Pages Navigation Menu

JESUS CHAMOU OS QUE ELE QUIS… ELES FORAM… E FICARAM

CARTA PASTORAL

JESUS CHAMOU OS QUE ELE QUIS… ELES FORAM… E FICARAM

 

O nosso Plano de Pastoral

  1. A nossa vida e a nossa presença no mundo são fruto dum chamamento divino, que deve ser reconhecido, acolhido e vivido. Falar da vocação é falar do caminho que cada pessoa percorre para construir a sua maneira própria de ser feliz e fazer felizes os outros. Cada pessoa possui uma missão ou vocação específica na vida. A sua concretização exige uma resposta. Esta Carta Pastoral, em consonância com o Plano Diocesano de Pastoral 2018-2021, com o lema Jesus chamou os que Ele quis… eles foram… e ficaram, é um convite a que cada um, e cada comunidade, procure compreender-se a si mesmo e ao seu projeto de vida à luz de Jesus Cristo, para reviver o despertar e a alegria da fidelidade à própria vocação.

Seguir Jesus é viver conduzido e animado pelo Espírito de Jesus. É refazer fiel e criativamente o caminho de Jesus, atualizando-o na nossa própria história. É viver e atuar movidos pelos mesmos valores que inspiraram e conduziram a vida de Jesus, e viver animado pela mesma confiança e esperança que O sustiveram ao longo da sua vida, paixão e morte. É realizar e atualizar no mundo de hoje as práticas do Reino de Deus realizadas por Jesus.

Neste triénio, pretende-se descobrir o dom da vocação como seguimento de Jesus, como resposta ao seu chamamento.

A opção por um triénio dedicado à vocação, ao seguimento de Jesus, faz-nos recentrar a vida da Igreja em Jesus – opção que a Igreja sempre tomou em tempos de crise e de dificuldade.

Seguir Jesus não é uma opção cuja iniciativa seja nossa: os discípulos são destinatários de um convite; é Ele quem toma a iniciativa. O conteúdo do convite é o próprio Jesus, por isso a resposta ao seu chamamento exige entrar na mesma dinâmica que Ele imprimiu à sua vida.

O que significa dizer que a vocação cristã é o caminho da santidade, e que todos somos chamados a ser santos? Recorda-nos o Papa Francisco: «Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais» (G et Ex 14).

 

  1. A VOCAÇÃO BATISMAL, CAMINHO DE SANTIDADE

 

O chamamento à vida

  1. A vida é, por si mesma, um chamamento. A nossa existência não é um mero acaso, mas um chamamento à vida por um ato do amor criador de Deus. Deus chama-nos à vida, através dos pais, e a ser pessoa, com as qualidades que caracterizam o ser humano.

Ao longo da existência, o homem buscou construir sentido para a sua razão de ser e de estar no mundo, e em todos os problemas que coloca a si mesmo é sempre a questão do sentido da vida: desde sempre se interrogou sobre a sua origem, a sua relação com os outros, com a história, com o Transcendente, com o seu ser no mundo, com o seu destino.

Aos poucos, a pessoa foi tomando consciência da sua singularidade e condição. Fomos criados para que nos realizemos como pessoas, nas relações que vamos estabelecendo com o mundo que nos rodeia. De Deus vêm o homem e a mulher, pessoas chamadas a tornarem-se um dom recíproco para que outros tenham vida. «Deus, que criou o homem por amor, também o chamou ao amor, vocação fundamental e inata de todo o ser humano» (CCE 1604). Uma vez que é criado à imagem e semelhança de Deus, a felicidade do homem, que depende da resposta que dermos para esta vida, só se pode realizar plenamente na total comunhão encontrada com o seu Criador.

O projeto de vida, mais do que uma vontade pessoal, implica a vontade de Deus e deve ser sempre de serviço e amor aos irmãos. «Para cada um a vocação ao amor adquire uma forma concreta na vida quotidiana, através de uma série de escolhas que estruturam a condição de vida (casamento, ministério ordenado, vida consagrada, etc.), a profissão, as modalidades de compromisso social e político, o estilo de vida, a gestão do tempo e do dinheiro, etc. Assumidas ou não, conscientes ou inconscientes, trata-se de escolhas das quais ninguém se pode eximir» (Instrumentum laboris, Os jovens, a fé e o discernimento vocacional. Sínodo dos Bispos 2018). A busca do sentido da vida e o que fazer no futuro é uma constante na vida de cada pessoa, e em especial dos jovens. Quando o homem não procura este sentido para a sua vida, vive uma frustração existencial.

Se a nossa vida é fruto de um chamamento, é dom que devemos a outros, devemos-lhe uma resposta. Nascemos para corresponder ao chamamento que Deus nos fez à vida. O primeiro chamamento é, sem dúvida, o chamamento à vida, depois, através do batismo, Deus chama-nos a ser cristãos, isto é, seus discípulos; depois chama para uma vocação específica na Igreja e na sociedade (cf. DGC 231). Criados homem e mulher à imagem de Deus, todos são chamados a viver como filhos de Deus. Somos criaturas, não somos deuses, mas trazemos em nós esta relação com o Criador.

 

A vida é uma missão

  1. Viver é sempre responder a um chamamento divino. Deus quis chamar-nos para cooperar com Ele e impelir-nos com a força do seu Espírito. Chamou os que ele quis. Ao longo da história, Deus foi chamando nas mais variadas circunstâncias: Moisés guardava o rebanho de Jetro, seu sogro… Samuel dormia… Pedro estava a pescar… Mateus estava na banca… Zaqueu em cima de uma árvore…

Todos temos o dom de Deus: o dom da vocação. Falar de vocação significa falar da realidade mais profunda da pessoa. A palavra vocação vem do vocábulo latino vocare, que significa chamar. É um chamamento de Deus a cada pessoa e que, uma vez descoberta a vocação, requer uma tomada de decisão livre e responsável. Deus toma a iniciativa e capacita-nos para a ação; a nós cabe apenas responder sim ou não ao seu chamamento. Esta convocação é a partir de outros, com os outros e para os outros; é missão. A vida só pode ser entendida na ótica da missão. O chamamento é para escutar Jesus e para segui-lo: partilhar da sua vida, da sua missão (fazer a vontade do Pai); missão que não consiste em fazer coisas, mas em ser sinal do amor de Deus no mundo. É mais importante o que fazemos da vida, do que aquilo que fazemos na vida.

Habitualmente, confunde-se vocação com profissão. A vocação nasce de uma voz interior e antecede a profissão. O cristão aprende a acolher numa perspetiva vocacional todas as escolhas da existência, sobretudo a do estado de vida, bem como as de carácter profissional. Profissão é o exercício de uma atividade que nem sempre está em conformidade com a vocação, mas que dignifica a pessoa quando é exercida com amor, espírito de serviço e responsabilidade. A vocação é o pulsar da verdadeira vida em nós; quando vivida na fidelidade e na alegria confere ao exercício da profissão uma beleza particular, e é caminho de santidade.

  1. A eleição, a filiação e a santidade estão intimamente unidas. A santidade não é só a meta, há de ser também o caminho. A vocação ou chamamento à santidade é uma chamada à pertença, à comunhão, à vinculação filial – o ponto de partida e de retorno para a missão. Como cada vocação é uma decisão que envolve a vida toda, temos de a enquadrar em três dimensões: em relação a Cristo, é um sinal; em relação à Igreja, é um mistério; em relação ao mundo, é uma missão e um testemunho a favor do Reino. «Para um cristão, não é possível imaginar a própria missão na terra, sem a conceber como um caminho de santidade, porque “esta é, na verdade, a vontade de Deus: a [nossa] santificação” (1Ts 4,3). Cada santo é uma missão; é um projeto do Pai que visa refletir e encarnar, num momento determinado da história, um aspeto do Evangelho» (G et Ex 19). Não é possível imaginar a própria missão na terra sem a conceber como um caminho de santidade. Ser santo não é privilégio de alguns. É vocação de todos. «Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade “ao pé da porta”, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da “classe média da santidade”» (G et Ex 7).

