelho de S. João, faz parte do primeiro discurso de Jesus. João quer apresentar-nos Jesus aberto ao diálogo com todos os homens. Para isso, procura três interlocutores de mundos culturais e religiosos diferentes:

– Nicodemos, o protótipo da mentalidade judaica, que descobre nos símbolos as credenciais do enviado de Deus, mas a quem falta dar o salto da fé;

– A mulher samaritana, proveniente de um povo cismático separado dos judeus, com o seu próprio lugar de culto e com a sua própria ideia messiânica, mas que descobre Jesus como o verdadeiro Messias Salvador;

– O funcionário real, símbolo dos pagãos, que vai até Jesus para pedir a cura do seu filho e encontra a cura e a fé.

Hoje, fala-nos de uma pessoa concreta: um judeu e membro do Sinédrio. O seu nome é Nicodemos, pertence ao grupo dos fariseus e estava convencido que somente pela observância escrupulosa da Lei pode alcançar a salvação. Como membro do Sinédrio pertence à classe dominante do povo. O plural que utiliza “Sabemos” («Rabi, nós sabemos que Tu vieste da parte de Deus, como Mestre» – Jo 3, 2) dá-lhe carácter de representação: porta-voz do judaísmo, do farisaísmo, do poder, da lei.

Nicodemos encontrou luz nos sinais que Jesus realiza: ninguém pode fazer tais sinais se Deus não está com ele. Mas vem até Jesus “de noite”. A luz brilha nas trevas, mas as trevas não a compreenderam (Jo 1, 15).

Jesus não responde aos louvores que Nicodemos lhe dirige. Quer conduzi-lo imediatamente para o campo da fé. Não quer a sua adesão apoiada nos sinais, mas sim a aceitação da Sua Pessoa e da Sua Palavra. O único modo de entrar no Reino é nascer de novo, aceitar a novidade do Evangelho. Nicodemos não está disposto a aceitar a Palavra se não compreender como pode dar-se este novo nascimento. Jesus condu-lo para o campo da fé dizendo-lhe que esse nascimento será pela água e pelo Espírito. João dirá no episódio da crucifixão que do lado do Senhor brotou água, e então Jesus entregou o Seu Espírito (19, 30. 34). Da água e do Espírito brotará a nova vida.

Nicodemos, na sua linha de incredulidade, responde com uma nova pergunta: “Como pode ser isso?”. E desaparece da cena. É mestre em Israel, mas de que lhe serve o título se não aceita a novidade do Reino de Deus?

O Messias, colocado ao alto (crucificado), será a fonte da vida nova. A par das referências ao deserto, como pano de fundo, recorre-se ao episódio da serpente de bronze (Num 21, 9), que ouvíamos na primeira leitura, para explicar a salvação que receberemos de Cristo, quando for elevado na cruz. A morte de Cristo é a consequência da Sua descida até à nossa humanidade, e é designada, paradoxalmente, como elevação; porque fisicamente a cruz coloca-se ao alto; com a Sua morte começa a Sua glorificação, a Sua Páscoa, a Sua passagem para o Pai (12, 23-34). Esta é, ao mesmo tempo, a maior prova do amor do Pai, que não nos enviou o Filho para julgar ou condenar, mas para dar testemunho da verdade (Jo 18, 37) – uma vida que alcançamos pela adesão plena a Ele. Este é o sentido da festa da Exaltação da Santa Cruz, que hoje celebramos.

Não esqueçamos que nas dificuldades Deus quer ensinar-nos, de maneira mais profunda, o valor, a importância e a centralidade da Cruz de Jesus Cristo. Santo Agostinho, comentando o texto da carta de S. Paulo aos Filipenses, diz-nos: «Cristo Jesus, que era de condição divina, aniquilou-se a Si próprio, assumindo a condição de servo, mas sem deixar de ser Deus. (…) A ressurreição de Jesus é a nossa esperança e a sua exaltação a nossa glória».

Neste horizonte, a missão da Igreja é dar visibilidade ao invisível e, para isso, os documentos do concílio Vaticano II, os do Sínodo diocesano concluído em 1995, juntamente com o dinamismo pastoral criado pela Missão Jubilar e a exortação do Papa Francisco “A Alegria do Evangelho” são o horizonte onde se deve mover a nossa vida diocesana e, consequentemente, a construção do reino de Deus nesta Igreja particular que peregrina em Aveiro.

Que desafios traz o anúncio do Evangelho às nossas comunidades cristãs e a cada um de nós?

Evangelizar «constitui, de facto, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade» (EN 14) e indica o esforço de renovação que a Igreja é chamada a fazer para corresponder aos desafios que a atual conjuntura social e cultural coloca à fé cristã, ao seu anúncio e ao seu testemunho, como consequência das profundas mudanças.

