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Os consagrados, construtores e sinais de um mundo novo

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Ano da Vida Consagrada  – Nota Pastoral

Os consagrados, construtores e sinais de um mundo novo

 

  1. O valor da vida consagrada

                «O reino dos céus é semelhante a um negociante que busca boas pérolas. Tendo encontrado uma pérola de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola» (Mt 13, 45-46).

O Espírito Santo enriquece livremente com os seus carismas a vida da Igreja, para que seja sinal e testemunho da presença de Cristo no mundo. Estes carismas devem estar ao serviço da comunhão eclesial, como refere o Concílio Vaticano II ao afirmar que embora os consagrados, do ponto de vista da estrutura divina e hierárquica da Igreja, não são um «estado intermédio entre a condição clerical e a laical, mas duma e de outra chama Deus alguns fiéis a usufruírem este dom especial na vida da Igreja e a ajudarem-na, cada um a seu modo, no desempenho da sua missão salvífica» (LG 43).

A designação «Vida Consagrada» refere-se a um conjunto de carismas e instituições nas quais podemos englobar: ordens e institutos religiosos dedicados à contemplação ou às obras de apostolado; sociedades de vida apostólica; institutos seculares e outros grupos de consagrados; formas novas ou renovadas de vida consagrada; a ordem das virgens, as viúvas e os eremitas consagrados; e todos aqueles que, no segredo do seu coração, se entregam a Deus com uma especial consagração (cf. Vita Consecrata, 2).

A vida consagrada é como uma árvore que se desenvolve de forma admirável e frondosa no campo do Senhor e, a partir de uma semente lançada por Deus, vai-se desenvolvendo nas mais variadas formas que a constituem. A vida consagrada «pela profissão dos conselhos evangélicos é a forma estável de viver pela qual os fiéis, sob a ação do Espírito Santo, seguindo a Cristo mais de perto, se consagram totalmente a Deus sumamente amado, para que, devotados por um título novo e peculiar à Sua honra, à edificação da igreja e à salvação do mundo, alcancem a perfeição da caridade ao serviço do reino de Deus e, convertidos em sinal claro na Igreja, anunciem a glória celeste» (CIC 573).

Os conselhos evangélicos da castidade, pobreza e obediência são um dom divino que a Igreja recebeu do seu Senhor e que, com a sua graça, são vividos por alguns cristãos para, deste modo, tornarem mais visível o ser discípulos de Cristo. Ao longo dos séculos, a Igreja, sob a ação do Espírito Santo, interpretou estes conselhos, regulamentou a sua prática e determinou a forma estável de os viver.

Os consagrados têm, por esta razão, um lugar especial na vida da Igreja e constituem uma riqueza no corpo eclesial, que não deixa de nos surpreender cada dia com novas formas de consagração. Pela sua consagração, não se tornam estranhos à humanidade ou inúteis para o mundo. Estão presentes nele de um modo profundo e cooperam espiritualmente com os homens para que a cidade terrena se funde sempre em Deus e se dirija para Ele.

Não devemos entender a vida consagrada em sentido negativo, de renúncia, mas positivo, de perfeição cristã, do desenvolvimento das exigências do batismo e do seguimento de Jesus Cristo.

  1. Conselhos Evangélicos

                 «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim» (Gl 2, 20).

Os conselhos evangélicos, acolhimento do mistério de Cristo, são um dom que a Igreja recebeu do seu Senhor e fundamentam-se nas palavras e exemplos do Mestre. Neste sentido, para os compreendermos verdadeiramente, não podemos desvinculá-los da pessoa de Jesus Cristo: obediente, pobre e casto – três dimensões profundas do seu viver humano.

Estes expressam a doação total e irrevogável de Cristo à Igreja. São exigências evangélicas que configuram a forma de vida de Cristo. O Catecismo da Igreja Católica salienta que, nas múltiplas facetas, segundo o próprio dom e vocação, são propostos a todo o discípulo de Cristo. A busca da perfeição da caridade, à qual todos os cristãos são convidados, exige daqueles que se consagram livremente ao Senhor a obrigação de praticar a castidade no celibato pelo Reino, a pobreza e a obediência. Na vida consagrada, conforme refere o Papa S. João Paulo II, os conselhos evangélicos são, pois, afirmação clara da primazia absoluta do Reino, presença no mundo dos bens definitivos, prefiguração e experiência da vida eterna e da ressurreição gloriosa (Vita Consecrata).

A Obediência, em relação com a virtude teologal da fé

                 «Eis-me aqui, ó Pai, para fazer a tua vontade» (Heb 10, 7).