 

O homem à luz do mistério de Cristo

  1. Em Jesus Cristo encontramos a imagem de Deus e a imagem do homem. «Vede que prova de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus. E nós somo-lo» (cf. 1Jo 3,1). «Pois Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu único Filho…» (cf. Jo 3,16). O homem participa, desde o início, desta eleição filial e só se compreende na relação integral de escuta e comunhão com a pessoa de Jesus Cristo. O Papa S. João Paulo II, no início do seu ministério, afirmou: «O homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente (…) deve, com a sua inquietude, incerteza e também com a sua fraqueza e pecado, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. Ele deve, por assim dizer, entrar n’Ele com tudo o que é em si mesmo, deve ‘apropriar-se’ e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção, para se encontrar a si mesmo» (RH 10).

A obediência filial à voz do Pai conduz naturalmente a cumprir a missão recebida para ser membro de um povo enviado, sacerdotal, profético e de reis. «Se um de nós se questionar sobre “como fazer para chegar a ser um bom cristão”, a resposta é simples: é necessário fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das bemaventuranças. Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida» (G et ex 63).

Fazer a vontade de Deus envolve primariamente reconhecer a vocação que nos é dada por Ele e que vem sempre acompanhada dos talentos necessários para que ela seja cumprida. «A própria vida é vocação em relação a Deus» (VD 77). O que realmente dá sentido à nossa vida é o momento em que o sim de Deus e o sim do homem se encontram. Vocação é êxodo de si mesmo para centrar a nossa existência em Cristo e no seu Evangelho. O que vive esta vocação abre-se à novidade e põe-se a caminho. «Na diversidade e especificidade de cada vocação, pessoal e eclesial, trata-se de escutar, discernir e viver esta Palavra que nos chama do Alto e, ao mesmo tempo que nos permite pôr a render os nossos talentos, faz de nós também instrumentos de salvação no mundo e orienta-nos para a plenitude da felicidade» (Papa Francisco, 55º Dia Mundial de oração pelas vocações).

A exigência de estar no mundo, para os crentes, radica da sua participação no mistério de Cristo. «Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal (cf. 1Cor 12,7), e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele. Todos estamos chamados a ser testemunhas, mas há muitas formas existenciais de testemunho. (G et Ex 11). Ser cristão transforma a vida pessoal e comunitária, acrescentando-lhe uma nova dimensão – o seguimento de Cristo e a fidelidade ao seu Evangelho. Este seguimento passa por acolher o Evangelho tal como é proposto pelo Magistério da Igreja e não segundo as ideias ou os gostos de cada um, ou ditados por circunstâncias pessoais.

 

A vocação batismal e o encontro com Cristo

  1. A consagração batismal é incorporação do batizado na missão de Cristo. Ser batizado significa assumir uma identidade, a identidade de Cristo – a pessoa de Jesus e a sua proposta transformadora. O encontro com Jesus dá um renovado sentido à nossa vida e abre novos horizontes de existência. Em Jesus, o Deus vivo vem ao nosso encontro, partilha connosco o mistério do seu amor, para que tenhamos vida nova e eterna. Jesus Cristo torna-se o paradigma para os que querem seguir este caminho. Foi o que aconteceu com o chamamento de Zaqueu a uma vida nova:

«Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade. Vivia ali um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe de cobradores de impostos. Procurava ver Jesus e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura. Correndo à frente, subiu a um sicómoro para o ver, porque Ele devia passar por ali. Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa». Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus, cheio de alegria. Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um pecador. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais». Jesus disse-lhe: «Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão; pois, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido» (Lc 19,1-10).

Nesta narrativa apresenta-se um homem de nome Zaqueu, que responde ao chamamento de Jesus. Zaqueu é um publicano, cobrador de impostos, e um homem rico, alguém, portanto, que tem dificuldade em se desprender dos bens materiais, e que procurava ver quem era este homem que arrastava multidões.

Zaqueu é impelido pelo ‘desejo’. Movido por um desejo interior, deixa tudo o que está a fazer e corre à procura daquilo que o seu coração quer ver: ver Jesus. Jesus viu o desejo de Zaqueu… Ele queria ver o Mestre não por curiosidade mas porque estava fascinado por Ele. Quando se encontra com Jesus e os seus olhares se cruzam, Jesus faz-lhe uma proposta: “desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa”. Jesus queria ajudá-lo a ser feliz na comunhão com o Pai/Deus. Só quem experimenta a profundidade deste pedido e por ele se deixa tocar se torna capaz de proporcionar a outros a paixão pela intimidade com o Senhor Jesus. Zaqueu deixou que Jesus entrasse na sua vida e o transformasse. O encontro com Jesus provocou nele uma profunda conversão; deixou-se transformar pelo amor de Deus e de explorador dos pobres tornou-se um homem generoso, capaz de partilhar os seus bens com os pobres. Zaqueu, ao mudar de vida, dá testemunho daquilo que Jesus faz na sua vida, e por meio deste testemunho, anuncia, não com palavras, mas com a sua vida, a pessoa de Jesus e o que Ele realizou. Quem faz a experiência deste olhar de Jesus e ouve o seu chamamento encontra o sentido da vida. É Ele a Boa Nova que inaugura uma nova maneira de viver.

 

  1. Cada passagem do Evangelho é um convite de Jesus a segui-Lo, que põe o homem diante da interrogação fundamental: Que quero fazer da minha vida? Qual o meu caminho? A narração da vocação dos primeiros discípulos de Jesus (Jo 1,35-39) diz-nos isso mesmo. O amor divino é o acontecimento de um encontro que muda a vida de quem aceita entregar-se a este amor em Jesus. Quando João Batista indica Jesus como Salvador do mundo, João e André não hesitaram em segui-lo. Jesus faz-lhes uma única pergunta: “Que procurais?” (Jo 1,38). Pode parecer uma pergunta vulgar, mas ela vai ao íntimo da pessoa, como quem diz: o que vos move? Quais são os vossos anseios? De que andais à procura na vida? É pois uma pergunta cheia de sentido, um convite a olhar-se no mais profundo de nós mesmo. Por sua vez, eles respondem com outra pergunta que exprime o desejo de ficar com Ele: “onde moras?”. Morando juntos, experimentamos o relacionamento, partilhamos algo em comum, sentimo-nos família. Eles compreenderam que seguir Jesus é encontrar a verdadeira morada da própria vida. A resposta do Mestre é um convite a confiar e a fazer uma experiência de vida com Ele: “Vinde e vereis” (Jo 1,39). Os discípulos aceitam o convite, vão e permanecem, passando um dia inesquecível na companhia de Jesus. A impressão daquele encontro vai marcar para sempre a sua vida. S. João, um dos dois, passados muitos anos e ao escrever o quarto Evangelho, cita a hora exata daquele primeiro encontro: “Eram as quatro horas da tarde”, para os hebreus a hora das grandes decisões. A vocação é o encontro com Alguém, não com algo; é a recordação de uma hora que muda a vida quando se aceita estar com Ele e viver d’Ele, reconhecendo-o como Meu Senhor e meu Deus. O encontro com Jesus abre um novo horizonte e imprime um rumo decisivo à vida, dá origem a uma existência nova na comunhão com Cristo.

O chamamento de Deus é sempre um desafio. Sem uma experiência de encontro com Cristo não há interesse nem motivação para conhecer e aderir à sua mensagem. Os chamados foram, “viram onde Jesus morava e ficaram com Ele”. O ardor com que eles amavam a Cristo impelia-os a fazer com que outros também O amassem. É, pois, preciso procurar modos para abrir caminhos para que o Senhor possa falar e chamar. A vocação do homem não é para desempenhar uma função, mas para viver com o Filho, para descobrir e reconhecer a própria identidade filial, para ser filhos no Filho.

