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O Bom Pastor é aquele que dá a sua vida

Homilia no dia de Santa Joana Princesa – 12/5/2019

O Bom Pastor é aquele que dá a sua vida

 

  1. Deus oferece a sua vida aos homens em Jesus

A primeira leitura deste IV Domingo de Páscoa é mais um discurso kerigmático que nos aparece no livro dos Atos dos Apóstolos, isto é, no qual se fala na ressurreição de Jesus e as consequências que tem na nossa vida pessoal e na vida da comunidade cristã. Perante um auditório composto por judeus, S. Paulo proclama o evangelho da vida àqueles que a procuram com um coração sincero. O evangelho, isto é, o próprio Jesus ressuscitado, é um juízo crítico contra tantas situações pessoais e comunitárias que são mais sinais de morte que de vida.

O texto do evangelho faz parte do capítulo 10 de S. João e está situado no contexto da festa da dedicação do Templo, onde os judeus fazem várias perguntas a Jesus se ele é ou não realmente o Messias.

Nesta festa lia-se o discurso sobre os maus e os bons pastores do profeta Ezequiel e Jesus quer ensiná-los que ele não é um personagem nacionalista, mas aquele que sabe da necessidade de todos terem vida e a terem em abundância. Fala-lhes, também, de uma nova forma de compreender Deus. Os judeus nunca esperaram um Messias que sofrera e, portanto, capaz de dar a sua vida como Jesus se empenha em fazer. O verdadeiro Messias é aquele que dá a sua vida pelas ovelhas, isto é, pelo seu povo.

Para os judeus, as palavras de Jesus são um escândalo, porque toda a vida de Jesus é um juízo contra os que pensavam que o próprio Deus devia ajustar-se ao seu pensamento. O que Jesus nos quer dizer neste evangelho é que todo aquele que se encontra verdadeiramente com Jesus encontra-se com Deus; se Ele escuta as nossas preces, Deus faz o mesmo; se Ele dá a vida por nós, é isso mesmo que Deus faz por nós. Isto situa-nos diante daquele que «dá a sua vida» para que nós tenhamos a vida em abundância.

 

  1. Santa Joana Princesa, modelo de vocação de consagração

Olhamos hoje para Santa Joana Princesa e nela descobrimos a força da vocação e o desejo de ser toda de Deus, porque, como diz a Crónica/Memorial do convento, «crescia nesta excelente infanta e singular princesa um grande fervor, amor divinal do reino e glória eternal». Viver é sempre responder a um chamamento divino. Deus quis chamar-nos para cooperar com Ele e impelir-nos com a força do seu Espírito. Chamou os que ele quis. Ao longo da história, Deus foi chamando nas mais variadas circunstâncias: Moisés guardava o rebanho de Jetro, seu sogro… Samuel dormia… Pedro estava a pescar… Mateus estava na banca… Zaqueu em cima de uma árvore… e a Princesa Joana de Portugal no paço real de Lisboa…

No regresso da campanha de Marrocos, quando o rei D. Afonso V e os seus exércitos chegavam ao porto de Lisboa, a Princesa Joana pede ao pai que a deixe seguir a vocação de consagrar-se totalmente a Deus em qualquer dos mosteiros do reino: «suplico encarecida e ardentemente a vossa alteza que não pense mais, durante toda a vossa vida, em cuidar falar-me de qualquer casamento e, em troca de tanta alegria com que o Senhor Deus ordenara que vossa alteza, o príncipe e toda a sua gente voltassem ao reino, rogo que queira e me dê lugar e licença, como coisa dada e oferecida já a Deus, para me recolher em algum dos mosteiros do vosso reino, onde esteja mais à minha vontade e, com mais descanso do me espírito, me dedique a servir Aquele que por nos salvar todo Se ofereceu na cruz».

Se a nossa vida é fruto de um chamamento, é dom que devemos a outros, devemos-lhe uma resposta. Nascemos para corresponder ao chamamento que Deus nos fez à vida. O primeiro chamamento é, sem dúvida, o chamamento à vida, depois, através do batismo, Deus chama-nos a ser cristãos, isto é, seus discípulos; depois chama para uma vocação específica na Igreja e na sociedade (cf. DGC 231).

 

  1. A coragem de arriscar pela promessa de Deus

Este é o título da mensagem do Papa Francisco para esta semana de oração pelas vocações. Arriscar segundo o projeto de Deus é entregar a vida ao serviço do Evangelho e ajudar a que todos tenham «vida e a tenham em abundância».

Como afirmei na carta Pastoral Jesus chamou os que Ele quis, a nossa vida e a nossa presença no mundo são fruto dum chamamento divino, que deve ser reconhecido, acolhido e vivido. Falar da vocação é falar do caminho que cada pessoa percorre para construir a sua maneira própria de ser feliz e fazer felizes os outros. Cada pessoa possui uma missão ou vocação específica na vida. A sua concretização exige uma resposta.

Seguir Jesus é viver conduzido e animado pelo Espírito de Jesus. É refazer fiel e criativamente o caminho de Jesus, atualizando-o na nossa própria história. É viver e atuar movidos pelos mesmos valores que inspiraram e conduziram a vida de Jesus, e viver animado pela mesma confiança e esperança que O sustiveram ao longo da sua vida, paixão e morte. É realizar e atualizar no mundo de hoje as práticas do Reino de Deus realizadas por Jesus.

Queridos acólitos: Realizais hoje mais uma peregrinação diocesana – com um dia de encontro e formação – à nossa catedral no dia litúrgico da nossa Padroeira Santa Joana Princesa. Ela foi jovem como muitos de vós, ouviu o chamamento a ser amiga e discípula de Jesus e procurou ser fiel a esse chamamento. Vós sois muito importantes nas nossas paróquias para a beleza das celebrações. Conto convosco e desejo, como vosso amigo e pastor, lembrar-vos as palavras que o Papa Francisco dirige aos jovens no seu último documento Cristo Vive: «Quero que saibais que o Senhor, quando pensa em alguém, no que gostaria de lhe dar de prenda, vê-o como seu amigo pessoal. E se decidiu presentear-te com uma graça, um carisma que te fará viver plenamente a tua vida transformando-te numa pessoa útil aos outros, em alguém que deixa uma marca na história, será certamente algo que te deixará feliz no mais íntimo de ti mesmo e te entusiasmará mais do que qualquer outra coisa neste mundo. Não, porque o dom concedido seja um carisma extraordinário ou raro, mas porque é precisamente à tua medida, à medida de toda a tua vida (nº 288)

Quando o Senhor suscita uma vocação, não pensa apenas no que és, mas em tudo o que poderás, juntamente com Ele e os outros, chegar a ser» (nº 289).

 

Peçamos a Santa Joana Princesa pelos nossos jovens, que sejam generosos na descoberta do sentido para a sua vida, não tenham medo de seguir Jesus e tenham a fortaleza necessária para fazerem opções que os realizem pessoalmente e façam felizes e os outros.

 

 

Aveiro, 12 de maio de 2019.

+ António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro.

 

galeria de fotos da Solenidade de Santa Joana Princesa, 2019


 

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