Em termos funcionais, falar de obediência remete-nos para a vontade de obedecer a alguém investido de autoridade, para manter a ordem. Em sentido religioso, a obediência, praticada à imitação de Cristo, cujo alimento era fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34), manifesta dependência filial e não servil; tenta uma resposta interiorizada à Palavra de Deus, isto é, orienta-se não só para o homem, mas também para Deus – é participação na obediência de Cristo: submissão filial, plena e amorosa ao querer do Pai. É a forma concreta de viver a virtude teologal da fé: comprometer-se diante de Deus e diante dos irmãos a viver em atitude de total docilidade à vontade amorosa do Pai, e a acolhê-la filialmente como critério único de vida. Por conseguinte, é a Palavra de Deus que enforma a autoridade e a obediência dentro da comunidade eclesial, para a interpelar continuamente.

Aderindo livremente à pessoa de Jesus, o consagrado, pelo batismo, é chamado também a “obedecer à Boa Nova” (Rm 10, 16), ou seja, “a obedecer a Cristo” (2Cor 10, 5). Assim, o conhecimento da vontade de Deus leva-nos a não fugir a responsabilidades nem a ter uma atitude passiva, mas sim a atuar responsavelmente, respondendo ao Deus que se entregou por nós e nos quer livres. É procurar, comunitariamente, a vontade do Pai, embora nesta procura cada um tenha uma missão diferente. Por isso, a obediência dá-se sempre no seio de uma comunidade cuja base é o amor e não a rígida estruturação hierárquica, onde os superiores têm a palavra e a decisão.

A obediência é sinal escatológico dos novos céus e da nova terra, tornando-os presente na história quando os homens vivem profundamente a vontade de Deus.

O consagrado tem de mostrar que há outra vontade que está acima dos nossos caprichos e desejos pessoais. É sinal de que o nosso eu não é o último nem o definitivo. Este princípio, o consagrado não o vive na intimidade da sua consciência nem na solidão da sua opção, mas, normalmente, no interior de uma comunidade que mostra ao mundo como a vontade de Deus pode transformar a comunidade humana. Graças a esta vontade, a personalidade e a vontade pessoal não são obstáculo para a comunidade, porque a vontade de Deus é procurada pela comunidade.

 

A pobreza como referência à esperança

                 «Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o reino dos céus» (Mt 5,3).

Não há pobreza sem pobres. A pobreza foi parte integrante do ministério de Jesus, que veio ao mundo para responder ao grito dos pobres, chegando mesmo a identificar-se com eles, “sendo rico, fez-se pobre” (2 Cor 8, 9). Viver na pobreza significa um posicionar-se perante a vida, empenhar-se em confiar infinitamente em Deus, apoiando-se unicamente nele, viver decididamente para os outros, partilhando tudo o que se é e tudo o que se tem. Chega até ao desprendimento total, pondo essa disponibilidade ao serviço dos valores do Reino “Se queres ser perfeito, vai, vende todos os teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me” (Mt 19, 21).

Os pobres, como referem as bem-aventuranças, não fazem deste mundo o seu reino. O Reino de Deus é-lhes específico; acolhe preferencialmente os pobres. O pobre aos olhos do mundo é, proporcionalmente, o mais rico de Deus. Os valores deste reino são os que suplantam as duas túnicas, os alforges e as provisões. Para procurar este Reino, Cristo não tinha onde repousar a cabeça (cf. Lc 9, 58). É, em definitivo, a liberdade suprema de não “estar atados” a nada, para poder servir em plenitude o Evangelho; implica a caridade, viva e operante, para com Deus e para com o próximo, conscientes de que quando colocamos à disposição os nossos bens, Deus multiplica-os. É confiar num Deus que é capaz de encher e alegrar o coração humano, e que está acima de tudo o que temos e somos. “Assim, qualquer de vós, que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 33). Isto significa caminhar para uma plenitude que nos espera e nos enche totalmente. Não é, portanto, renúncia, mas plenitude. É ter escolhido a melhor parte, ter encontrado o tesouro escondido, ter achado a pérola valiosa. É viver os valores deste mundo apenas em referência ao Reino, valorizando o que leva até ele e recusando tudo o que dele nos afasta.

A pobreza é também sinal escatológico. Com a atitude de desapego afetivo e efetivo deste mundo e com a entrega incondicional ao serviço do Reino, damos testemunho da nossa fé e esperança em Cristo, do que a graça de Deus é capaz de realizar no homem; recordamos aos outros o seu destino eterno e que as coisas deste mundo são passageiras, face à realidade última que é a comunhão definitiva com Deus. Chegará um dia em que só Deus preencherá todos os desejos humanos.