 

  1. Duas preocupações nos devem acompanhar. Primeira: renovar e aprofundar constantemente o encontro com o Senhor, procurá-lo cada dia sem cessar; segunda: levar os outros a experimentar este encontro e acompanhá-los no caminho do Evangelho. «Deixa que a graça do teu Batismo frutifique num caminho de santidade. Deixa que tudo esteja aberto a Deus e, para isso, opta por Ele, escolhe Deus sem cessar. Não desanimes, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida (cf. Gal 5,22-23)» (G et Ex 15).

Estas duas dimensões do encontro com Cristo podemos vê-las graficamente no episódio dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Também eles fizeram a experiência do encontro e foram anunciar o Ressuscitado aos outros discípulos, que, por sua vez, já tinham feito a mesma experiência.

Nunca o Ressuscitado é reconhecido logo à primeira. É necessário que se estabeleça uma relação interpessoal a partir de um gesto que Ele mesmo realiza: “Jesus em pessoa aproximou-se. Estavam cegos e não podiam reconhecê-Lo”. Há algo fundamental que impede estes dois discípulos de reconhecerem Jesus: “Nós esperávamos que fosse Ele o libertador de Israel”. Para eles, o Messias era um libertador político dos romanos e que vinha estabelecer o reino de David.

O viandante desconhecido explica-lhes longamente tudo o que se refere ao Messias, a começar em Moisés e nos Profetas. E fê-lo com paixão, segundo eles próprios o vão reconhecer mais tarde: “Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32).

Quando Jesus entrou para ficar com eles e se sentam à mesa, Jesus repete o gesto eucarístico: Palavra e Eucaristia levam-nos à fé. O que os discípulos viram e ouviram tem de ser experimentado na fração do pão; pão que sacia plenamente a fome de felicidade. Não basta buscar o pão de cada dia.

A vocação batismal ajuda-nos a entender melhor a íntima relação entre consagração e missão. A vocação inicial, o chamamento à santidade, realiza-se através das múltiplas opções da vida quotidiana. É através delas que Deus embeleza e dá forma à Igreja para que ela possa cumprir a sua missão. Todos temos de perguntar-nos: Qual a transformação que o encontro com Cristo operou na minha vida e na vida da minha comunidade? Seguir Cristo compromete. Aquele que se deixa guiar e plasmar pela fé da Igreja torna-se como uma janela aberta à luz do Deus vivo. Este testemunho leva-nos a ter que dizer como São Paulo: «Não que já o tenha alcançado ou já seja perfeito; mas corro para ver se o alcanço, (…) lançando-me para o que vem à frente» (Fl 3,12-13). A situação crítica da fé no mundo atual impele-nos a ir às fontes da nossa fé e a tornarmo-nos discípulos e testemunhas do Deus de Jesus Cristo de uma forma mais decidida e radical. Este encontro deve renovar-se constantemente pelo testemunho pessoal, pelo anúncio do querigma e pela ação missionária da comunidade. Urge evitar o contrasenso de acreditar em Deus e viver como se Deus não existisse.

 

A Vocação Laical

  1. A vocação laical é a primeira vocação na Igreja e a mais comum. Pelo facto de o batismo ser o sacramento que dá base e condição de existência à vida cristã, o fiel leigo encontra nele o caminho para pensar e viver a sua vocação e a sua identidade. «Por leigos entende-se aqui o conjunto dos fiéis, com exceção daqueles que receberam uma ordem sacra ou abraçaram o estado religioso aprovado pela Igreja, isto é, os fiéis que, – por haverem sido incorporados em Cristo pelo batismo e constituídos em Povo de Deus, e por participarem a seu modo do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo – realizam na Igreja e no mundo, na parte que lhes compete, a missão de todo o povo cristão» (LG 31). São chamados a viver a novidade radical trazida por Cristo precisamente no meio das condições normais da vida. «Todo e qualquer leigo, em virtude dos dons que lhe foram concedidos, é ao mesmo tempo testemunha e instrumento vivo da missão da própria Igreja ‘segundo a medida do dom de Cristo’ (Ef 4,7)» (cf. LG 36).

A vida laical é caracterizada pelo compromisso cristão dos leigos no mundo: na vida matrimonial, na família, na escola, no trabalho, na economia, na política, na comunidade. O específico desta vocação é a índole secular «O mundo torna-se assim o ambiente e o meio da vocação cristã dos fiéis leigos, pois também eles estão destinados a dar glória a Deus Pai em Cristo» (CfL 15). Não podemos separar os caminhos da santificação pessoal dos caminhos das ações concretas do dia a dia.

Devido às suas condições de vida, os leigos representam uma vocação especial para exercerem, como fermento, o seu apostolado de fé, esperança e caridade no meio do mundo. O leigo é, portanto, um membro pleno de uma comunidade onde o Espírito distribui os seus carismas com criatividade sempre surpreendente, fazendo com que todos e cada um se sintam responsáveis pela construção e crescimento dessa mesma comunidade. Eles são chamados a fazer brilhar a novidade e a força do Evangelho em todas as dimensões da vida. Os fiéis leigos devem convencer-se cada vez mais do particular significado que tem o empenhamento apostólico na sua paróquia.

 

A Iniciação Cristã

  1. A Iniciação Cristã é um processo através do qual uma pessoa é inserida no mistério de Cristo, morto e ressuscitado, tornando-se discípulo de Cristo através dos sacramentos do batismo, da confirmação e da eucaristia (cf. Leão Magno, De Batismo I,1). Esta iniciação levava o catecúmeno a fazer uma experiência profunda com Cristo e o seu Reino.

A iniciação à fé era feita em etapas, com ritos, celebrações, gestos e símbolos. Deus salva-nos através da Palavra, de gestos, de acontecimentos e de sinais, que são os mistérios da fé. O catecúmeno/catequizando tinha ritos e celebrações que o ajudavam a celebrar e a viver o que aprendera.

A Iniciação Cristã tem hoje dois itinerários diferentes: um para os adultos e outro para as crianças. Um adulto que deseje ser batizado tem de fazer uma caminhada catecumenal, no fim da qual recebe, numa mesma celebração, os três sacramentos da Iniciação Cristã: batismo, eucaristia e confirmação.

Para as crianças em idade de catequese, situação que entre nós é cada vez mais frequente, propõe-se um itinerário de iniciação próprio, muito semelhante ao dos adultos, mas adaptado ao seu nível etário e às suas capacidades. A verdade da iniciação pede que o batismo e a eucaristia das crianças em idade de catequese se faça numa mesma celebração, procurando, tanto quando possível, que os candidatos se aproximem dos sacramentos da iniciação na mesma altura que os seus companheiros já batizados são admitidos à eucaristia (cf. RICA 311) A confirmação deve acontecer no momento em que o seu grupo de catequese a celebre.

Os pais também estão presentes, pois a eles pertence ajudar os filhos a crescer na fé – sendo também para estes oportunidade para uma maior aproximação com a comunidade cristã e, ao mesmo tempo, momento para aprofundamento da sua própria fé cf. RICA 308).

O livro litúrgico próprio para a receção dos sacramentos da Iniciação Cristã, quer dos adultos quer das crianças em idade de catequese, é o Ritual da Iniciação Cristã de Adultos.

Diferente é o caso do batismo das crianças, que «por não terem chegado ainda ao uso da razão, não podem professar fé própria» se deve utilizar o Ritual da Celebração do Batismo (cf. Preliminares 1). O batismo deve conferir-se com este Ritual até as crianças terem o uso da razão que, entre nós, é iniciarem a catequese paroquial ou a sua matrícula na escola.

 

  1. A VOCAÇÃO DA FAMÍLIA: COM O OLHAR FIXO EM JESUS

 

A vocação para o matrimónio

  1. A vocação essencial do homem concretiza-se no ser para o outro. É por meio do outro que o homem se encontra a si mesmo. «Não é bom que o homem esteja só» (Gn 2,18). A vocação à relação, ao amor, foi, desde o princípio, inscrita por Deus no coração de cada pessoa.