A Igreja responde a estes desafios não cruzando os braços, não se fechando em si mesma, mas através de uma proposta de revitalização do seu próprio corpo, colocando no centro a figura de Jesus Cristo. Alvejo alguns que me parecem muito atuais no início do ministério episcopal:

1º Enquanto comunidade cristã devemos criar espaços de fraternidade onde se realizem as palavras de Jesus: «Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18, 20).

2º Sermos discípulos missionários exige formação cristã, para mais fielmente darmos testemunho do Evangelho. A formação cristã dos adultos é a disciplina pendente após o concílio Vaticano II e na qual temos de investir todas as nossas energias e capacidades.

3º Prestarmos muita atenção às famílias, nos imensos desafios que se lhes deparam na realização da sua missão. Um apelo a que não se fechem em si mesmas, mas que se abram à vida como um dom que vem de Deus.

4º Os jovens, que são o futuro da Igreja e da sociedade, devem ter um lugar privilegiado na vida das nossas paróquias. Temos de os apoiar e encorajar, e estar atentos aos movimentos que os possam ajudar a inserirem-se na vida da Igreja e das comunidades.

5º Somos chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos mais pobres, porque a falta de solidariedade nas suas necessidades influi diretamente sobre a nossa relação com o Pai bom que ouve o clamor dos seus filhos (cf. Ex 3,7).

Se a evangelização se centra em configurar o cristão com Cristo, em ajudar as pessoas a conhecer a Deus e acreditar amorosamente n’Ele, este teria que ser um ministério especialmente apto para os que querem colocar a sua vida à escuta da Palavra de Deus e ao serviço da sua vontade, exigindo novas formas do exercício do ministério sacerdotal e a implementação da diversidade de ministérios eclesiais.

            A preocupação e contributo da Igreja para a cidade dos homens são um sonho que diz respeito a todos – Igreja e sociedade civil: «o nosso sonho voa mais alto. Não se fala apenas de garantir a comida ou um digno «sustento» para todos, mas «prosperidade e civilização nos seus múltiplos aspetos» (Mater et Magistra, 402, 1961). Isto engloba educação, acesso aos cuidados de saúde e especialmente trabalho, porque no trabalho livre, criativo, participativo e solidário, o ser humano exprime e engrandece a dignidade da sua vida» (EG 192).

E porque o reconhecimento e realização das pessoas passa pelo encontro e expressão de sentimentos, seria injusto da minha parte terminar sem expressar fidelidade ao Papa Francisco e agradecer a presença de tantos amigos que me acompanham no início do meu ministério nesta diocese de Aveiro: os meus irmãos no episcopado, especialmente o Senhor Núncio Apostólico, enquanto sinal visível da comunhão com o Sucessor de Pedro; o Senhor Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, com quem aprendi a dar os primeiros passos no ministério episcopal; o anterior bispo de Aveiro, D. António Francisco dos Santos, pela amizade que sempre me manifestou e cujos passos desejo seguir. Bem hajais pela vossa presença e comunhão.

Ao Administrador Diocesano, Mons. João Gaspar, agradeço toda a dedicação à Diocese.

A todos os sacerdotes e diáconos, religiosos e religiosas, seminaristas e leigos de Aveiro empenhados na obra da evangelização, exorto e agradeço com palavras de S. Paulo: «Sede alegres, trabalhai pela vossa perfeição, animai-vos uns aos outros, tende os mesmos sentimentos, vivei em paz. E o Deus do amor e da paz estará convosco» (2 Cor 13, 11).

Sensibiliza-me e congratulo-me com a presença do clero de Braga e da Guarda, tal como a presença de tantos leigos com quem trabalhei ao longo da minha vida. A minha gratidão e estima pela vossa amizade.

Saúdo também as autoridades civis, académicas e militares que se empenham na busca do bem comum. Contai com a nossa diocese de Aveiro na assistência e promoção de uma sociedade mais justa e fraterna.

Não queria terminar sem referir o exemplo de alguém que tem estado muito presente na minha vida: o Servo de Deus D. João de Oliveira Matos. As suas palavras são para mim um programa de vida que desejo realizar com todos vós: «Aquele que ama a Cristo tem de amar o próximo. Se não amar o próximo, não ama a Cristo. Se não reformarmos a nossa vida, se não formos de Cristo inteiramente, pela Fé, pela obediência e pelo amor, não chegamos a realizar o ideal de Cristo… É preciso que Jesus reine».

Imitando o Santo Arcebispo Beato Bartolomeu dos Mártires, nos 500 anos do seu nascimento, invoco, para todos e cada um de nós, a proteção de Nossa Senhora e de Santa Joana Princesa, padroeira da Diocese.

 

Sé de Aveiro, 14 de setembro de 2014

† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro

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