É sinal que coloca em crise o homem de hoje, ávido de possuir, que pôs o seu coração no efémero, no transitório e relativo, mostrando-se radicalmente insatisfeito – valores que não enchem o coração. Quando numa comunidade os valores deste mundo provocam a rutura da comunhão humana e se colocam interesses pessoais acima dos comunitários, não se pode gerar comunidade porque se fecha a fonte da própria comunidade que tem de ser sinal de pobreza pela sua vida concreta, pelas opções comunitárias, pelo serviço. Ter voto de pobreza, numa comunidade de pessoas despojadas, mas não sentindo as necessidades básicas da sobrevivência, pode ser uma virtude ilusória. É preciso que o mundo veja e creia.

A castidade está relacionada com o amor

                 «Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus» (Mt 5, 8).

A castidade é uma forma de viver a própria vida afetivo-sexual, segundo o projeto original de Deus. Cristo chama todos os cristãos a uma castidade perfeita, segundo o próprio estado (cf. Mt 5, 27-30.48; 18, 8-9). Assim, todo o batizado é chamado à castidade, castidade que em vez de restrição é amor e liberdade; liberta o coração do homem (cf. 1Cor 7, 32-35), para que mais se acenda na caridade para com Deus e para com todos os homens. Mais do que fechar-se em si mesmo, é caminho para a perfeição da caridade. Mas para que seja fecunda é preciso amar. O celibatário não é menos do que outro estado de vida, ele entrega-se, doa-se por amor. Não é, portanto, permanecer um eterno “solteiro”, campo de cultivo de uma boa dose de egoísmo, mas na fecundidade e paternidade de quem rompe as barreiras familiares para ir mais além, para ir ao encontro de todos. Mas também não é castidade perfeita a secura do coração, aquele que, sob o pretexto de amar somente a Deus, não ama ninguém.

A castidade consagrada, antes de ser decisão, é graça; manifesta o primado de Deus sobre tudo e sobre todos. Os consagrados não se fecham aos afetos, mas dilatam o coração na medida do coração de Jesus. É uma entrega tão plena que nos faz livres para sermos homens e mulheres para os outros na amizade e na união com todas as pessoas, entendendo a vida como doação em gratuidade. É não “atar-se” a ninguém para consagrar a vida ao serviço de todos. É demonstrar, com a própria existência, que ninguém pode ficar fora da comunidade da casa do Pai, que se vai construindo nesta vida e nesta história. É expressar ao máximo a capacidade ilimitada do amor humano, porque o homem é imagem e semelhança de Deus, e Deus é amor. É amar com um amor concretizado em cada um dos homens que são, ao mesmo tempo, sinais do amor de Deus.

A castidade é também sinal escatológico. Sendo testemunho da presença de Deus na nossa vida, converte-se em sinal que desperta nos outros homens a fé e a esperança da comunhão eterna com Deus. Esta comunhão no amor será o definitivo e escatológico; tudo o mais, inclusive a fé e a esperança, acabará. Mas também é sinal que convida o homem de hoje a renovar-se, a não fechar-se em si mesmo. A castidade é especialmente geradora de comunidade e vive-se em comunidade: lugar onde se vive a fé e que mostra como a fé é capaz de criar laços mais profundos que os de sangue.

  1. Vida fraterna em comunidade

                 «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18,20).

                Por viver em comunidade o discípulo de Cristo obriga-se a viver em união com os seus irmãos, a quem deve correção e perdão, uma vez que sempre que seja ofendido deverá corrigir e perdoar aos irmãos. No fundo, com o discurso eclesial de Jesus (Mt 18) deseja-se evangelizar a vida fraterna, isto é, conformar a nossa vida comunitária às exigências de Jesus e não às nossas pretensões.

 

Primeira norma da vida fraterna: cuidar dos mais frágeis (Mt 18, 1-5)

                 O evangelista propõe uma catequese à sua comunidade, refletindo e respondendo a situações concretas da vida diária da primeira comunidade cristã onde eram visíveis algumas das tensões internas, e o ideal de vida a concretizar no seio das comunidades, para que Jesus possa efetivamente estar no meio de nós.

                Criança e pequeno são os eixos à volta dos quais gira esta primeira parte do discurso introduzida pela pergunta: “Quem é o maior no Reino do Céu?”. A contraposição entre o maior no reino e o mais insignificante dentro da comunidade, criança ou pequeno, está na base de toda a reflexão.

                Depois de Jesus ter convidado os seus discípulos a serem como crianças, agora exorta-os a acolher o pequeno ou o mais frágil da comunidade.