No primeiro par humano, o ser humano afirma-se como alguém que se descobre e constrói na relação com o outro. O matrimónio é uma instituição natural inscrita por Deus Criador no coração de cada homem e de cada mulher: «O homem deixará pai e mãe para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne» (Gn 2,24). Esta total relação vincula a doação de um ao outro com a finalidade de cada um dar ao outro algo de si mesmo: “Eu recebo-te por minha esposa/marido e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida”. Amar é, pois, sair de si para ir ao encontro do outro e fazê-lo feliz em todas as circunstâncias.

Esta comunhão de vida e de amor do homem e da mulher, que na sua complementaridade física e espiritual garantem a transmissão da vida, é o núcleo fundamental da vocação comunitária da humanidade e, por isso mesmo, sua célula fundante e fundamental. «Portanto, o olhar da Igreja volta-se para os esposos como o coração da família inteira, que, por sua vez, levanta o seu olhar para Jesus» (AL 78).

O valor fundamental do matrimónio é o amor. O matrimónio é o ícone do amor de Deus por nós. A vocação matrimonial é ser no mundo um sinal de que Deus nunca desiste de amar o ser humano, porque, «em virtude do sacramento, os esposos são investidos numa autêntica missão, para que possam tornar visível, a partir das realidades simples e ordinárias, o amor com que Cristo ama a sua Igreja, continuando a dar a vida por ela» (AL 121).

O matrimónio é, no pleno sentido da palavra, um chamamento específico à santidade dentro da comum vocação cristã. Os esposos cristãos encontram na vida matrimonial e familiar a matéria da sua santificação pessoal, isto é, da sua pessoal identificação com Jesus Cristo: sacrifícios e alegrias, gozos e renúncias, o trabalho no lar e fora dele; são os elementos com que, à luz da fé, constroem o edifício da Igreja. «O matrimónio é uma vocação, sendo uma resposta à chamada específica para viver o amor conjugal como sinal imperfeito do amor entre Cristo e a Igreja. Por isso, a decisão de se casar e formar uma família deve ser fruto de um discernimento vocacional» (AL 72).

A comunhão do homem e da mulher pode caminhar para a sua perfeição, porque Deus faz parte dessa comunhão. Acresce, porém, falar positivamente da família e do sacramento do matrimónio, pois a família é uma boa notícia para o mundo.

 

A importância da família na vida do ser humano

  1. O encontro entre um homem e uma mulher, a partir do amor e da decisão de constituírem uma família, partilhando alegrias e tristezas, contrariedades e sonhos, faz parte do projeto de Deus. A família é fruto e expressão do matrimónio, tem início na comunhão conjugal, na qual o homem e a mulher “mutuamente se dão e recebem um ao outro”.

O casal humano nasce com a vocação de formar uma comunhão de vida no amor, seja para amparo mútuo, seja para a procriação. Abençoando os novos seres, Deus diz-lhes: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra» (Gn 1,28). Deste modo, os esposos tornam-se cooperadores com Deus no dom da vida a uma nova pessoa humana. «A fecundidade é o fruto e o sinal do amor conjugal, o testemunho vivo da entrega plena e recíproca dos esposos» (FC 28).

A família é chamada a ser berço da vida, a concretização da vocação matrimonial e coração da civilização do amor. É na família que se encontra e desenvolve a vida humana e cristã, que fazemos a aprendizagem quando nos aceitamos uns aos outros com o nosso coração, a nossa personalidade e as nossas aspirações. Os pais, com o seu exemplo de vida e a palavra, são os primeiros e os mais determinantes educadores, procurarão que os filhos se desenvolvam, com equilíbrio e harmonia, na disposição de viver com fidelidade a vocação recebida de Deus, educando-os para o amor e despertar o desejo latente nos seus corações.

A família é o lugar natural onde se aprende a viver com Deus. Foi o ambiente que Deus elegeu para que o seu Filho crescesse. «Desceu com eles, voltou para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração. E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (Lc 2,51-52). Jesus cresce em graça e em sabedoria sob o olhar dos pais, dos parentes e dos amigos, ouvindo as histórias e partilhando as preocupações de todos. Através dos gestos quotidianos dos seus pais, Jesus aprende e amadurece a sua missão. Anunciar o projeto de amor do Pai e apontar aos homens os caminhos da vida definitiva encontra na família um espaço privilegiado para se expressar, para crescer e para se desenvolver. A vocação de José e de Maria foi mostrar que Jesus, contra toda a expectativa, era o Salvador. A família é, também, a primeira experiência de Igreja que uma pessoa recebe, pois nela a pessoa recebe uma primeira e elementar iniciação à fé, recebe os sacramentos mais importantes e tem a primeira experiência da caridade.

A força da família reside essencialmente na sua capacidade de amar e ensinar a amar. A aliança de amor e fidelidade na qual vive a Sagrada Família de Nazaré ilumina o princípio que dá forma a cada família, tornando-a capaz de enfrentar as vicissitudes da vida. Como comunidade de fé que encontra a sua raiz no batismo e no sacramento do matrimónio, a família é chamada à santidade «Sede santos, diz o Senhor, porque Eu sou santo» (Lv 11,45; cf. 1Pd 1,16). Esta vocação à santidade concretiza-se por meio da caridade conjugal. Como refere o Papa Francisco na exortação apostólica A Alegria do Amor (cf. 315-317), a realidade humana que participa mais de perto na vida íntima e na fecundidade criadora de Deus é a família: chamados a serem imagem da comunhão que existe entre as três pessoas da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo; eles são a imagem da união entre Cristo e a Igreja sua esposa (cf. Ef 5,32); e são eles que participam diretamente no poder criador de Deus quando geram os filhos e os ajudam a crescer.

Ainda que esteja desestruturada ou a passar por momentos difíceis, a família não deixa de ser a referência da vida de cada homem ou mulher.

 

A família, igreja doméstica

  1. À maneira da família de Jesus, toda a família é portadora de uma mensagem. A igreja doméstica oferece ao mundo a realidade recebida e torna-se, ela mesma, um modelo, um estilo de vida. «Com o testemunho e também com a palavra, as famílias falam de Jesus aos outros, transmitem a fé, despertam o desejo de Deus e mostram a beleza do Evangelho e do estilo de vida que nos propõe. Assim os esposos cristãos pintam o cinzento do espaço público, colorindo-o de fraternidade, sensibilidade social, defesa das pessoas frágeis, fé luminosa, esperança ativa. A sua fecundidade alarga-se, traduzindo-se em mil e uma maneiras de tornar o amor de Deus presente na sociedade» (AL 184).

As tarefas que a família é chamada a desenvolver brotam do seu próprio ser e manifestam o seu desenvolvimento dinâmico e existencial. Pela sua especificidade, a missão das famílias cristãs é um verdadeiro ministério: são chamadas a testemunhar o amor na abertura às necessidades eclesiais e do mundo. Os pais não só comunicam o Evangelho aos filhos, mas podem receber deles o mesmo Evangelho profundamente vivido. «A própria vida da família torna-se itinerário de fé e, em certo modo, iniciação cristã e escola dos seguidores de Cristo» (FC 39). Está vocacionada para enriquecer e promover, com os seus próprios dinamismos de amor e de comunhão, um clima de fé e oferecer o ambiente próprio para uma saudável educação humana, afetiva e cristã: gerar testemunhos capazes de mostrar a beleza e a santidade da vocação conjugal e familiar. «A beleza do dom recíproco e gratuito, a alegria pela vida que nasce e a amorosa solicitude de todos os seus membros, desde os pequeninos aos idosos, são apenas alguns dos frutos que tornam única e insubstituível a resposta à vocação da família, tanto para a Igreja como para a sociedade inteira» (AL 88).

A família é o primeiro ambiente humano onde se forma o homem interior. «Diante das famílias e no meio delas, deve ressoar sempre de novo o primeiro anúncio, que é o mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário e deve ocupar o centro da atividade evangelizadora» (AL 58). Como tal, cada família deve aprender a viver e a conjugar os tempos do trabalho com aqueles da festa. O Domingo, dia do Senhor, dia  da escuta da Palavra e participação na Eucaristia, é um tempo privilegiado para a construção familiar como realidade de comunhão e abertura à comunidade e à caridade. Será, pois, para o casal e para a família, uma fonte de permanente renovação do amor que impedirá o desgaste, o cansaço e o desencanto a que poderá estar sujeita a vida conjugal e familiar. A Palavra de Deus é fonte de vida e espiritualidade para a família. Para desenvolver a espiritualidade da comunhão é preciso prever tempos de encontro e de partilha comunitária.

Queridos por Deus, o matrimónio e a família estão interiormente ordenados a complementarem-se em Cristo e têm necessidade da sua graça para serem curados de todas as feridas.

Neste sentido, é fundamental ajudar os jovens a descobrir a sua vocação, acompanhar os noivos no seu itinerário de fé, ajudar os esposos a descobrirem as verdadeiras dimensões da vida, apoiar os casais a construir uma comunhão e apoiar os pais na criação e educação dos filhos, e que os casais se ajudem uns aos outros na construção da comunidade familiar.

 

Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade

  1. O Papa Francisco ofereceu à Igreja, no final dos dois sínodos dos bispos sobre a família no mundo atual, a Exortação Apostólica Amoris Laetitia. Numa linguagem simples e concreta, o Papa Francisco conduz-nos a descobrir antes de mais a beleza e o valor do matrimónio cristão como obra-prima e graça de Deus criador para constituir uma família feliz. Matrimónio e família são um dom de Deus e, simultaneamente, uma vocação e missão específica do ser humano «A alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja» (cf. AL 1).

Como sinal vivo e concreto do amor e da salvação de Deus, que a família é chamada a ser no seio da comunidade, é imprescindível que as famílias cristãs sejam instrumento e incentivo à evangelização da família pela própria família. Seria importante que, nas paróquias, se criassem grupos de casais e revitalizassem movimentos e grupos que ajudassem no acolhimento das pessoas e na ajuda às famílias que vivem com dificuldades, nomeadamente de compreensão perante o modelo de família que constituem. Estas dificuldades com que as famílias se deparam devem-nos levar a pensar e repensar a realidade e formas de atuar, nomeadamente quando há vínculos que ainda as ligam à suposta alegria de ser família em Igreja: pedido dos sacramentos, envio dos filhos à catequese… Mais do que incrementar a tensão que já se vive no seio de muitas famílias, acolher, respeitar, compreender, integrar e ajudar são gestos que a diocese, as paróquias não podem descurar. “Se alguém quiser seguir uma moção do Espírito e se aproximar à procura de Deus, não esbarrará com a frieza de uma porta fechada” (EG 47).

A Exortação Amoris Laetitia propõe à missão de pastores cuidar sobretudo de quatro pontos mais urgentes do ponto de vista pastoral: a preparação para o matrimónio, o acompanhamento dos casais jovens, o apoio à família na transmissão da fé, a maior integração eclesial dos divorciados a viver em nova união (cf. Documento Acompanhar, Discernir, Integrar a fragilidade da Diocese de Aveiro, aprovado em 26/11/2017).

 

III. ENVIADOS PARA ANUNCIAR O EVANGELHO DE JESUS

 

A vocação, uma experiência de sedução

  1. Saber-se chamado pessoalmente por Deus é a experiência-chave de toda a vocação e de todo o projeto de vida. Somos fruto de um pensamento e de um ato de amor de Deus, que pensou em cada um de nós ainda antes de existirmos. «Quando ainda estava no ventre materno, o Senhor chamou-me, quando ainda estava no seio da minha mãe, pronunciou o meu nome. Fez da minha palavra uma espada afiada, escondeu-me na concha da sua mão. Fez da minha mensagem uma seta penetrante, guardou-me na sua aljava. (…) O meu Deus tornou-se a minha força. Disse-me: «Não basta que sejas meu servo, só para restaurares as tribos de Jacob, e reunires os sobreviventes de Israel. Vou fazer de ti luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra» (Is 49,1-6).

A vocação, qualquer que ela seja, é sempre um mistério pessoal, uma experiência única. É sempre Deus que chama, dos mais variados modos, através dos mais variados meios e em qualquer idade: «Seduziste-me Senhor, e eu deixei-me seduzir» (Jer 20,7). A vocação é, portanto, uma sedução, uma conquista do coração (Os 2,16) por parte de Deus para uma vida de comunhão com Ele.

O Senhor, que pronunciou com infinita ternura o nome de cada um desde o ventre materno, quer fazer de nós luz para as nações; quer que a nossa vida resplandeça no mundo a luz que Ele mesmo infundiu no mais íntimo de nós mesmos. Porém, para descobrirmos essa luz, que somos chamados a partilhar, devemos conhecer-nos a nós mesmos: por entre sentimentos e emoções, memórias e conhecimentos, dúvidas e medos, desejos e aspirações, capacidades e limitações. Deixar-se seduzir e ‘apanhar’ por Jesus, é o primeiro passo para transformar e encontrar a vida. O esforço para formar uma atitude pessoal de escuta, aliado ao silêncio, abre-nos aos outros e, de modo especial, à ação de Deus em nós e no mundo. «Tudo posso naquele que me fortalece» (Flp 4,13).

Ao abordarmos o tema da vocação, não podemos esquecer o contexto cultural atual: uma cultura originada pelo individualismo, pelo vazio de valores e referências, pela precariedade, pela indecisão, em que não é necessário combater Deus, mas simplesmente se prescinde d’Ele; um homem confrontado com os limites das ciências e da técnica, seduzido socialmente e voltado para si mesmo. «Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem» (EG 1). Por sua vez, os jovens têm receio e medo de fazer opções e assumir compromissos exigentes e duradoiros. Derivado da cultura dominante, sente-se a falta de uma cultura vocacional que se repercute em vários âmbitos: crise da vocação ao matrimónio, à vida política, à vida associativa…

Não obstante a fé cristã já não ocupar um lugar de relevo na vida real, não deixa de ser verdade que as novas gerações têm uma atitude alegre e festiva diante da vida, procuram dar um sentido às suas vidas… e continuam a colocar-se as grandes questões sobre a existência humana. «O mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente […] Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime» (GS 22).

O projeto de Deus para uma pessoa não é algo preestabelecido, mas um apelo que se faz através de mediações concretas. Deus respeita a originalidade e a peculiaridade de cada pessoa. Na resposta que dela espera, a nós cabe-nos motivar e estimular cada ser humano a dizer sim a Deus com a peculiaridade que lhe é própria.

 

A vocação e o seguimento de Cristo

  1. Deus chama para enviar. Os discípulos por excelência são os Doze, grupo formado pelos que Jesus chamou pelo próprio nome (Mc 3,13-19), os que o acompanharam sempre como testemunhas do que fez e disse, para serem enviados a anunciar e tornar presente o reinado de Deus (Mc 6,7-13).

Jesus faz dois chamamentos com a mesma finalidade: o seguimento. O primeiro chamamento é bem conhecido. «Passando ao longo do mar da Galileia, viu Simão e André, seu irmão, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. E disse-lhes Jesus: “Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens”. Deixando logo as redes seguiram-no. Um pouco adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco a consertar as redes, e logo os chamou. E eles deixaram no barco seu pai Zebedeu com os assalariados e partiram com Ele» (Mc 1,16-20). Este primeiro chamamento não se completa até que Jesus convoque o grupo dos Doze (Mc 3,13-19). Este convite tem como finalidade estarem com Ele e serem enviados a anunciar a boa notícia.

O segundo chamamento de Jesus aos discípulos é uma cena de fundo com conteúdo vocacional. Jesus, a sós com eles, pergunta-lhes o que é que as pessoas dizem dele e o que é que eles próprios dizem. Diante da pergunta de Jesus, Pedro, em nome de todos, responde: «Tu és o Messias» (Mc 8,29). Esta resposta parece não ser satisfatória, e Jesus proibe-lhes que falem acerca dele (Mc 8,27-30). Falava-lhes abertamente, pela primeira vez, do caminho para a cruz (Mc 8,31-32). Jesus volta a ensinar-lhes e refere-se à sua paixão, morte e ressurreição. Pedro tem uma reação inesperada, não é possível conceber um Cristo que sofre e morre: Pedro pensa realmente como os homens e não como Deus (Mc 8,33).