                A preocupação pelos mais pequenos tem de ter como motivo o próprio Cristo, pois é em seu nome, por sua causa, que deverão ser aceites. A identificação é real, embora misteriosa: é escolha de Jesus – e portanto obrigação do crente – ver-se aceite quando é aceite uma dessas crianças com as quais se identificou.

                Trata-se, pois, de uma exigência de Cristo para a vida em comum dos seus discípulos e que a Igreja nunca deveria esquecer: nela os que são os mais pequenos, os insignificantes, merecem mais atenções. Jesus sabe que para o conseguir é necessário uma conversão radical. Quem agora o exige, cumpri-lo-á pouco depois (Mt 19, 13-15): o exemplo do seu Senhor é exigência para a sua Igreja. Nela quem aspira a ser mais faz-se mais pequeno e os mais pequenos são os que precisam de mais atenções.

 

Segunda norma da vida fraterna: a correção fraterna (Mt 18, 15-20)

                 A vida fraterna confronta-se com as dificuldades e as divisões que sempre surgem entre os irmãos. Os consagrados devem ser sensíveis à ofensa, mas também ao amor, ao perdão e à correção fraterna. O irmão que ofende não receberá bem a correção fraterna se não tiver a sensação que já foi amado e perdoado antes de ser corrigido. Entre aquele que ofende e o ofendido quem deve dar o primeiro passo? Aquele que tem mais amor. Esta é a pedagogia de Jesus. “Ele amou-nos primeiro” (1Jo 4, 19) e é este “amor primeiro” que converte o ladrão Zaqueu, que transforma a mulher arrependida e que faz da Samaritana uma missionária. Antes de aceitar o irmão tal como ele é, embora não seja bom, temos de fazer o possível para que seja melhor. Um irmão corrigido é o irmão mais estimado, porque se ama mais do que ele merece, mais do que aquilo que ele é.

                Na vida em comunhão não se pode abandonar o irmão à sua sorte, embora tenha sido ele que se afastou da comunidade. A primeira reação que se espera do ofendido não é que ofereça o seu perdão ao que pecou contra ele, mas sim que procure a sua correção.

                Em primeiro lugar, temos de recusar tudo o que dê nas vistas: o que ofende tem de ser advertido particularmente, para que se dê conta do seu erro. A correção procura recuperar o irmão, converter o que ofende em próximo e devolvê-lo como irmão à comunidade – a qual não deve procurar a justiça retributiva, mas sim recuperar a vida fraterna.

                Em segundo lugar, Jesus considera com realismo o fracasso da primeira tentativa. Se a repreensão em privado não consegue os seus objetivos, que é a conversão, teremos de tornar pública a ofensa e recorrer a testemunhas. Já não é apenas o ofendido que espera uma mudança, mas sim outras pessoas que dão mais força à correção fraterna.

                Em terceiro lugar, o crente ofendido não tem mais autoridade do que a comunidade a quem recorre. O papel da comunidade não é o de condenar, mas sim de apoiar o ofendido na sua tentativa de persuasão. O possível desenlace, a rutura da comunhão, confere uma gravidade fora do normal nesta terceira tentativa; depois desta, não há outra oportunidade para recuperar o irmão.

Terceira norma da vida fraterna: o perdão aos irmãos (Mt 18, 21-35)

                 Pedro aproximou-se e fez uma pergunta a Jesus: «Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe devo perdoar? Até sete vezes? Jesus respondeu: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete» (Mt 18, 21-22). Com esta pergunta, Pedro dá por suposto que tem de perdoar, mas o que lhe interessa saber é se o perdão tem limites, se pode ser medido ou quantificado.

                Jesus responde negando a posição de Pedro, e pede uma disposição ilimitada para o perdão. Do que se trata neste texto não é o contabilizar para deixar de perdoar, mas sim de perdoar sem limite: com este número, Jesus proíbe enumerar as ofensas recebidas.

                Apenas o perdão pode salvar a comunidade: é na sua capacidade de perdoar que reside a novidade da vida cristã, e com muito mais razão de ser na vida fraterna em comunidade. Numa comunidade assim, onde o mal praticado encontra sempre o perdão, o mal não tem nunca a última palavra; o mal é vencido não porque cesse para sempre, mas porque nunca fica sem resposta; quem perdoa não se deixa vencer pelo mal que lhe fazem, sem deixar de reconhecer que lhe estão a fazer mal. O perdão concedido faz bem, mais que àquele que ofende, àquele que foi ofendido. O que Jesus espera dos seus discípulos é um perdão fraterno sem limites. Perdoar não significa desvalorizar o mal; mais ainda, perdoar é uma forma de afirmar o mal como um facto, negando-lhe o seu poder, a maldade a que ele conduz: um mal não reconhecido não pode ser perdoado.