Este segundo chamamento é um convite a seguir Jesus, dirigido não só a Pedro, mas a todos. Depois do chamamento à vida, somos chamados à filiação divina, tornando-nos filhos adotivos de Deus através do sacramento do Batismo. Somos também chamados à santidade (cf. Ef 1,4-5; Mt 5,48) e à escolha de um estado de vida. Como o batismo de Jesus no Jordão representou o início da sua missão profética, assim o batismo cristão é a fonte e a origem de toda a vocação. Todos, ao serem batizados, recebem o mesmo Espírito que animou a vida de Jesus; assumem os desafios da humanidade. Pelo batismo fomos sepultados com Cristo na sua morte para sermos pessoas ressuscitadas, plenas de vida nova no amor e na verdade (cf. Rm 6,4-11). Pela água da fonte batismal todas as pessoas são enxertadas em Cristo (cf. Rm 6,3), inseridas no seu Corpo (cf. 1Cor 12,13) para, na diversidade de carismas (cf. 1Cor 12,4-31), servirem à comunidade e à humanidade. A vocação é, antes de tudo, chamamento para o seguimento de Cristo. Mas, ao mesmo tempo, esta graça batismal permite e exige a diferença e a diversidade de carismas, ministérios e funções. Cada batizado é chamado a uma vocação específica e realiza-a em diferentes estados da vida, por caminhos específicos apontados por Deus: o ser padre, pai, mãe, solteiro, religioso, leigo.

  1. O seguimento é a única resposta ao amor incondicional de Jesus. A relação pessoal com Jesus, a identificação com Ele, com o seu projeto e caminho, é o que define o discípulo. Pedro e seu irmão André deixam imediatamente as redes da pesca e seguem Jesus; Tiago e João deixam o pai Zebedeu com os assalariados na barca e partiram com Ele; Levi deixa a oficina de cobrança de impostos e segue-O (Mc 1,16; 1,19-20; 2,14). O chamamento supõe em quem o recebe a capacidade de elaborar um projeto de vida que possa ser criativamente vivido como resposta ao chamamento de Deus. Não é apenas um convite ao seguimento, mas também uma convocação a permanecer no seu amor (Jo 15,9), a assumir o projeto do Reino de Deus e a participar da sua missão – a de caminhar ao encontro do Ressuscitado. O discípulo é, pois, alguém apaixonado por Cristo, a quem reconhece como o mestre que o conduz e o acompanha ao longo da sua vida.

Ser discípulo de Jesus implica despojamento e renúncia. Não poderemos descobrir a chamada especial e pessoal que Deus pensou para nós, se ficarmos fechados em nós mesmos. Quando Deus chama, e chama cada pessoa a uma missão concreta, está no fundo do seu chamamento um convite a seguir um caminho que não está isento da cruz: «Se alguém quer seguir-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me» (Mc 8,34). É o chamamento para seguir Jesus Cristo, assumindo existencialmente as suas condições de vida, com a capacidade de amar – um caminho de amor em crescendo e de discernimento. Sendo convite para uma relação de intimidade com a Trindade, a vocação é chamamento para amar, chamamento ao serviço (1Jo 4,7-21; Mc 10,45). Somos chamados a seguir Jesus, a pessoa e a mensagem de vida (cf. Lc 9,57-62; 14,25-27; 18,18-30); a viver as bemaventuranças (Mt 5,1ss; 6,20-38) e a realizar os valores do Reino; a dar continuidade à sua obra e missão na terra (Mt 28,16-20; Mc 16,15-20; Jo 20,21-23); a anunciar a esperança do reino futuro (Lc 21,29-36).

O caminho do seguimento de Cristo é chamamento à comunhão e participação; comporta sempre uma missão que se realiza na especificidade das relações familiares, eclesiais e sociais. Ao sermos chamados a qualquer estado de vida (sacerdotal, consagração, matrimonial) assumimos um compromisso específico com a comunidade humana, de ajudá-la a encontrar a felicidade. Se é verdade que o único e mesmo Espírito distribuiu os seus dons a cada um conforme ele quer (1Cor 12,11), também é verdade que todo o dom é para utilidade de todos, para o bem da comunidade (1Cor 12,7). Esta visão do seguimento de Cristo como chamamento à comunhão e à participação leva-nos a descobrir a vida de fraternidade, de caridade. A nossa vocação é um chamamento para amar a Deus, mas não ama a Deus quem não ama o seu próximo (1Jo 4,20). É esta vida de comunhão que dá autenticidade à nossa vocação.

Para que o discípulo amadureça no conhecimento e seguimento de Jesus, deve alimentar-se: da Palavra de Deus, que é caminho de autêntica conversão e renovação; da Eucaristia, lugar privilegiado do encontro do discípulo com Jesus Cristo; da oração pessoal e comunitária, o lugar onde o discípulo, alimentado pela Palavra e pela Eucaristia, cultiva uma relação de profunda amizade com Jesus Cristo; e no encontro com os pobres, os aflitos e os enfermos, com quem Jesus se identifica na parábola do Juízo Final (cf. Mt 25).

Temos de sair de nós mesmos, das nossas certezas, dos nossos hábitos, dos nossos ambientes. Para promover a glória de Deus e a salvação de todos «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura… Eu estarei convosco» (Mc 16,15).

 

A Vocação Sacerdotal

  1. Uma pessoa só vive a sua vocação cristã fundamental numa vocação específica. Entre aqueles que O seguem, Jesus escolhe alguns para um especial ministério. É o que se encontra de modo evidente na vocação dos apóstolos: «Elegeu doze para andarem com Ele e para os enviar a pregar, com o poder de expulsar demónios» (Mc 3,14-15), convidando-os a tomar conta do seu rebanho (cf. Jo 21,15-19); e no chamamento de Paulo, «servo do Senhor Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o Evangelho de Deus» (Rm 1,1; cf. 1Cor 1,1).

O Filho, caminho que conduz ao Pai (cf. Jo 14,6), chama todos aqueles que o Pai lhe deu, isto é, os que correspondem ao seu desígnio, a um seguimento que dá orientação à sua existência. Todos, na Igreja, são consagrados no batismo e na confirmação, mas o ministério ordenado e a vida consagrada supõem, cada qual, uma distinta vocação e uma forma específica de consagração, com vista a uma missão peculiar (VC 31). A alguns, Cristo pede uma adesão total, que implica o desapego de tudo (cf. Mt 19,27) para viver na intimidade com Ele e segui-lo para onde quer que vá.

Na origem da vocação sacerdotal está uma espécie de eleição que Deus faz livremente, e fora de toda a consideração meramente humana, a favor de uma pessoa em relação à entrega de uma missão: «Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e dar muito fruto, e fruto que permaneça» (Jo 15,16).

No Novo Testamento verificamos a preocupação dos apóstolos em providenciar para que, depois da sua morte, seja continuada a missão pastoral que Cristo lhes confiou. Eles mesmos confiaram-na, por sua vez, a homens ‘provados’, seus colaboradores, assistidos pelo Espírito, a quem mais tarde se chamou “bispos” (cf. At 20,25-28; Tit 1,5; 2Tim 1,6). Estes, por sua vez, associaram à sua missão outros colaboradores chamados “presbíteros”, cuja vocação é seguir Jesus, único e verdadeiro sacerdote.

O ministério ordenado não é uma mera função. Na continuidade do ministério apostólico, é chamado a testemunhar a prioridade da iniciativa divina no acontecimento da salvação, é o sinal carismático (imprime carácter) de que a salvação é dom de Deus e não conquista humana. A ordenação confere sacramentalmente um carisma e uma missão: não há carisma sem missão e nem missão sem carisma. A vocação dos ministros ordenados (bispo, presbítero e diácono) é a do serviço na e para a comunidade à volta da Eucaristia, raiz e eixo de toda a comunidade cristã. O diaconado faz parte do ministério ordenado, mas não lhe cabe a representação de Cristo como “cabeça e pastor”. É colocado «perante a Igreja como prolongamento visível e sinal sacramental de Cristo no seu próprio estar diante da Igreja e do mundo, como origem permanente e sempre nova da salvação» (PDV 16).

  1. O ministério ordenado habilita o presbítero a agir in persona Christi. A sua missão não é dele, mas é a própria missão de Jesus. E isto é possível não a partir de forças humanas, mas só com o dom de Cristo e do seu Espírito mediante o “sacramento”: «Recebei o Espírito Santo; a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos» (Jo 20,22-23). Afirma a Exortação Apostólica Pastores dabo vobis: «Os presbíteros são, na Igreja e para a Igreja, uma representação sacramental de Jesus Cristo Cabeça e Pastor…» (PDV 15) – pastor segundo o coração de Deus. Pelo dom que recebem no sacramento da Ordem, os bispos e os presbíteros, configurados à imagem do bom pastor ou do mestre que lava os pés dos seus discípulos, tornam-se sinal visível e eficaz da presença e da presidência de Cristo, bom pastor, à sua Igreja. Por meio do gesto da imposição das mãos, que transmite o dom do Espírito, tornam-se testemunhas qualificadas e autorizadas de Jesus Cristo. Tornam atual a salvação operada por Jesus «Fazei isto em memória de mim» Lc 22,19; 1Cor 11,24). São chamados a colocar-se ao serviço do Evangelho e do povo de Deus e habilitados a continuar o mesmo ministério de reconciliar, de apascentar o rebanho de Deus e de ensinar (cf. At 20,28; 1Ped 5,2). O presbítero é também representante da Igreja (atua in persona ecclesiae), condensa o que a Igreja é chamada a ser e a fazer. Representa e testemunha a comunidade a que preside, dirigindo-a, alimentando-a com a Palavra e fortalecendo-a com os sacramentos.

Duas dimensões devem estar sempre presentes na vida dos sacerdotes e diáconos (o mesmo se diga dos consagrados): a dimensão humana e a dimensão espiritual. É essencial estar presente e próximo dos irmãos e consciencializar-se que a identidade presbiteral não se mede por aquilo que o sacerdote faz nem pelo modo como organiza a paróquia, mas sim em ser discípulo verdadeiramente enamorado do Senhor, cuja vida e ministério se fundam na íntima relação com Deus, ao mesmo tempo que a ideia de ‘funcionário’ dá lugar a uma verdadeira configuração a Cristo, Bom Pastor.

 

O Seminário, coração da Diocese

  1. O Seminário é o coração da Igreja aveirense. Enquanto comunidade edificada por Cristo, a nossa diocese de Aveiro deve dar muitas graças a Deus por este dom: a comunidade formativa que vive em Lisboa e em Aveiro, o pré-seminário, a pastoral das vocações sacerdotais e até pela beleza do edifício. Dedicado ao Coração de Jesus, o nosso Seminário de Santa Joana deve estar, cada vez mais, no centro das nossas alegrias e preocupações.

O pedido de Jesus «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos; por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe» (Lc 10,2), tem de despertar e ressoar profundamente na nossa vida de discípulos de Jesus e na vida de todas as comunidades cristãs da nossa Diocese. Ninguém se pode excluir desta missão; é necessário continuar a chamar porque a seara onde o Evangelho se semeia é o mundo, e os operários são poucos para a dimensão da messe. Este mandato de Jesus «pedir que haja operários…» não é exclusivo do bispo, dos sacerdotes, diáconos ou consagrados, mas sim uma obrigação de todos. A nossa Diocese pode e deve empenhar-se mais nesta nobre missão da vida da Igreja; estamos numa área geográfica populosa, onde há bastantes crianças e jovens, pelo que temos de promover uma cultura vocacional em todos os setores da vida diocesana.

A forma de nos tornarmos presentes é o empenhamento a intensificarmos a oração ao «Senhor da messe, para que mande operários para a sua seara» (Lc 10, 2), o acompanhamento, por parte das paróquias, da vida do seminário, a proximidade com os seminaristas e a partilha das necessidades do Seminário. Lanço o desafio para que em todas as paróquias se criem grupos de oração pelo nosso Seminário.

 

A Vocação de Consagração

  1. A designação “Vida Consagrada” refere-se a um conjunto de carismas e instituições nas quais podemos englobar: ordens e institutos religiosos dedicados à contemplação ou às obras de apostolado; sociedades de vida apostólica; institutos seculares e outros grupos de consagrados; formas novas ou renovadas de vida consagrada; a ordem das virgens, as viúvas e os eremitas consagrados; e todos aqueles que, no segredo do seu coração, se entregam a Deus com uma especial consagração (cf. VC 2).

A vida consagrada, que reflete o próprio modo de viver de Cristo, é como uma árvore que se desenvolve de forma admirável e frondosa no campo do Senhor e, a partir de uma semente lançada por Deus, vai-se desenvolvendo e aperfeiçoando nas mais variadas formas que a constituem: monástica, mendicante e apostólica. É um estado de vida caracterizado pela prática dos conselhos evangélicos (pobreza, obediência, castidade) para, deste modo, tornarem mais visível o ser discípulos de Cristo. Os consagrados têm, por esta razão, um lugar especial na vida da Igreja e constituem uma riqueza no corpo eclesial, que não deixa de nos surpreender cada dia com novas formas de consagração. Pela sua consagração, não se tornam estranhos à humanidade ou inúteis para o mundo. Estão presentes nele de um modo profundo e cooperam espiritualmente com os homens para que a cidade terrena se funde sempre em Deus e se dirija para Ele.

Ciente da riqueza que constitui, para a comunidade eclesial, o dom da vida consagrada na variedade dos seus carismas e das suas instituições, espera-se que alimentem o desejo de uma comunhão cada vez mais plena entre os cristãos, para que o mundo creia.

 

  1. ALGUNS DESAFIOS PASTORAIS PARA SERMOS DISCÍPULOS DE JESUS

 

1º Descobrir o caminho que Deus pede à nossa Diocese de Aveiro

  1. O caminho só se faz caminhando. Jesus, depois de ter chamado os discípulos, propôs-lhes, com palavras e com gestos, o mistério e a realidade do Reino de Deus. Agora, envia-os ao mundo para testemunhar e anunciar este Reino. Não escondeu que encontrariam dificuldades. Esta situação desafia-nos profundamente a imaginar e organizar novas formas de ser Igreja e a pensar a reorganização das comunidades cristãs.

Toda a renovação autêntica exige coragem, dinamismo e conversão interior de pessoas e estruturas. «Como podemos despertar a grandeza e a coragem de escolhas de amplo alcance, de impulsos de coração para enfrentar desafios educativos e afetivos?”. Já repeti muitas vezes: arrisca! Arrisca! Quem não arrisca não caminha. “Mas se eu errar?”. Bendito o Senhor! Errarás mais se permaneceres parado, parada» (Papa Francisco, Discurso na Villa Nazareth, 18/6/2016). É este o desafio que a todos se nos coloca; ter a audácia suficiente para romper com certos preconceitos, medos e comodismos. A alegria do Evangelho é a nossa missão. Em fidelidade a Cristo e à missão confiada à Igreja, exorto todos os fiéis, em particular os jovens, para que tenham o coração aberto ao chamamento do Senhor Jesus que convida a segui-lo – a enamorarem-se por Cristo.