 

  1. A vida consagrada na pastoral da Igreja diocesana

 O que constitui a vida religiosa determina claramente a sua missão na Igreja e no mundo: A vida religiosa é riqueza para uma Igreja com a qual vive em comunhão e na qual mostra a especificidade e pluralidade dos seus carismas. Por isso, a diocese só tem a ganhar com a presença vigorosa, clara, expressiva e estimulada dos movimentos religiosos, de homens e mulheres que podem despertar o mundo e enriquecer as dioceses com os seus carismas.Esta pluralidade mostra também que as relações eclesiais não são apenas de tipo hierárquico, mas que todo o dom do Espírito se autentica, se avalia e se vive sempre em referência à comunidade. O seu serviço à Igreja concretiza-se no seio das Igrejas locais, ao mesmo tempo que abre estas Igrejas às dimensões universais e missionárias. Podemos dizer que nelas se edifica, torna visível, de um modo especial, a relação entre as Igrejas locais e a Igreja universal.

Os objetivos traçados para o ano da vida consagrada, traçados pela Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica ajudam a esta inserção na vida diocesana: «Fazer memória agradecida do passado», isto é, celebrar os 50 anos do Concílio Vaticano II; «Abraçar o futuro com esperança», no qual os consagrados devem, apesar da crise em que se vive, ser portadores de um mundo novo, baseados no Evangelho; «Viver o presente com paixão», evangelizando a própria vocação e testemunhando a beleza do seguimento de Cristo.

As tarefas próprias da sua especificidade são sinal, através do compromisso na ação, da transcendência no meio deste mundo. Pondo o Reino acima de tudo, elas orientam as pessoas para outros valores. O próprio caráter histórico dos carismas serve para, haurindo da Sagrada Escritura, em cada momento da história, abrir caminhos e dar respostas dinâmicas às realidades temporais: saúde, educação, cultura, atenção às novas formas de pobreza, mundo da juventude, da justiça… .

Por fim, a vida consagrada é um testemunho peculiar do amor de Deus no mundo, um caminho pelo qual se mostra, em ascese e contínua conversão, o amor de Deus ao homem concreto, e um serviço à própria humanidade a partir dos desígnios de Deus, para ir tornando presente, já aqui, o Reino como salvação da própria história.

No próximo dia 5 de janeiro de 2015 vamos celebrar os cinquenta anos da declaração de Santa Joana Princesa como Padroeira especial da diocese de Aveiro. A sua vida é um exemplo claro de como a vida consagrada é um caminho de perfeição e santidade. O estudo da sua vida e obra deve ser para cada um dos consagrados da nossa Diocese uma ocasião de maior compromisso por vivermos de um modo mais radical a nossa vocação.

Propostas de ação:

1º – Ao longo deste ano, procurarei visitar todas as comunidades de vida consagrada presentes na diocese. O programa delineado para estes encontros contempla um diálogo pessoal; uma reunião comunitária, onde procuraremos discernir o que o Espírito tem para nos dizer, em ordem à renovação pessoal e comunitária de cada um dos seus membros; celebração da Eucaristia, fonte da vida cristã e razão da nossa consagração.

2º – Sabendo o quanto a vida fraterna em comunidade é fundamental para a renovação da vida comunitária, propomos a Lectio Divina de catorze temas bíblicos, para começar em dezembro de 2014 e terminar em janeiro de 2016, para serem refletidos em comunidade, uma vez por mês.

Invoquemos a proteção de Maria, a Senhora do Sim, de Santa Joana Princesa, modelo de consagrada à causa do Reino de Deus, para que na fidelidade à nossa vocação saibamos descobrir e abrir caminhos de renovação e esperança.

 

Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz.

 

Onde há ódio, que eu leve o Amor;

Onde há ofensa, que eu leve o Perdão;

Onde há discórdia, que eu leve a União;

Onde há dúvida, que eu leve a Fé.

 

Onde há erro, que eu leve e verdade;

Onde há desespero, que eu leve a Esperança;

Onde há tristeza, que eu leve a Alegria;

Onde há trevas, que eu leve a Luz.

 

Oh Mestre, fazei que eu procure menos

Ser consolado do que consolar;

Ser compreendido do que compreender;

Ser amado do que amar.

 

Porque é dando que se recebe;

É perdoando que se é perdoado;

É morrendo que se ressuscita

Para a Vida Eterna.

 

Aveiro, 30 de novembro de 2014.

+ António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro.

 

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