 

2º Fortalecer a Iniciação Cristã como caminho para ser discípulo

  1. A resposta ao chamamento supõe um caminho de fé. Só é possível haver na Igreja vocação sacerdotal, religiosa ou laical se houver educação da fé. Num mundo jovem muito diferenciado, apesar do desinteresse e da apatia dos jovens em termos de fé, não faltam sinais de esperança, de vitalidade religiosa e espiritual, que se podem aproveitar se soubermos ser criativos, permanecendo fiéis ao que queremos transmitir. Temos de garantir a transmissão do núcleo fundamental da nossa fé: o mistério de Cristo morto e ressuscitado. A Iniciação Cristã, nas suas várias etapas, tem de estar muito presente na vida de todos os batizados. Somente cristãos convencidos da sua fé podem ser testemunhas do Ressuscitado e membros ativos da Igreja.

Atenção particular deve ser dada aos jovens no aprofundamento da sua fé e nas suas escolhas vocacionais que são chamados a fazer. É necessário saber escutar os jovens, dar-lhes a palavra, confiar neles e acompanhá-los; proporcionar-lhes experiências que deem sentido à sua vida, ajudá-los a discernir as ações dos seus corações e orientá-los nos momentos particularmente significativos.

Para que isto aconteça, uma pastoral juvenil que se quer seja sólida, bem articulada, eficaz e transversal a toda a pastoral da Igreja deve:

1º Aprofundar o conceito teológico de vocação;

2º Apresentar a vocação com um rosto verdadeiramente eclesial, como relação e comunhão, valorizando a experiência e a espiritualidade;

3º Trabalhar bem o humano e o cristão antes de partir para a questão das vocações específicas;

4º Criar momentos fortes de silêncio e recolhimento, que possibilitem o encontro com Deus.

 

3º Anunciar o Evangelho da família

  1. Há necessidade de estimular uma pastoral de atenção integral à família, com maior investimento na preparação para o sacramento do matrimónio (preparação remota, próxima, imediata). Trata-se de facilitar uma iniciação cristã em que a família se encontre com Cristo, viva no seu amor e fale d’Ele aos outros – o que implica aprender um modo de viver e viver em família, na perspetiva do Evangelho. Os pais precisam de ser testemunho. Pais que não vivem nem celebram a fé terão dificuldade em integrar-se e ajudar os filhos a inserirem-se adequadamente na Igreja. Os novos tempos pedem-nos conhecimento da fé, familiaridade com a Palavra de Deus, entendimento do que se propõe – pelo que temos de capacitar os pais através de uma conveniente formação cristã que os ajude numa vivência autêntica da fé.

A pastoral familiar exige que para além da Equipa Diocesana exista, em todos os arciprestados e em todas as paróquias, uma Equipa de Pastoral Familiar que cuide de todas as famílias, não esquecendo o acompanhamento de quem está em segundas núpcias e pretende a sua integração no seio da comunidade eclesial.

Na solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo, no dia 26 de novembro de 2017, foi aprovado o Documento «Acompanhar, Discernir, Integrar – Critérios de orientação pastoral para aplicação do capítulo VIII da Exortação Apostólica Amoris Laetitia» para toda a Diocese de Aveiro, que passou a fazer parte integrante da Pastoral Familiar Diocesana, sendo acompanhado com um Guia Prático para fazer o discernimento e de uma Introdução que ajudará no discernimento com os casais que vêm ao nosso encontro.

A preocupação pela pastoral familiar deve estar no centro das nossas preocupações pastorais quer diocesanas quer paroquiais, levando à prática as orientações propostas a toda a Diocese.

 

4º Cultivar uma pastoral vocacional

  1. Comprometer-se sem estar enamorado, no mínimo é voluntarismo. «Cada cristão e cada comunidade hão de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho» (EG 20). Jesus percorreu um caminho e ensinou, a todas as pessoas chamadas, a percorrerem um itinerário conforme o seu testemunho de vida e a história de cada pessoa. Falar de «pastoral vocacional significa aprender o estilo de Jesus, que passa pelos lugares da vida diária, se detém sem pressa e, olhando para os irmãos com misericórdia, os conduz ao encontro com Deus Pai» (Papa Francisco, Discurso aos participantes no Congresso de pastoral vocacional, 21/10/ 2016).

A Igreja sente-se chamada e ao mesmo tempo convocada a chamar. Há em toda a pessoa um dom de Deus a ser descoberto. “Todos e cada um dos membros da Igreja devem ser mediadores da proposta vocacional. O ministério do apelo vocacional diz respeito a todo o cristão: aos pais, aos catequistas, aos educadores, aos professores, em especial aos professores de EMRC e não apenas aos Bispos, presbíteros e diáconos ou aos consagrados da vida religiosa e secular” (CEP, Bases para a pastoral vocacional, 22). A Igreja onde as vocações podem desabrochar é aquela que escuta o clamor do povo e vive em processo permanente de renovação. Cada cristão deve assumir a responsabilidade de discernir qual a vocação à qual Deus o chama, e nós, como Igreja, temos a responsabilidade de ajudar a que a pessoa seja acompanhada e formada de acordo com a peculiar vocação e ministério para o qual tenha sido chamada. Uma comunidade de testemunhas é o ambiente necessário para a fecundidade vocacional.

A animação vocacional não pode reduzir-se à capacidade de ser bons animadores e a ações pontuais e isoladas, mas a um contínuo trabalho em profundidade. Precisamos de aperfeiçoar as atividades pastorais que já realizamos e criar iniciativas novas que respondam aos novos problemas. A vida comunitária, a vida espiritual e a vida apostólica devem ser capazes de inspirar experiências novas. Procuremos envolver as comunidades, os pastores, os pais, os catequistas e os educadores num novo e promissor despertar vocacional, para que todos assumam a sua própria vocação e missão. Comunidades que, em conjunto, partilham, rezam, celebram e ajudam a discernir sobre os sinais e a vontade de Deus tornam-se terreno fértil para que as pessoas, segundo as diversas vocações, possam viver o discipulado missionário de Jesus.

 

5º Todos somos necessários para a conversão pastoral

  1. A riqueza duma Igreja ministerial é reflexo do envolvimento de todas as instâncias da ação pastoral. Não se chega à meta e ao objetivo permanecendo confortavelmente sentados, esperando que tudo venha ao nosso encontro. À semelhança dos apóstolos, os batizados são chamados a dar testemunho ousado e coerente, e presente em todos os âmbitos da vida, desde os novos areópagos ao átrio dos gentios de hoje. «Os discípulos do Senhor são chamados a viver como comunidade que seja sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13-16). São chamados a testemunhar, de forma sempre nova, uma pertença evangelizadora» (EG 92). O convite que Jesus dirigiu aos apóstolos “Vinde e vede” deve tornar-se o caminho a seguir. Três verbos nos ajudam a estruturar este estilo pastoral: sair, ver, chamar. Precisamos efetivamente de animadores que arrisquem a convidar os jovens para ver mais longe, com propostas que os jovens encontrem sintonia entre a palavra e o gesto.

É impossível seguir a Cristo sem uma profunda vida de oração. É na oração que o crente acede ao conhecimento do Pai e é na oração que o Pai comunica ao crente a capacidade de atuar santamente. Apelo a toda a Diocese e a todas as comunidades e movimentos para intensificarem a oração pelas vocações.

 

Contemplando Maria, a jovem que acolheu a vontade do Senhor, mãe e mestra de discernimento, de seguimento incondicional e de assíduo serviço, e a vida de Santa Joana Princesa, nossa padroeira, compreenderemos a beleza da vida entregue ao projeto de Deus. Guiados pelo seu exemplo seremos capazes de discernir, fazer opções vocacionais para que esta beleza se torne vida e resplandeça no mundo.

 

Pai Santo,

fonte perene de existência e de amor,

Tu manifestas, no ser humano,

o esplendor da tua glória,

e colocas no seu coração

a semente do teu chamamento.

Faz de nós teus autênticos discípulos,

no matrimónio, no sacerdócio e na vida consagrada

e, abrindo-nos ao dinamismo do Espírito,

cheguemos a ser imagem

do teu ser e do teu amor.

Ámen.

_______

Aveiro, setembro de 2018

António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo

 

 

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

  • Facebook
  • Google+
  • Twitter
  • YouTube